{"id":12900,"date":"2010-09-25T09:58:00","date_gmt":"2010-09-25T11:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/09\/ogum-o-senhor-de-tecnicas-e-artes\/"},"modified":"2010-09-25T09:58:00","modified_gmt":"2010-09-25T11:58:00","slug":"ogum-o-senhor-de-tecnicas-e-artes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/09\/ogum-o-senhor-de-tecnicas-e-artes\/","title":{"rendered":"OGUM, O SENHOR DE T\u00c9CNICAS E ARTES"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/ogum1.gif\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" px=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/ogum1.gif\"><\/a><\/div>\n<div>Dentre os orix\u00e1s africanos mais populares no Brasil e em Cuba, pa\u00edses em que o conhecimento de If\u00e1\u00a0se estabeleceu com significativa for\u00e7a, est\u00e1 certamente Ogum.\u00a0Creio tamb\u00e9m que Ogum \u00e9, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, um orix\u00e1 mal compreendido do lado de c\u00e1 do Atl\u00e2ntico.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ogum ocupa, na mitologia dos iorub\u00e1s, a fun\u00e7\u00e3o do her\u00f3i civilizador e senhor das tecnologias. Foi ele, por exemplo, que ensinou o segredo do ferro aos demais orix\u00e1s e\u00a0mostrou\u00a0a Oxagui\u00e3 como fazer a enxada, a foice, a p\u00e1, o enxad\u00e3o, o ancinho, o rastelo e o arado. Desta maneira permitiu que o cultivo em larga escala do inhame salvasse da fome o povo de Ejigb\u00f4. Em agradecimento ao ferreiro, Oxagui\u00e3 passou a usar em seu <em>ax\u00f3 funfun<\/em> [a roupa imaculadamente branca da corte de Obatal\u00e1] um la\u00e7o azul &#8211; a cor de Ogum.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ogum tamb\u00e9m ensinou aos orix\u00e1s como moldar na forja os adornos mais bonitos e os utens\u00edlios que enfeitam as dan\u00e7as dos deuses entre os homens. Desprovido de ambi\u00e7\u00f5es materiais,\u00a0recusou a coroa e\u00a0entregou toda a riqueza que acumulara a\u00a0uma simples vendedora de aca\u00e7\u00e1 que lhe pedira esmola. <\/div>\n<div>Ogum \u00e9 irm\u00e3o dileto de Exu. Recusou,\u00a0em um dos poemas do If\u00e1,\u00a0oferendas suntuosas. Mandou que os presentes fossem entregues a Exu e disse: quem agrada e cuida do meu irm\u00e3o \u00e9 aquele que verdadeiramente\u00a0me agrada. Ao burburinho das cortes, preferiu a solid\u00e3o das matas e das grandes\u00a0 ca\u00e7adas ao lado de Od\u00e9. Aos trajes suntuosos, preferiu a simplicidade da roupa feita com as franjas das folhas do dendezeiro.<\/p>\n<p>Ogum virou general para acabar com as guerras. Em um mito de extrema beleza, Ajagun\u00e3\u00a0brigava sem parar\u00a0\u00a0e n\u00e3o atendia aos apelos de nenhum orix\u00e1. Ogum se aproximou de Ajagun\u00e3 e disse: Bab\u00e1, me entregue as suas armas e o seu escudo; eu fa\u00e7o a guerra para que o senhor descanse. Ajagun\u00e3 entregou os utens\u00edlios de batalha a Ogum &#8211; que prometeu jamais us\u00e1-los em um conflito desnecess\u00e1rio. <\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O mito de Ogum mais difundido no Brasil, entretanto, \u00e9 outro. Me refiro ao\u00a0epis\u00f3dio\u00a0em\u00a0que ele volta, ap\u00f3s\u00a0uma longa temporada de ca\u00e7a e guerra, ao povoado de Ir\u00ea. Ogum chega a Ir\u00ea\u00a0no dia dedicado, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, ao sil\u00eancio absoluto. Em virtude desse dia do sil\u00eancio, Ogum n\u00e3o foi saudado pela popula\u00e7\u00e3o da forma como esperava. Enfurecido, se considerando injustamente\u00a0desprestigiado, pegou sua espada, destruiu as casas, ruas, pra\u00e7as e mercados,\u00a0massacrou todo o povo e\u00a0tomou banho\u00a0com o sangue dos que acabara de matar &#8211; amigos, inimigos, familiares e desconhecidos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pouco tempo depois, um \u00fanico sobrevivente reverenciou Ogum e disse que o povo n\u00e3o o saudara em virtude da tradi\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio. Ogum ficou inconsol\u00e1vel e admitiu que se esquecera do ritual. Profundamente arrependido do banho de sangue &#8211; pelo qual jamais se perdoou &#8211; resolveu desistir de ca\u00e7adas e guerras,\u00a0cravar sua espada no solo e sumir na terra, virando para sempre um orix\u00e1. Desde ent\u00e3o Ogum respeita o sil\u00eancio dos homens e n\u00e3o gosta de gritarias.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um dos versos mais famosos de Ogum &#8211; aquele que tendo \u00e1gua em casa se lava com sangue &#8211; se refere exatamente a este epis\u00f3dio emblem\u00e1tico, o mais lament\u00e1vel na trajet\u00f3ria do grande her\u00f3i civilizador do povo iorub\u00e1, e do qual o ferreiro se arrependeu com todas as suas for\u00e7as. Esse verso, retirado do contexto do mito, perde todo o sentido que a sabedoria de If\u00e1 estabeleceu &#8211; est\u00e1 a\u00ed, na rea\u00e7\u00e3o intempestiva,\u00a0a negatividade, a perda do ax\u00e9, da energia de Ogum.