{"id":12910,"date":"2010-08-21T08:09:00","date_gmt":"2010-08-21T10:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/chico-o-terrivel-em-duas-versoes\/"},"modified":"2010-08-21T08:09:00","modified_gmt":"2010-08-21T10:09:00","slug":"chico-o-terrivel-em-duas-versoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/chico-o-terrivel-em-duas-versoes\/","title":{"rendered":"CHICO, O TERR\u00cdVEL , EM DUAS VERS\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<div>Uso esse espa\u00e7o e vez em quando\u00a0para confessar algumas coisas que, em geral, o camarada s\u00f3 revela a um m\u00e9dium de mesa branca depois que vira defunto. Prefiro que eu mesmo me psicografe em vida, j\u00e1 que n\u00e3o sei se serei um morto confi\u00e1vel. J\u00e1\u00a0revelei em outros textos,\u00a0s\u00f3 para dar um exemplo, que um dos primeiros deslumbramentos er\u00f3ticos que tive foi\u00a0em um parque de divers\u00f5es durante a transforma\u00e7\u00e3o de\u00a0uma jovem em Konga, a mulher gorila.\u00a0\u00a0\u00c9 hora de retomar as confiss\u00f5es.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Confesso\u00a0aos senhores\u00a0que\u00a0durante a\u00a0inf\u00e2ncia tr\u00eas assombra\u00e7\u00f5es\u00a0foram capazes de tirar o meu sono: a mulher de branco, com sinistros\u00a0algod\u00f5es ensanguentados nas narinas, que\u00a0atacava crian\u00e7as em banheiros de col\u00e9gios; o\u00a0fantasma\u00a0do presidente\u00a0Get\u00falio Vargas [sempre tive p\u00e2nico de fantasmas de suic\u00eddas]\u00a0e o terr\u00edvel Chico. \u00c9 sobre o \u00faltimo que quero falar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Acontece que eu tive na escola, quando estava [salvo enganos] no Jardim II, uma professora que\u00a0 se sentia t\u00e3o a vontade para lidar com crian\u00e7as quanto um esquim\u00f3 deve se sentir no cal\u00e7ad\u00e3o de Bangu durante o ver\u00e3o. Dada a ataques furiosos, crises de choro e outros babados, a professora, uma vez por m\u00eas, se descabelava, amea\u00e7ava a garotada, revirava os olhos na \u00f3rbita, dava urros imcompreens\u00edveis, botava todo mundo de castigo e, subitamente, no meio do siricotico, gritava:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Eu hoje n\u00e3o t\u00f4 bem! Eu hoje mato um aluno! \u00c9 o dia do Chico chegar&#8230; o\u00a0Chico t\u00e1 chegando!<\/p>\n<p>Passei, desde ent\u00e3o, a imaginar o tal do Chico como uma besta fera pior que os defuntos que pulavam o muro do cemit\u00e9rio para atacar as pessoas na cal\u00e7ada do S\u00e3o Jo\u00e3o Batista [coisa que a minha tia Lita jurava que ocorria toda segunda feira]. O Chico devia ser assustador. Provavelmente, imaginava, era o esp\u00edrito de um homem mau que incorporava na minha professora uma vez por m\u00eas e era capaz das maiores barbaridades. <\/p><\/div>\n<div>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Dicion\u00e1rio do Folclore Brasileiro, do\u00a0mestre Luiz da\u00a0C\u00e2mara Cascudo, \u00e9 um dos meus livros de cabeceira. Gosto, sobretudo, dos verbetes que falam sobre\u00a0entidades fantasmag\u00f3ricas\u00a0do Brasil. Minhas prediletas s\u00e3o a On\u00e7a Borges e a On\u00e7a Cabocla, assombra\u00e7\u00f5es terr\u00edveis da regi\u00e3o do vale do S\u00e3o Francisco, capazes de fazer o Lobisomem parecer t\u00e3o feroz quanto Wilbor, o poodle gay da minha vizinha de porta. \u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A On\u00e7a Borges \u00e9 o vaqueiro Ventura, v\u00edtima do feiti\u00e7o de uma velha \u00edndia. Ataca, especialmente, o gado mi\u00fado. A On\u00e7a Cabocla \u00e9 mesmo uma felina que, entretanto, tem o poder de se transformar em velha tapuia durante as madrugadas. Sintam o drama: o alimento predileto da On\u00e7a Cabocla \u00e9 f\u00edgado humano e a bebida que mais agrada a bicha \u00e9 o sangue da v\u00edtima.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o h\u00e1 maneira de matar a On\u00e7a Cabocla, a n\u00e3o ser uma. Ela morre se for encarada, nos olhos, por uma mulher menstruada. Cai durinha da silva.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 mais ou menos como o Pai-do-Mato, famosa assombra\u00e7\u00e3o das matas de Alagoas, que tem cabelos imensos, unhas de dez metros e orelhas de cavaco. D\u00e1 um urro que estronda em toda a mata e engole gente sem mastigar. N\u00e3o pode ser morto por faca ou bala. S\u00f3 h\u00e1 duas formas de liquid\u00e1-lo. Ou se acerta uma roda que ele tem no umbigo ou se coloca uma donzela menstruada na frente do monstro que, nesse caso, cai fulminado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esses fatos sugerem uma digress\u00e3o. \u00c9 impressionante como, no imagin\u00e1rio popular, o fluxo catamenial \u00e9 tabu. Os antigos diziam que uma mulher menstruada n\u00e3o podia atravessar \u00e1gua corrente, passar perto de ninhos de aves, tocar em \u00e1rvores com frutos verdes, fazer a cama de rec\u00e9m-casados, dar o primeiro banho numa crian\u00e7a, tocar em bebidas em processo de fermenta\u00e7\u00e3o e outras coisas do tipo. Tudo que estivesse em desenvolvimento e fosse tocado por uma mulher nas regras, pereceria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa, digamos, peculiaridade, talvez explique o porque da On\u00e7a Cabocla preferir encarar um sujeito barbado com uma espingarda a cruzar com a mais delicada das mo\u00e7as naquela fase. \u00c9 fera pior que on\u00e7a, capaz de matar a mais ardilosa das surucucus com uma simples pisada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De minha parte, ouso dizer que temo mais a On\u00e7a Cabocla que a On\u00e7a Borges mas, sou obrigado a concordar com o povo , certas mulheres de chico, quando enfurecidas feito a minha professora, transformam as duas felinas do S\u00e3o Francisco em cordeiros mansos de f\u00e1bula infantil. Nem o Pai-do-Mato pode com elas. Nestas horas prefiro mil vezes encarar as on\u00e7as.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Abra\u00e7os<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uso esse espa\u00e7o e vez em quando\u00a0para confessar algumas coisas que, em geral, o camarada s\u00f3 revela a um m\u00e9dium de mesa branca depois queTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[314],"class_list":["post-12910","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-confissoes"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12910","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12910"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12910\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}