{"id":12898,"date":"2010-10-02T08:53:00","date_gmt":"2010-10-02T10:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/10\/o-brasil-nasceu-da-melancolia-de-zambi\/"},"modified":"2010-10-02T08:53:00","modified_gmt":"2010-10-02T10:53:00","slug":"o-brasil-nasceu-da-melancolia-de-zambi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/10\/o-brasil-nasceu-da-melancolia-de-zambi\/","title":{"rendered":"O BRASIL NASCEU DA MELANCOLIA DE Z\u00c2MBI"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>Zambiapungo &#8211; o senhor supremo &#8211; se entristeceu um dia, cansado da solid\u00e3o do poder e das tarefas da cria\u00e7\u00e3o. Cogitava mesmo, o pai maior, interromper o curso do mundo. Faltava alguma coisa que justificasse aquela grandeza toda. Z\u00e2mbi, que sabia de tudo, achava que tinha criado todas as coisas necess\u00e1rias para a vida. Mas estava triste e recorreu aos inquices, voduns e orix\u00e1s, seus filhos diletos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Pediu a Zaratempo que inventasse algo para despertar seu interesse e o impedir de desistir do mundo &#8211; e Tempo criou as esta\u00e7\u00f5es do ano com todas as suas mudan\u00e7as. Z\u00e2mbi gostou, mas n\u00e3o sorriu.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Z\u00e2mbi chamou Katend\u00ea e pediu a mesma coisa. Katend\u00ea, o senhor das jinsabas [folhas] , falou ao pai sobre o poder medicinal das plantas. O deus supremo se interessou um pouco, mas ainda assim n\u00e3o sorriu.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Matamba foi a pr\u00f3xima a tentar alegrar Z\u00e2mbi. A senhora dos mortos e condutora das ventanias mostrou a for\u00e7a dos furac\u00f5es e o baile fabuloso dos rel\u00e2mpagos. Z\u00e2mbi olhou, aplaudiu admirado, mas continuou triste.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>E assim vieram todos os deuses do Congo. Vunji trouxe as crian\u00e7as; Angor\u00f4 inventou o arco-\u00edris; Gongobira deu a Z\u00e2mbi um rio de peixes coloridos; Dandalunda chamou as luas que mudam mar\u00e9s; Mutalamb\u00f4 fez um banquete com as ca\u00e7as trazidas das densas florestas; Roxo-Mucumbi forjou ferramentas e adagas no ferro em brasa; Lemb\u00e1 Dil\u00ea conduziu um cortejo branco de pombas, cabras e caramujos&#8230; <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Zambi gostou e agradeceu, mas continuou triste.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>At\u00e9 que Z\u00e2mbi perguntou se Zaze, o dono do fogo, sabia de alguma coisa que pudesse afastar aquele banzo de melancolia. Zaze, a quem os iorub\u00e1s chamam de Xang\u00f4, consultou o adivinho Tata Zambura e imolou Bal\u00e1ku, o carneiro, em sacrif\u00edcio. As carnes foram repartidas entre as divindades do Congo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Zaze, em seguida, aqueceu a pele do carneiro na fogueira. Ainda com o fogo, tornou oco o peda\u00e7o de um tronco seco da floresta. Sobre uma das extremidades do tronco oco, Zaze esticou a pele do carneiro e inventou Ingoma &#8211; o tambor. <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Zaze come\u00e7ou a percutir o couro com toda a for\u00e7a e destreza. Aluvai\u00e1, aquele que os iorub\u00e1s conheciam como Exu e os fons como Legb\u00e1, dan\u00e7ou ao som do tambor de Zaze e, logo depois, todos os deuses do Congo , ao som do Ingoma, fizeram a primeira festa na manh\u00e3 do mundo. <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Zambiapungo gostou do fuzu\u00ea do tambor de Zaze e descansou feliz. Era isso que faltava. Z\u00e2mbi sorriu.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um filho de Zaze, muito tempo depois, foi capturado na floresta e jogado no por\u00e3o de um navio. Esse negro do Congo chegou, entre correntes de ferro e centenas de outros homens, ao outro lado da calunga grande &#8211; na terra onde Zambiapungo era mais conhecido como Tup\u00e3. <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O filho de Zaze, mesmo entre a dureza das correntes e o cheiro da morte do seu povo, conseguiu levar para o pa\u00eds de Tup\u00e3 o Ingoma inventado pelo seu pai. <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao chegar do outro lado do mar, submetido &#8211; e sempre insubmisso &#8211; ao horror do cativeiro, o negro bateu forte no tambor, convidou para o fuzu\u00ea o povo de Tup\u00e3 e chamou, com a for\u00e7a do ritmo ancestral, todos os deuses. Eles vieram, atra\u00eddos pelo fervor das dan\u00e7as e pelo clamor das festas, e resolveram ficar. <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>At\u00e9 mesmo alguns dos que chegaram para dominar a terra foram seduzidos e civilizados pela festa. A generosa festa dos filhos de Z\u00e2mbi.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>E assim, ao toque salvador de mundos do ingoma grande, nasceu o Brasil e o seu povo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Abra\u00e7os<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zambiapungo &#8211; o senhor supremo &#8211; se entristeceu um dia, cansado da solid\u00e3o do poder e das tarefas da cria\u00e7\u00e3o. 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