{"id":12908,"date":"2010-08-22T14:55:00","date_gmt":"2010-08-22T16:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/o-ponta-driblador-e-o-filosofo\/"},"modified":"2010-08-22T14:55:00","modified_gmt":"2010-08-22T16:55:00","slug":"o-ponta-driblador-e-o-filosofo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/o-ponta-driblador-e-o-filosofo\/","title":{"rendered":"O PONTA DRIBLADOR E O FIL\u00d3SOFO"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/THFSo8CzwVI\/AAAAAAAABC0\/vBXH8u_ejEk\/s1600\/encruzilhada.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ox=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/encruzilhada.jpg\"><\/a><\/div>\n<div>Laroi\u00ea, ag\u00f4.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Elegbara &#8211; o dono do corpo &#8211; \u00e9\u00a0o senhor da irrever\u00eancia,\u00a0capit\u00e3o das artimanhas e encantador das serpentes do tempo; o que bate suas asas e produz o desassombro do acaso. Elegbara \u00e9 o meu amigo Exu, aquele que um verso de If\u00e1 define como o menino querido de Olodumare.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando a raz\u00e3o observa a natureza, surge a ci\u00eancia. Quando \u00e9 a poesia que olha o que nos cerca, surge o orix\u00e1, o encantado, o caboclo de pena e o cati\u00e7o da rua. Os dois olhares n\u00e3o se excluem, antes se complementam. Exu \u00e9, por isso, \u00a0o olhar da poesia sobre\u00a0o princ\u00edpio ativo que gera o movimento e permite a vida. \u00c9 o que rompe, com a velocidade do d\u00ednamo, o estado de letargia das coisas e pessoas e confere vivacidade ao que estava morto ou n\u00e3o nasceu. Elegbara se torna, desta maneira,\u00a0o ax\u00e9\u00a0que possibilita que as coisas aconte\u00e7am; ele s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria realidade porque precede a ela.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Meu compadre \u00e9 o que transita serelepe entre o ay\u00ea e o orum &#8211; o vis\u00edvel e o invis\u00edvel &#8211; ; \u00e9 o senhor de tudo que se transmite, relata ou malandramente se insinua. \u00c9 a possibilidade de dizer e o sil\u00eancio do n\u00e3o dito &#8211; feito o ponta esquerda que pode\u00a0driblar\u00a0buscando a linha de fundo\u00a0ou\u00a0cortar pra dentro e bater com a perna trocada. Vais apostar em que, meu lateral?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Exu \u00e9\u00a0 palavra \u00e1spera, poema amoroso, grito de den\u00fancia e canto doce que rompe de beleza as manh\u00e3s do tempo. Exu est\u00e1 no ato de escrever e no ato da leitura; \u00e9 o signo e o significado de todas as formas de comunica\u00e7\u00e3o estabelecidas entre os homens.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ele\u00a0\u00e9, tamb\u00e9m , o p\u00e2nico dos med\u00edocres, a amea\u00e7a fatal aos que se acomodam em uma exist\u00eancia mesquinha e limitadora. Exu n\u00e3o gosta dos que buscam o conforto sem sobressaltos, dos que v\u00eaem na seguran\u00e7a acumulativa e nas conquistas individuais o destino \u00faltimo do ser humano. Exu amea\u00e7a tudo isso, j\u00e1 que inaugura nas nossas vidas o acaso que rompe planos minuciosamente elaborados. \u00c9\u00a0ele que\u00a0canta seu fundamento\u00a0na ca\u00edda dos b\u00fazios e dos dados e, quando cisma, desarticula tudo para que nos confrontemos com a necessidade de fundar a exist\u00eancia em bases diferentes: &#8211; Recrie a vida ; \u00e9 o\u00a0recado de\u00a0sua flauta em nossos ouvidos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os que demonizam meu compadre acertam, por\u00e9m, em um detalhe: &#8211; o homem \u00e9 perigoso. Perigoso porque escapa das limita\u00e7\u00f5es do racioc\u00ednio matem\u00e1tico [que tem p\u00e2nico do inesperado] e n\u00e3o compactua com f\u00f3rmulas que reduzem a vida a um jogo de cartas marcadas, com desfecho previs\u00edvel. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como poderemos, na limita\u00e7\u00e3o de nossa tosca e arrogante vis\u00e3o racionalista, entender Exu, o menino que colheu o mel dos gafanhotos, mamou\u00a0o leite das donzelas e acertou o p\u00e1ssaro ontem com a pedra que atirou hoje? \u00a0\u00a0Como\u00a0lidar com\u00a0aquele que\u00a0sentado bate com a cabe\u00e7a no teto e em p\u00e9 n\u00e3o atinge nem mesmo a altura do fogareiro?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Exu \u00e9\u00a0Pastinha na ginga, Garrincha no drible,\u00a0Dino no sete cordas, Grande Otelo na tela, o jagun\u00e7o na travessia, o sincopado do escurinho com fama de brig\u00e3o, a pimenta no caruru de Dona Flor, Tia Eul\u00e1lia no miudinho, a rima de Aniceto na roda de partido alto, o mote de Z\u00e9 Limeira, o trenzinho de seu Heitor Villa-Lobos, o manto do Bispo do Ros\u00e1rio, a sabedoria do professor\u00a0Milton Santos, a vida severina, o infinito enquanto dure\u00a0do poetinha e o provis\u00f3rio que se perpetua na poesia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Posso at\u00e9 imaginar a cena de\u00a0um verdadeiro encontro de civiliza\u00e7\u00f5es no mais improv\u00e1vel dos filmes: &#8211; O fil\u00f3sofo\u00a0Her\u00e1clito diz que viver \u00e9 a arte de esperar o inesperado. Um moleque, preto retinto, fil\u00e1 na cabe\u00e7a , p\u00e9s ligeiros e pau duro, solta\u00a0uma gargalhada\u00a0alegre\u00a0e responde ao grego, entre um gole e outro de marafo , enquanto descarna um bode, prepara o couro e dan\u00e7a no a\u00e7o da navalha:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; S\u00f3 percebeu isso agora, meu bom? <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Este preto feito tiziu\u00a0 mora no tempo, no meu\u00a0pa\u00eds, no mundo, na minha casa&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laroi\u00ea, ag\u00f4. Elegbara &#8211; o dono do corpo &#8211; \u00e9\u00a0o senhor da irrever\u00eancia,\u00a0capit\u00e3o das artimanhas e encantador das serpentes do tempo; o que bate suasTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[297],"class_list":["post-12908","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-encantarias"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12908","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12908"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12908\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12908"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12908"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12908"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}