{"id":12904,"date":"2010-09-09T13:46:00","date_gmt":"2010-09-09T15:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/09\/a-festa-da-senhora-da-penha\/"},"modified":"2010-09-09T13:46:00","modified_gmt":"2010-09-09T15:46:00","slug":"a-festa-da-senhora-da-penha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/09\/a-festa-da-senhora-da-penha\/","title":{"rendered":"A FESTA DA SENHORA DA PENHA"},"content":{"rendered":"<div>Em breve, no m\u00eas de outubro, comemora-se no Rio de Janeiro a festa de Nossa Senhora da Penha. At\u00e9 quando, confesso, n\u00e3o sei. J\u00e1 recebi informa\u00e7\u00f5es de que algumas igrejas evang\u00e9licas se organizam para fazer sistem\u00e1tica propaganda contra\u00a0a festan\u00e7a.\u00a0As mesmas igrejas andam distribuindo,\u00a0no Par\u00e1, panfletos contra\u00a0o C\u00edrio de Nazar\u00e9. <\/p>\n<p>\u00c9 sobre a amea\u00e7ada \u00a0festa da\u00a0Penha, portanto, que quero falar.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tudo come\u00e7ou\u00a0no s\u00e9culo XVII, nos arrabaldes da cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro. Um portugu\u00eas, Baltazar de Abreu Cardoso, saiu para ca\u00e7ar em suas terras. Subitamente apareceu, trai\u00e7oeira , uma cobra gigantesca. Apavorado, sentindo o bafo da indesejada das gentes [<em>apud<\/em> o Seu Manu Bandeira], o\u00a0portuga apelou aos c\u00e9us: &#8211; Valei-me, minha Nossa Senhora da Penha!<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Feito o apelo, apareceu um lagarto que botou\u00a0a pe\u00e7onhenta\u00a0para correr. Baltazar de Abreu Cardoso, comovido,\u00a0ergueu uma ermida no local do milagre. Prometeu, tamb\u00e9m, fazer anualmente uma festa para relembrar o fato. Assim conta o povo. Como n\u00e3o costumo ir contra a for\u00e7a da rapaziada e sou\u00a0menos um adepto de cren\u00e7as do que de ritos,\u00a0ateu cansado de presenciar milagres, conto a\u00a0hist\u00f3ria. Come\u00e7ou a\u00ed uma das maiores tradi\u00e7\u00f5es cariocas, a festa da Penha.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Feita a devida\u00a0refer\u00eancia\u00a0ao sagrado constato que o milagre maior n\u00e3o foi o da santa. Foi o do povo carioca, que tomou para si a festa e a transformou, no in\u00edcio da Rep\u00fablica, numa esp\u00e9cie de folia pr\u00e9-carnavalesca e espa\u00e7o de exerc\u00edcio da cidadania informal. Aos fatos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A Rep\u00fablica das oligarquias\u00a0n\u00e3o gostava do povo e criminalizava a cultura popular. A escravid\u00e3o fora abolida em 1888. Os homens do poder poderiam, perfeitamente, ter pensado na adequa\u00e7\u00e3o do ex-escravo ao mercado formal de trabalho e aos meandros formais da cidadania. Coisa nenhuma. Optou-se apenas\u00a0pela vinda do imigrante europeu, em uma\u00a0 tentativa sistem\u00e1tica\u00a0de promover uma esp\u00e9cie de branqueamento racial que colocasse o pa\u00eds na trilha da civiliza\u00e7\u00e3o. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>A tara desse pessoal\u00a0 era modernizar e higienizar o Rio de Janeiro, adotando Paris, a capital francesa, como modelo de conduta e estrutura\u00e7\u00e3o urbana. E tome de derrubar corti\u00e7os e colocar a pol\u00edcia para descer\u00a0o cacete\u00a0em pretos e pobres. Nesse clima, as manifesta\u00e7\u00f5es populares &#8211; o samba, a capoeira e a macumba, por exemplo &#8211; eram duramente reprimidas, vistas como s\u00edmbolos do atraso e da barb\u00e1rie.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas o povo, meus amigos, deu o n\u00f3 na caninana. A rapaziada virou dona da festa e dela fez seu pertencimento. Os capoeiras cortaram o mato\u00a0nas rodas de volta ao mundo, as baianas prepararam a comida do santo\u00a0e os\u00a0bambas mostraram os sambas que tinham acabado de compor. A festa se transformou no maior evento popular do Rio de Janeiro depois do carnaval.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os donos do poder fizeram de tudo para impedir o furdun\u00e7o. Em 1904, 1907 e 1912, a prefeitura proibiu rodas de samba nas proximidades da Penha. A rapaziada foi l\u00e1, saiu na porrada e fez. Havia ordem de pris\u00e3o para praticantes da capoeira.\u00a0O berimbau\u00a0puxou o toque de S\u00e3o Bento Grande\u00a0\u00a0e o povo gingou. A baiana temperou o acaraj\u00e9, a cerveja gelou e o Rio de Janeiro, p\u00e1tria de Lima Barreto, mostrou que o espa\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a rua.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao ler um belo texto sobre a festa (do livro <em>A Subvers\u00e3o pelo riso ,<\/em>\u00a0de Rachel Soihet ) deparei-me com uma not\u00edcia publicada pelo Jornal do Brasil em 1904: Um violonista foi preso e espancado pela pol\u00edcia por insistir em cantar sambas nas escadarias da igreja. Tenho desde ent\u00e3o\u00a0a certeza de que no ano seguinte, e no outro ano tamb\u00e9m, esse violonista voltou ao monte da Penha e orou em forma de batuque aos p\u00e9s da ermida sagrada. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Aos capoeiristas, malandros, sambistas, macumbeiros, baianas, floristas, carroceiros, condutores de bonde, putas, jogadores, brancos, negros , mulatos, enfim, ao povo festeiro da Penha, acendo minha vela de sete dias (para durar!) no altar das brasilidades. A Virgem, tenho convic\u00e7\u00e3o, aprova o gesto desse seu modesto devoto. Ela sabe, mais do que ningu\u00e9m, que maiores s\u00e3o os milagres do povo. E se a santinha se \u00a0esquecer disso, Exu, o compadre,\u00a0vai l\u00e1, canta um samba, faz a festa e, respeitosamente,\u00a0avisa.<\/div>\n<div>Que a Senhora da Penha nos livre dos novos bichos de pe\u00e7onha &#8211; os que querem melar a festa &#8211;\u00a0e proteja a todos n\u00f3s, homens comuns do Brasil.<\/p>\n<p>Sarav\u00e1!<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em breve, no m\u00eas de outubro, comemora-se no Rio de Janeiro a festa de Nossa Senhora da Penha. At\u00e9 quando, confesso, n\u00e3o sei. 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