{"id":12907,"date":"2010-08-24T23:08:00","date_gmt":"2010-08-25T01:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/chama-geraldo-assoviador-passarinho-do-brasil\/"},"modified":"2010-08-24T23:08:00","modified_gmt":"2010-08-25T01:08:00","slug":"chama-geraldo-assoviador-passarinho-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/chama-geraldo-assoviador-passarinho-do-brasil\/","title":{"rendered":"CHAMA GERALDO ASSOVIADOR, PASSARINHO DO BRASIL"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/THRptP97NHI\/AAAAAAAABC8\/TdD3qjiY7VY\/s1600\/geraldo_jpeg.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ox=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/geraldo_jpeg.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A pr\u00f3xima quinta feira, dia 26 de agosto, marca o anivers\u00e1rio de\u00a0encantamento de um passarinho cantador dos mais raros da fauna brasileira &#8211; o craque Geraldo Cleofas Dias Alves, o Geraldo Assoviador. Certa vez escrevi, no meu antigo blog, um texto louvando a mem\u00f3ria de Geraldo. O\u00a0 momento \u00e9 de homenagear de novo Geraldo, seguindo a li\u00e7\u00e3o dos mais velhos. A \u00fanica morte efetiva, incontorn\u00e1vel, maldita, \u00e9 o esquecimento. A vit\u00f3ria da vida \u00e9 a lembran\u00e7a. Geraldo \u00e9 Egungun no meu terreiro brasileiro; ele baila com as vestes sagradas dos ancestrais. Aqui, pelo menos, ele n\u00e3o ser\u00e1 esquecido. Contar dos ancestrais \u00e9 dar continuidade \u00e0 cultura e\u00a0manter as\u00a0tradi\u00e7\u00f5es da aldeia. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pe\u00e7o a licen\u00e7a na regra dos preceitos e\u00a0\u00a0louvo no texto abaixo\u00a0um ancestral do meu pa\u00eds. Ag\u00f4 Baba, Mojub\u00e1. Ag\u00f4\u00a0Bab\u00e1, Mojub\u00e1. Ag\u00f4 Bab\u00e1, Mojub\u00e1.\u00a0\u00a0O nome \u00e9 Geraldo Assoviador, e que ele um dia seja\u00a0lembrado pelos netos dos\u00a0 nossos\u00a0netos como fa\u00e7o agora.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Uma das\u00a0coisas que mais me fascinam no Brasil\u00a0\u00e9 a impressionante capacidade que o povo brasileiro teve de se\u00a0apropriar do futebol europeu &#8211; o tal do violento esporte bret\u00e3o &#8211; e\u00a0lidar com\u00a0o mesmo\u00a0n\u00e3o como\u00a0simulacro, mas como reinven\u00e7\u00e3o. Esse talvez seja o tra\u00e7o distintivo mais importante de um certo modo de ser brasileiro; a capacidade de apropria\u00e7\u00e3o de complexos culturais estranhos e\u00a0o poder de\u00a0os redefinir\u00a0como elementos originais. Coisas nossas, como disse o menino Noel Rosa.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo pensar, em suma, o Brasil sem refletir sobre o futebol e a cria\u00e7\u00e3o de um modo brasileiro de jogar bola completamente diferente do sisudo jogo inventado pelos brit\u00e2nicos. Isso vale para a m\u00fasica, a dan\u00e7a, a culin\u00e1ria, as formas de amar, sofrer, chorar, enterrar os mortos e celebrar a vida. Amamos, dan\u00e7amos, morremos, choramos, celebramos, comemos e tomamos cacha\u00e7a, enfim, da mesma forma como\u00a0gostamos de jogar\u00a0bola.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Digo isso e penso, imediatamente, na figura maior de um craque que, infelizmente, n\u00e3o tive a oportunidade de ver nos gramados como deveria. Falo de Geraldo Assoviador,\u00a0meio-campista do Flamengo de meados da d\u00e9cada de 1970.