{"id":12897,"date":"2010-10-04T15:01:00","date_gmt":"2010-10-04T17:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/10\/o-risco-dos-descolados\/"},"modified":"2010-10-04T15:01:00","modified_gmt":"2010-10-04T17:01:00","slug":"o-risco-dos-descolados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/10\/o-risco-dos-descolados\/","title":{"rendered":"O RISCO DOS DESCOLADOS"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/TKoIJ_8Sr4I\/AAAAAAAABFo\/JGFBRcFl5Ms\/s1600\/CADEG.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" px=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/CADEG.jpg\" width=\"213\"><\/a><\/div>\n<div><strong><em>(Texto publicado no jornal O Globo, coluna Opini\u00e3o, do dia 4 de outubro de 2010)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Costumo definir cultura como todo o processo humano de cria\u00e7\u00e3o e recria\u00e7\u00e3o de formas de viver. Cultura \u00e9, nessa perspectiva, o conjunto de padr\u00f5es de comportamento, vis\u00f5es de mundo, elabora\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos, cren\u00e7as, anseios, h\u00e1bitos e tradi\u00e7\u00f5es que distinguem determinados grupos sociais.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O problema, nos dias atuais, \u00e9 que ao inv\u00e9s de se entender a economia como parte constitutiva da cultura &#8211; esse poderoso campo que engloba nossos atos e nos define como homens humanos &#8211; vigora cada vez mais uma perspectiva que transforma a cultura em parte constitutiva da economia &#8211; esse campo que, quando determinante, nos define como meros consumidores, alheios ao processo de elabora\u00e7\u00e3o de formas de vida e desumanizados, por conseguinte.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Penso nisso, por exemplo, quando observo com extremo cuidado o que vem acontecendo com o Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara, o popular CADEG de Benfica. O mercado passa, segundo reportagens recentemente veiculadas em v\u00e1rios jornais e revistas, por um processo de revitaliza\u00e7\u00e3o, ganhando ares de p\u00f3lo gastron\u00f4mico de ponta, com restaurantes sofisticados e lojas de queijos e vinhos pintando no peda\u00e7o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Certos grupos da Zona Sul, que costumam achar que qualquer programa que ultrapasse o t\u00fanel Rebou\u00e7as em dire\u00e7\u00e3o ao sub\u00farbio \u00e9 uma esp\u00e9cie de saf\u00e1ri ex\u00f3tico, come\u00e7am a se aventurar rumo \u00e0 Benfica. Nesse ritmo o CADEG ainda vira cen\u00e1rio de novela do Manoel Carlos. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Acho muito interessante que toda a popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro conhe\u00e7a e visite o CADEG \u2013 h\u00e1 de fato \u00f3timos restaurantes, compra-se de tudo e aos s\u00e1bados ocorre um dos melhores furdun\u00e7os da cidade, a festa da col\u00f4nia portuguesa que, entre sardinhas, vinho verde e fado, lota o restaurante Cantinho das Concertinas para matar a saudade da terrinha. Vejo com bons olhos, tamb\u00e9m, que o lugar esteja cuidado, acess\u00edvel e fortalecido. At\u00e9 a\u00ed t\u00e1 tudo bem.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O risco do balacobaco, por\u00e9m, \u00e9 que a tal da revitaliza\u00e7\u00e3o se transforme em descaracteriza\u00e7\u00e3o e elitiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Para in\u00edcio de conversa a pr\u00f3pria express\u00e3o revitalizar me parece complicada \u2013 vitalidade \u00e9 o que nunca faltou ao CADEG. O carioca sempre foi ao CADEG, almo\u00e7ou por ali, comprou flores, tomou seus gor\u00f3s, recriou a vida e, dessa maneira, produziu cultura. O perigo \u00e9 que os descolados de plant\u00e3o transformem o mercado de Benfica na nova moda da esta\u00e7\u00e3o e o pre\u00e7o a se pagar por essa onda seja caro demais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Que me desculpem todos aqueles que enxergam nesse processo apenas o lado financeiro que a tal da revitaliza\u00e7\u00e3o proporciona. A onda das pequenas empresas e grandes neg\u00f3cios n\u00e3o \u00e9 aquela que esse escriba costuma surfar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outro dia mesmo cruzei no CADEG, enquanto me preparava para comer sardinha com os conterr\u00e2neos do Pedro \u00c1lvares Cabral, com um conhecido que pintou na \u00e1rea pela primeira vez. Estranhei a presen\u00e7a do ilustre, que me disse estar ali para participar de uma degusta\u00e7\u00e3o de vinhos. O sujeito tratava os vinhos com uma intimidade impressionante e parecia um psic\u00f3logo descrevendo o perfil emocional da bebida: \u00e9 um vinho que a princ\u00edpio se mostra t\u00edmido, mas aos poucos revela um car\u00e1ter agressivo e grande personalidade&#8230; Dei um jeito de pular fora.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O que me preocupa \u00e9 imaginar como o freq\u00fcentador tradicional do CADEG vai lidar com isso. Penso naquele camarada que vai ao mercado para cumprir um verdadeiro ritual. Me interessa saber o que vai acontecer com o carioca morador da Zona Norte que, como eu, faz no CADEG as compras da feijoada de domingo e do bacalhau de Natal e arremata com a cerveja gelada e o tradicional contrafil\u00e9 com fritas do Poleiro do Galeto. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas isso \u00e9 cultura, recria\u00e7\u00e3o da vida, vitalidade, coisa que n\u00e3o costuma encher os cofres com mais opul\u00eancia e nem d\u00e1 not\u00edcia em revistas e jornais. N\u00e3o duvido que os vampiros de sempre suguem at\u00e9 a \u00faltima gota a novidade da moda e, em breve, metam os dentes em outros pesco\u00e7os. \u00c9 assim que costuma ocorrer.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esperemos apenas que, depois do vendaval e do fim do saf\u00e1ri, a cerveja continue gelada. \u00c9 com ela que os homens comuns costumam brindar, fora das p\u00e1ginas de revistas, longe das c\u00e2meras de TV e livres do encosto das celebridades, a maneira simples e carioca de inventar a vida. <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Texto publicado no jornal O Globo, coluna Opini\u00e3o, do dia 4 de outubro de 2010) Costumo definir cultura como todo o processo humano de cria\u00e7\u00e3oTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[295],"class_list":["post-12897","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-brasileiras"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12897","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12897"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12897\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12897"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12897"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12897"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}