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A partir dessas hist\u00f3rias, as mais emblem\u00e1ticas e que fundamentam o culto a Ogum, chego ao ponto que me parece crucial. No Novo Mundo, especialmente no Brasil e em Cuba, a face mais marcante do orix\u00e1\u00a0&#8211; a do ferreiro, patrono da agricultura, professor de Bab\u00e1 Oxagui\u00e3, inventor do arado, desligado de bens materiais, senhor das tecnologias que mataram a fome do povo e\u00a0permitiram a recria\u00e7\u00e3o de\u00a0mundos como arte &#8211;\u00a0praticamente desapareceu. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>A explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova: a agricultura nas Am\u00e9ricas estava diretamente ligada aos horrores da escravid\u00e3o. Como querer que um escravo, submetido ao infame cativeiro e aos rigores da lavoura, louvasse os instrumentos do cultivo como d\u00e1diva? Como enxergar no arado, na enxada e no ancinho instrumentos de liberta\u00e7\u00e3o, quando os mesmos representavam a submiss\u00e3o ao senhor e o fruto da colheita\u00a0n\u00e3o pertencia a quem arava o solo? <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ogum foi perdendo, ent\u00e3o, o perfil fundamental de her\u00f3i civilizador &#8211; a maior de suas tantas belezas. Seu culto entre n\u00f3s, cada vez mais, se ligou apenas aos mitos do guerreiro. Ogum \u00e9 o\u00a0general da justi\u00e7a e da repara\u00e7\u00e3o contra o horror do cativeiro, mas\u00a0pode ser\u00a0tamb\u00e9m o guerreiro\u00a0louco e\u00a0implac\u00e1vel que, assim como salva,\u00a0\u00e9 capaz de destruir\u00a0\u00e0queles que ama e viver na solid\u00e3o absoluta.<\/p>\n<p>Prevaleceu na di\u00e1spora, portanto, o Ogum do qual o pr\u00f3pio Ogum, em larga medida,\u00a0se arrependeu: o intempestivo guerreiro que, em um momento de incontrol\u00e1vel acesso de f\u00faria, foi capaz de se lavar com o sangue do\u00a0 pr\u00f3prio povo. Envergonhado desse banho, preferiu deixar a terra e viver no Orum.\u00a0<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Fa\u00e7o essas observa\u00e7\u00f5es\u00a0porque sobre elas reflito constantemente. A raz\u00e3o \u00e9 simples: sou filho de Ogum, iniciado no culto ao grande orix\u00e1. Passei pela cerim\u00f4nia que me permite usar a faca consagrada do meu pai. Os que s\u00e3o do santo sabem o que quero dizer com isso, e \u00e9 suficiente. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ogum \u00e9 meu pertencimento mais profundo. Mora dentro de mim como mora no magma da terra. Sei que sou capaz da cria\u00e7\u00e3o &#8211; Ogum \u00e9 antes de mais nada um criador &#8211; mas sei tamb\u00e9m que sou capaz da f\u00faria. Sou filho do deus que criou a civiliza\u00e7\u00e3o com o\u00a0arado e destruiu a civiliza\u00e7\u00e3o com a espada.\u00a0Posso ser\u00a0capaz, como\u00a0meu pai, \u00a0da can\u00e7\u00e3o e do mart\u00edrio. Flor e afiada faca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um grande babal\u00f4, em certa ocasi\u00e3o,\u00a0recitou para mim\u00a0um poema de If\u00e1 com\u00a0a seguinte trama: um filho de Ogum perguntou ao\u00a0or\u00e1culo quem era o seu maior inimigo e como fazer para encontr\u00e1-lo e destru\u00ed-lo. Orunmil\u00e1 determinou que esse homem fizesse sacrif\u00edcios com galos e caramujos\u00a0e seguisse determinado caminho. No final\u00a0da vereda\u00a0o inimigo o estaria\u00a0aguardando para o combate. Assim foi feito. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ap\u00f3s longa caminhada, o homem atingiu o fim da estrada e encontrou apenas um\u00a0pequeno lago de \u00e1guas\u00a0cristalinas. Julgando que o\u00a0algoz ainda n\u00e3o chegara, resolveu lavar as m\u00e3os no lago. Ao se agachar o homem viu, com nitidez impressionante, a sua pr\u00f3pria imagem refletida no espelho d\u00b4\u00e1gua. <\/p>\n<p>Era a resposta de If\u00e1.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A\u00a0arte da cria\u00e7\u00e3o e o exerc\u00edcio\u00a0da simplicidade generosa \u00e9,\u00a0para os filhos de Ogum, o descanso na loucura e a \u00fanica maneira de domar o inimigo que (me) espreita\u00a0ao final de cada jornada.<\/div>\n<div>Ogunh\u00ea !!<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dentre os orix\u00e1s africanos mais populares no Brasil e em Cuba, pa\u00edses em que o conhecimento de If\u00e1\u00a0se estabeleceu com significativa for\u00e7a, est\u00e1 certamente Ogum.\u00a0CreioTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[295,297],"class_list":["post-12900","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-brasileiras","tag-encantarias"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12900","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12900"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12900\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12900"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12900"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12900"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}