{"id":12886,"date":"2010-12-07T08:44:00","date_gmt":"2010-12-07T10:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/12\/noel-o-poeta-do-samba-e-da-cidade\/"},"modified":"2010-12-07T08:44:00","modified_gmt":"2010-12-07T10:44:00","slug":"noel-o-poeta-do-samba-e-da-cidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/12\/noel-o-poeta-do-samba-e-da-cidade\/","title":{"rendered":"NOEL, O POETA DO SAMBA E DA CIDADE"},"content":{"rendered":"<div><em><strong>Foi\u00a0lan\u00e7ado ontem\u00a0o livro <span><span>Noel Rosa, o poeta do samba e da c<\/span><\/span><span>idade<\/span> , do camarada Andr\u00e9 Diniz. O furdun\u00e7o foi no Trapiche Gamboa, com a participa\u00e7\u00e3o de Alfredo Del-Penho e Soraya Ravenle cantando o poeta da Vila.\u00a0Convidado pelo\u00a0autor, camarada de sambas e copos,\u00a0escrevi o pref\u00e1cio do livro, que reproduzo abaixo:<\/strong> <\/em><\/div>\n<div>V\u00e1rios s\u00e3o os casos na hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira da \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a obra criada e o local de onde veio o artista. \u00c9 imposs\u00edvel, por exemplo, compreender Luiz Gonzaga e Jo\u00e3o do Vale sem o sert\u00e3o nordestino, Dorival Caymmi sem o mar da Bahia, Waldemar Henrique sem a floresta amaz\u00f4nica e Adoniram Barbosa sem S\u00e3o Paulo. O que o novo trabalho de Andr\u00e9 Diniz mostra com compet\u00eancia \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de absoluta depend\u00eancia entre a obra genial de Noel Rosa e o Rio de Janeiro em que o poeta da Vila viveu, amou, cantou, bebeu e, sobretudo, se divertiu.<\/div>\n<p><\/p>\n<div>Noel testemunhou, atuou e ajudou a construir a hist\u00f3ria de um Rio de Janeiro que assistiu a transi\u00e7\u00e3o entre o Brasil rural da Primeira Rep\u00fablica e o Brasil que, a partir da d\u00e9cada de 1920, se transformou em um pa\u00eds cada vez mais urbano, complexo e multifacetado. O artista Noel Rosa foi contempor\u00e2neo do advento da Era do R\u00e1dio, da emerg\u00eancia de uma classe m\u00e9dia disposta a consumir bens culturais, do sistema de grava\u00e7\u00e3o el\u00e9trica de discos, do surgimento do cinema falado, da consolida\u00e7\u00e3o do samba urbano a partir da contribui\u00e7\u00e3o dos bambas do Est\u00e1cio e da ocupa\u00e7\u00e3o cada vez maior dos morros e sub\u00farbios cariocas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Longe de ser um espectador passivo dessa realidade fe\u00e9rica de transforma\u00e7\u00f5es, Noel resolveu viver no olho do furac\u00e3o e atuou como um verdadeiro mediador cultural entre o asfalto e o morro, o saber letrado e a sabedoria popular. Sua obra \u00e9 talvez o exemplo mais bem acabado de uma cultura que rompe fronteiras, investe em circularidades que se influenciam e escancara a riqueza impura e cheia de vitalidade do que era e \u00e9 a cultura carioca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 esse Noel e \u00e9 essa cidade do Rio de Janeiro que o livro de Andr\u00e9 Diniz retrata com ineg\u00e1vel simpatia pelo personagem e pelo cen\u00e1rio. Passeia pelas p\u00e1ginas seguintes a Vila Isabel, a Penha, o Morro da Mangueira, a Rua do Ouvidor, a Lapa, os primeiros autom\u00f3veis, as macumbas e sambas da Cidade Nova, os desfiles de ranchos, os concursos de marchinhas carnavalescas, o Teatro de Revista, as largas avenidas e as vielas estreitas. Tudo, diga-se, nos conformes de versos, fotografias e prosas, de acordo com a geografia que o poeta amou e ajudou a compreender melhor.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O melhor de tudo isso \u00e9 que Andr\u00e9 Diniz n\u00e3o acorrentou Noel Rosa nos rigores de teses e disserta\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas que, certamente, fariam o poeta da Vila sair de mansinho e procurar o bar mais pr\u00f3ximo. Noel foi o sujeito que introduziu a conversa de botequim na l\u00edrica da m\u00fasica popular brasileira, com o olhar do cronista que vive na fresta, molda o tempo e \u00e9 moldado por ele, extrapola os limites sociais e transforma tudo isso em arte da melhor qualidade. Esse livro flui como um samba do homenageado e n\u00e3o imagino elogio que possa ser maior. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao terminar a leitura desse O Rio de Noel, corri a escutar um grande samba do mestre mangueirense Z\u00e9 Ramos, composto no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1940, chamado Capital do Samba. Diz a letra:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Chegou a capital do samba<\/strong><\/div>\n<div><strong>Dando boa noite com alegria<\/strong><\/div>\n<div><strong>Viemos apresentar o que a Mangueira tem<\/strong><\/div>\n<div><strong>Mocidade, samba e harmonia<\/strong><\/div>\n<div><strong>Nossas baianas com seus colares e guias<\/strong><\/div>\n<div><strong>At\u00e9 parece que estou na Bahia.<\/strong><\/div>\n<div><strong>Da cidade alta da Mangueira<\/strong><\/div>\n<div><strong>Avisto a Vila e sinto saudades de algu\u00e9m&#8230;<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Poucas homenagens a Noel Rosa foram t\u00e3o tocantes e precisas. O sambista mira do alto do morro da Mangueira o bairro de Vila Isabel \u2013 quem \u00e9 do Rio sabe que \u00e9 pertinho \u2013 e sente saudades de algu\u00e9m. \u00c9 do poeta Noel Rosa, o branco que levou o asfalto ao morro e trouxe o morro ao asfalto, que Z\u00e9 Ramos fala.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nesse dias atuais, em que tanto se discute o conceito do Rio de Janeiro como uma cidade partida que precisa se regenerar, Noel Rosa \u00e9, mais do que uma saudade, uma\u00a0presen\u00e7a forte e uma \u00a0fonte de inspira\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m mais do que o poeta da Vila soube cerzir a cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro com o ponto bordado da cultura carioca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Boa leitura e bons sambas!<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi\u00a0lan\u00e7ado ontem\u00a0o livro Noel Rosa, o poeta do samba e da cidade , do camarada Andr\u00e9 Diniz. O furdun\u00e7o foi no Trapiche Gamboa, com aTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[295,293],"class_list":["post-12886","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-brasileiras","tag-noel-rosa"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12886","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12886"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12886\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12886"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12886"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}