{"id":12876,"date":"2011-02-04T08:12:00","date_gmt":"2011-02-04T10:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/02\/alo-cacique-cade-o-bafo\/"},"modified":"2011-02-04T08:12:00","modified_gmt":"2011-02-04T10:12:00","slug":"alo-cacique-cade-o-bafo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/02\/alo-cacique-cade-o-bafo\/","title":{"rendered":"AL\u00d4, CACIQUE, CAD\u00ca O BAFO?"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/TUvQpbvFTwI\/AAAAAAAABJI\/3Ltnn_kJSao\/s1600\/BafodaOna.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" h5=\"true\" height=\"289\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/BafodaOna.jpg\" width=\"320\"><\/a><\/div>\n<p><em><span>Vai abaixo, atendendo a in\u00fameros pedidos (dois, para ser mais exato) o texto que escrevi sobre o Bafo da On\u00e7a e foi publicado originalmente em O Globo, edi\u00e7\u00e3o de 30 de janeiro de 2011.<\/span><\/em><\/p>\n<div><\/div>\n<div>Um das imagens mais marcantes do carnaval carioca desde a d\u00e9cada de 1960 \u00e9, sem d\u00favidas, o desfile do Cacique de Ramos. Milhares de foli\u00f5es fantasiados de apaches ocupam a Avenida Rio Branco e mostram como o Velho Oeste foi devorado antropofagicamente pelo ziriguidum tupiniquim. O Cacique \u00e9, ouso dizer, um marco civilizat\u00f3rio da maior relev\u00e2ncia para a hist\u00f3ria da cidade do Rio de Janeiro e, consequentemente, do Brasil. A agremia\u00e7\u00e3o de Ramos foi, com suas rodas de samba \u00e0 sombra da tamarineira sagrada, uma esp\u00e9cie de Tr\u00f3ia do samba diante da explos\u00e3o midi\u00e1tica do rock nacional nos famigerados anos de 1980 \u2013 e s\u00f3 isso bastaria para dar ao bloco um lugar de import\u00e2ncia maior no panorama cultural brasileiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A louva\u00e7\u00e3o ao Cacique de Ramos leva, por\u00e9m, a uma indaga\u00e7\u00e3o: que diabos aconteceu com o Bafo da On\u00e7a, bloco que dividia com o Cacique a paix\u00e3o dos foli\u00f5es cariocas e hoje, enquanto o carnaval de rua volta ao centro da cena, anda caindo pelas tabelas, como p\u00e1lida lembran\u00e7a do que foi? Bafo e Cacique cansaram de transformar a Avenida Rio Branco, nos dias de Momo, em um verdadeiro Maracan\u00e3 em domingo de Fla X Flu. Contar a hist\u00f3ria dos apaches sem falar das on\u00e7as-pintadas \u00e9 rigorosamente imposs\u00edvel.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Bafo da On\u00e7a \u00e9 mais antigo que o Cacique. O bloco foi fundado dentro de um botequim do bairro carioca do Catumbi, em meados dos anos cinquenta. Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado Sebasti\u00e3o Maria; um sujeito que, durante os dias de carnaval, formava uma esp\u00e9cie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado de on\u00e7a-pintada. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Seu Ti\u00e3o Carpinteiro tinha ainda o h\u00e1bito de come\u00e7ar a tomar uns gor\u00f3s no dia de Santos Reis &#8211; data que marcava, para ele, o in\u00edcio das festas de Momo &#8211; e s\u00f3 encerrar os trabalhos na quarta feira de cinzas. Ocorre que o Seu Ti\u00e3o bebia tanto, mas bebia tanto, que acabava ficando com um h\u00e1lito meio pesado. Parecia, de fato, que comia carni\u00e7a. Durante uma das carraspanas contumazes, um grupo de amigos do Catumbi, sob a lideran\u00e7a do carpinteiro, resolveu criar um bloco de carnaval. Todos sairiam fantasiados de on\u00e7as-pintadas. O nome do bloco, \u00e9 evidente, j\u00e1 nasceu pronto. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Bafo cresceu e virou atra\u00e7\u00e3o do carnaval da cidade. As mulatas do Sargentelli, Jo\u00e3o Roberto Kelly, Oswaldo Nunes e Dominguinhos do Est\u00e1cio eram figuras populares nos furdun\u00e7os que a turma do Catumbi promovia. A popularidade foi tamanha que o pr\u00f3prio Bira Presidente, fundador e eterno dirigente do Cacique, admite que o bloco dos apaches de Ramos foi criado com o objetivo de superar as on\u00e7as pintadas do Catumbi.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 inevit\u00e1vel, portanto, que os cinquenta anos do Cacique de Ramos venham acompanhados pelo j\u00fabilo e, tamb\u00e9m, pelo lamento em virtude do decl\u00ednio do Bafo da On\u00e7a. Quero crer que, dentre v\u00e1rias raz\u00f5es que explicam esse decl\u00ednio (s\u00e3o mesmo in\u00fameras), uma merece ser ressaltada, at\u00e9 mesmo como um alerta. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>A decad\u00eancia do Bafo \u00e9 an\u00e1loga ao triste fim do bairro do Catumbi, centro de origem do bloco. Poucos bairros cariocas sofreram tanto com as reformas urbanas que, vez por outra, marcam a cidade. Ao longo das d\u00e9cadas de 1960 e 1970, o Catumbi foi sendo devastado. A abertura do t\u00fanel Santa B\u00e1rbara e, especialmente, a constru\u00e7\u00e3o do viaduto Trinta e Um\u00a0de Mar\u00e7o, dividiram o bairro em dois peda\u00e7os, ocasionaram a demoli\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis centen\u00e1rios e a destrui\u00e7\u00e3o de quadras inteiras. Em nome da reestrutura\u00e7\u00e3o urbana do Rio, o Catumbi se transformou em um bairro de passagem, perdeu a maior parte de seus moradores e deixou de ser um centro de refer\u00eancia para a comunidade, com suas viv\u00eancias, saberes, h\u00e1bitos cotidianos e vis\u00f5es de mundo. O Bafo da On\u00e7a, de certa forma, era fruto desse espa\u00e7o de conv\u00edvio dizimado pelo poder p\u00fablico. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Que em tempos de remodela\u00e7\u00e3o urbana, choques de ordem, copas, olimp\u00edadas e que tais, os respons\u00e1veis pelas interven\u00e7\u00f5es urbanas tenham consci\u00eancia de que os lugares s\u00e3o, mais do que qualquer outra coisa, espa\u00e7os de constru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias, culturas, formas peculiares de se experimentar a vida e abordar o mundo. E que as tamarineiras cariocas \u2013 as que restam &#8211; continuem de p\u00e9.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vai abaixo, atendendo a in\u00fameros pedidos (dois, para ser mais exato) o texto que escrevi sobre o Bafo da On\u00e7a e foi publicado originalmente emTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-12876","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12876","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12876"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12876\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12876"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12876"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12876"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}