\u00a0Eu era bem menino, doido pela bola, e\u00a0ouvia impressionado meu av\u00f4 contar sobre uma mania que Geraldo tinha durante as partidas, a de assoviar enquanto realizava as jogadas mais inusitadas em campo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esse h\u00e1bito de jogar assoviando deu a Geraldo a fama de irrespons\u00e1vel, irreverente, descompromissado, chupa-sangue e outras baboseiras do g\u00eanero. Queriam que o neguinho Geraldo, mineiro de Bar\u00e3o de Cocais, se comportasse como um respeit\u00e1vel centro-m\u00e9dio europeu, de cenho franzido e olhar de touro brabo, uma esp\u00e9cie de candidato a meia direita da sele\u00e7\u00e3o da Esc\u00f3cia. Mas Geraldo era brasileiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o percebiam, os senhores cr\u00edticos, que Geraldo jogava bola com a mesma naturalidade com que cruzava uma esquina, comia um tutu com torresmo ou tomava uma abrideira para chamar o apetite. Geraldo jogava como vivia &#8211; ou vivia como jogava, sei l\u00e1.\u00a0J\u00e1 cansei de sonhar com\u00a0uma cena ( ser\u00e1 que ocorreu?) que \u00e9 a seguinte: durante um cl\u00e1ssico no Maracan\u00e3, est\u00e1dio lotado, uma pipa cai no meio do campo; Geraldo captura, com jeito moleque, o papagaio e come\u00e7a a empin\u00e1-lo, enquanto dribla os advers\u00e1rios e assovia em dire\u00e7\u00e3o ao gol.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Lembro-me, impressionad\u00edssimo, quando numa certa tarde de 1976 recebi a not\u00edcia de que Geraldo, o craque que assoviava, tinha acabado de morrer, aos 22 anos de idade, em consequ\u00eancia de uma parada card\u00edaca sofrida durante uma opera\u00e7\u00e3o de am\u00edgdalas. Quero crer que aquela foi a primeira not\u00edcia de morte que recebi, muito menino ainda,\u00a0na minha vida. Nunca mais esqueci. Meu av\u00f4, chorando copiosamente, repetia apenas: <\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Craca\u00e7o! craca\u00e7o! Que pena. Voc\u00ea, que gosta tanto de futebol, n\u00e3o viu esse garoto jogar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Muito tempo depois &#8211; meu av\u00f4 j\u00e1 tinha ido ol\u00f3 &#8211; eu estava num terreiro de candombl\u00e9 para\u00a0participar de\u00a0um xir\u00ea em homenagem a meu pai Ogum, o orix\u00e1 dos metais e da guerra. Eu tocava o lumpi, um dos atabaques sagrados. Durante a festan\u00e7a, com o coro comendo solto,\u00a0\u00a0Exu tomou o corpo de uma ya\u00f4 para participar da alegria de Ogum, seu dileto irm\u00e3o. Imediatamente, para se fazer reconhecido na terra, Exu gingou como ex\u00edmio capoeirista e deu o seu <em>il\u00e1<\/em> &#8211; o som que o orix\u00e1 emite quando sai do <em>Orum<\/em>, o pa\u00eds do\u00a0mist\u00e9rio, e vem ao <em>Ay\u00ea<\/em> , o nosso mundo, para comungar com os homens. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>O <em>il\u00e1<\/em> de Exu, meus camaradas, era um assovio longo e afinado, como quem silva para chamar o vento e\u00a0enfeiti\u00e7ar o mundo com\u00a0a precis\u00e3o do passe.<\/p>\n<p>Quem disse que eu n\u00e3o vi Geraldo em campo?<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pr\u00f3xima quinta feira, dia 26 de agosto, marca o anivers\u00e1rio de\u00a0encantamento de um passarinho cantador dos mais raros da fauna brasileira &#8211; o craqueTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[302],"class_list":["post-12907","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-futebol-2"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12907","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12907"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12907\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12907"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12907"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12907"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}