{"id":12912,"date":"2010-08-17T22:13:00","date_gmt":"2010-08-18T00:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/bela-turca-senhora-do-tambor\/"},"modified":"2010-08-17T22:13:00","modified_gmt":"2010-08-18T00:13:00","slug":"bela-turca-senhora-do-tambor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/bela-turca-senhora-do-tambor\/","title":{"rendered":"BELA TURCA, SENHORA DO TAMBOR"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/TGsiXsWWx7I\/AAAAAAAABCc\/ctRMyKg_e7Y\/s1600\/cabocla03.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ox=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/cabocla03.jpg\"><\/a><\/div>\n<div>Meus camaradas, recebi uma incumb\u00eancia do If\u00e1 da\u00a0qual n\u00e3o posso e n\u00e3o quero\u00a0escapar. Devo escrever mais sobre a\u00a0religi\u00e3o da minha av\u00f3, que \u00e9, por ancestralidade, a minha. If\u00e1 me falou, nessa semana, de amor por um Brasil que me foi ensinado e revelado\u00a0e\u00a0determinou que eu\u00a0registre esse amor em palavras e cantos.\u00a0Farei isso. Alguns textos\u00a0com esse teor\u00a0s\u00f3\u00a0interessar\u00e3o, provavelmente, aos\u00a0ligados ao\u00a0tema. Registrarei esses textos com a marca &#8220;encantarias&#8221;. S\u00e3o apontamentos que j\u00e1 escrevi &#8211;\u00a0e estou refazendo com acr\u00e9scimos &#8211;\u00a0e algumas coisas\u00a0novas. Vamos l\u00e1.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o possui duas vener\u00e1veis casas matrizes de tambor-de-mina, religi\u00e3o de base afro-brasileira; a Casa Grande das Minas e a Casa de Nag\u00f4. A primeira cultua apenas os voduns, a segunda cultua tamb\u00e9m orix\u00e1s, encantados e caboclos. A Casa de Nag\u00f4 deu origem a in\u00fameros terreiros que difundiram a encantaria por toda ilha de S\u00e3o Lu\u00eds. <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Do Maranh\u00e3o o tambor-de-mina chegou ao Par\u00e1, travou contato com a pajelan\u00e7a ind\u00edgena e ganhou outras cores , absorvendo in\u00fameros novos encantados ao seu pante\u00e3o. Hoje quero fazer algumas observa\u00e7\u00f5es sobre eles, os encantados, entidades que me fascinam profundamente e bordaram de alumbramentos minha inf\u00e2ncia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Vale esclarecer algumas d\u00favidas. Na encantaria, por exemplo, o termo caboclo n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de entidade amer\u00edndia, podendo ser genericamente utilizado para designar entidades de variadas origens. Os caboclos, ou encantados, se reunem em fam\u00edlias, com um chefe e suas linhagens, que abrangem turcos, \u00edndios, reis, nobres, marujos, princesas, etc.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os encantados n\u00e3o s\u00e3o esp\u00edritos desencarnados; s\u00e3o pessoas, ou at\u00e9 animais, que viveram mas n\u00e3o chegaram a morrer, sofreram antes a experi\u00eancia do encantamento e foram morar no invis\u00edvel. De vez em quando saem de l\u00e1, pegam carona na asa do vento e\u00a0chegam \u00e0 terra, no corpo dos iniciados, para dan\u00e7ar, dar conselhos, curar doen\u00e7as, jogar conversa fora e matar as saudades do povo que continua por aqui.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A fam\u00edlia mais famosa de encantados \u00e9 a do Len\u00e7ol. Dizem que l\u00e1, na praia do Len\u00e7ol &#8211; Maranh\u00e3o -, mora o Rei Dom Sebasti\u00e3o, que encantou-se durante a batalha de Alc\u00e1cer-Quibir. Essa fam\u00edlia \u00e9 formada apenas por reis e fidalgos. A vinda do Rei Dom Sebasti\u00e3o ao corpo de uma sacerdotisa \u00e9 muito rara, alguns falam que ocorre de sete em sete anos. Da fam\u00edlia do Len\u00e7ol fazem parte ainda, dentre outros, Dom Lu\u00eds, o rei de Fran\u00e7a; Dom Manoel, conhecido como o Rei dos Mestres; a Rainha B\u00e1rbara Soeira; Dom Carlos, filho de Dom Lu\u00eds,\u00a0 e o famoso Bar\u00e3o de Gor\u00e9, tremendo cachaceiro e chegado num furdun\u00e7o dos brabos. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outra fam\u00edlia famosa de encantados \u00e9 a da Turquia, chefiada por um rei mouro, Dom Jo\u00e3o de Barabaia, que lutou contra os crist\u00e3os. \u00c9 a esta fam\u00edlia que pertence a Bela Turca, a cabocla Mariana, que vem ao mundo n\u00e3o apenas na forma de turca, mas tamb\u00e9m como marinheira, cigana ou \u00edndia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A casa de santo de minha av\u00f3, M\u00e3e Deda, tinha forte influ\u00eancia de duas tradi\u00e7\u00f5es, o candombl\u00e9 do Xamb\u00e1 pernambucano e a Encantaria maranhense. Tive a oportunidade de ver Toia Jarina, o Bar\u00e3o de Gor\u00e9 \u00a0e de\u00a0conversar algumas vezes com Dona Mariana, que nessas ocasi\u00f5es falou da minha vida e me deu conselhos absolutamente pertinentes. Sempre que este privil\u00e9gio aconteceu a Bela Turca apresentou-se como uma marinheira. Lembro-me, comovido, da cantiga que era entoada para\u00a0saudar \u00a0Dona Mariana, a desbravadora do tambor de Mina:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>J\u00e1 pensaram, amigos, o que um cartesiano de carteirinha, um filho da tradi\u00e7\u00e3o racionalista das luzes, diria disso tudo? Eu n\u00e3o fa\u00e7o, confesso,\u00a0l\u00e1 muita quest\u00e3o\u00a0de saber. Prefiro acreditar, como disse o mestre Jo\u00e3o Rosa, que o homem n\u00e3o morre; o homem se encanta. Se assim me foi contado, \u00e9 assim que eu conto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Abra\u00e7os<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meus camaradas, recebi uma incumb\u00eancia do If\u00e1 da\u00a0qual n\u00e3o posso e n\u00e3o quero\u00a0escapar. 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