{"id":12875,"date":"2011-02-16T06:07:00","date_gmt":"2011-02-16T08:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/02\/ziriguidum-nos-saloes\/"},"modified":"2011-02-16T06:07:00","modified_gmt":"2011-02-16T08:07:00","slug":"ziriguidum-nos-saloes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/02\/ziriguidum-nos-saloes\/","title":{"rendered":"ZIRIGUIDUM NOS SAL\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/rei-momo.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" h5=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/rei-momo.jpg\"><\/a><\/div>\n<div>Ando lendo uns alfarr\u00e1bios sobre o antigo Carnaval carioca. Tem cada coisa do arco da velha. Descobri, por exemplo, que a velha Rua do Ouvidor ferveu \u00e0s v\u00e9speras do tr\u00edduo de 1862. A Galeria de Vestu\u00e1rio Niobey, uma das mais famosas casas do peda\u00e7o, anunciou nas p\u00e1ginas do Jornal do Commercio uma variedade de 65 tipos de fantasias carnavalescas para quem quisesse pintar os cavacos em um baile de sal\u00e3o. <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dentre os variados tipos de disfarces oferecidos, o foli\u00e3o podia escolher coisas como Escocesa, Louco Flamante, Cors\u00e1rio Grego, Astr\u00f3logo de Madagascar, Campon\u00eas da Gal\u00edcia, Pescador Napolitano, Oficial da Guarda Francesa, Pierr\u00f4, Mefist\u00f3feles, Mandarim Chin\u00eas, Lu\u00eds XIV, \u00cdndio Parisiense, Centuri\u00e3o Romano, Fara\u00f3, Ministro de Nabucodonosor, Tuareg, Homem das Cavernas e outros babados.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa variedade de fantasias me levou a um mergulho na inf\u00e2ncia abissal, quando as mulheres da fam\u00edlia escolhiam as roupas que a molecada l\u00e1 de casa usava nos bailes de Carnaval. Fiquei com vontade de fazer confiss\u00f5es que s\u00f3 pensava ditar a um m\u00e9dium de mesa branca, depois da morte. Por exemplo: lembro nitidamente que me fantasiei, na tenra inf\u00e2ncia, de \u00edndio do Velho Oeste [mais precisamente de Pequeno Chefe Touro Sentado], Fara\u00f3 Rams\u00e9s II, pirata, piolho, sheik \u00e1rabe e Emerson Fittipaldi &#8211; ocasi\u00e3o em que fiquei entalado na privada infantil do banheiro do aristocr\u00e1tico Fluminense Football Club, durante o Baile do Cartolinha. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nunca fui muito chegado nos bailes de sal\u00e3o, sobretudo depois desse epis\u00f3dio em que a privada do p\u00f3 de arroz foi o cockpit da minha L\u00f3tus. Eu era um daqueles moleques bund\u00f5es que ficavam, durante a festan\u00e7a, absolutamente parados, jogando confetes e serpentinas para o alto, com uma express\u00e3o corporal parecida com a de um c\u00e1gado sob efeito de lexotan. N\u00e3o era minha praia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>J\u00e1 macaco jovem, sa\u00eddo da adolesc\u00eancia, fui a um baile que quase me custou um namoro s\u00f3lido. Acontece que minha namorada \u00e0 \u00e9poca foi passar o Carnaval em Araruama. Recusei, com a maior do\u00e7ura, o convite da fam\u00edlia para acompanhar a trupe. Argumentei, evocando velhas tradi\u00e7\u00f5es familiares,\u00a0que iria desfilar, ver as escolas de samba com a maior tranquilidade e n\u00e3o me envolver em nenhum tipo de folia mais arretada. Era mesmo minha inten\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Acontece que um amigo dos tempos de col\u00e9gio conseguiu convites para um baile no Scala, com direito a lugar na mesa. Eu disse que n\u00e3o iria de forma alguma, detestava esses bailes decadentes, tinha trauma de inf\u00e2ncia &#8211; do epis\u00f3dio do Emerson Fittipaldi\u00a0 &#8211; e\u00a0outros salamaleques. Diante, por\u00e9m, da insist\u00eancia do convite, cedi. L\u00e1 fui eu ao baile, fantasiado de Maionese Hellmans. Os dois camaradas que foram comigo se fantasiaram de Pomada Min\u00e2ncora e Polvilho Antiss\u00e9ptico Granado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O tro\u00e7o foi\u00a0o horror.\u00a0At\u00e9 o vel\u00f3rio do meu querido av\u00f4, tempos depois, foi muito mais divertido que aquele espet\u00e1culo tenebroso, digno de um fim de \u00e1gape nas catacumbas romanas. Um coral de canto gregoriano em enterro de Papa consegue ser mais carnavalesco que aquilo. Houve, para piorar, um problema inesperado. A TV Bandeirantes transmitiu <em>flashes<\/em> do furdun\u00e7o durante a programa\u00e7\u00e3o noturna. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sem sacanagem: O baile foi uma desgra\u00e7a, o sal\u00e3o estava vazio e n\u00e3o aconteceu nada de especial. Nadica de nada. S\u00f3 que na hora em que ligavam os refletores e a televis\u00e3o passava a transmitir, instaurava-se uma esp\u00e9cie de transe coletivo e o povo, que adora aparecer, fingia que uma verdadeira bacanal estava acontecendo no sal\u00e3o. Mulheres tremendamente suspeitas subiam nas mesas e rebolavam praticamente nuas. Bichas loucas davam siricoticos e o rep\u00f3rter gritava coisas incompreens\u00edveis.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Resultado: Uma tia solit\u00e1ria da minha namorada me viu ao vivo, em alta madrugada, vestido de maionese, ao lado da Pomada Min\u00e2ncora e do Polvilho Antiss\u00e9ptico Granado, sentado numa mesa do Scala. Em cima da mesma mesa, quatro senhoras gordas e com varizes rebolavam para as c\u00e2meras de TV. O esp\u00edrito de porco da velha ligou para Araruama. A not\u00edcia de que eu estava numa suruba multissexual via sat\u00e9lite foi amplamente divulgada, em tempo real, nas hostes familiares.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Provar depois que Jesus n\u00e3o era o Gen\u00e9sio foi mais dif\u00edcil que parir uma capivara pelo umbigo. Instaurou-se grave crise sentimental na minha vida, que s\u00f3 foi resolvida quase \u00e0s v\u00e9speras das festas de S\u00e3o Jo\u00e3o e incluiu cartas desaforadas, tentativas de agress\u00e3o e a devolu\u00e7\u00e3o de um enorme canguru de pel\u00facia, presente de in\u00edcio de namoro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Jurei, depois daquilo, que nunca mais colocaria os p\u00e9s em um baile de Carnaval nessa encarna\u00e7\u00e3o. A jura s\u00f3 foi quebrada quando compareci em 2009, sob rigorosa press\u00e3o feminina, ao baile de encerramento de Carnaval do Trapiche Gamboa. Fui de pirata da perna de pau, com tapa olho e o cacete. Os craques e camaradas Pedro Paulo Malta, Pedro Miranda, Alfredo Del Penho e Lu\u00eds Filipe de Lima comandaram um charivari espetacular.\u00a0Fiz as pazes\u00a0com a foli\u00e3o de sal\u00e3o, com juros e corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria [apud Delfim Neto].<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Neste ano de 2011 vou pegar leve no Carnaval &#8211; por \u00f3timas raz\u00f5es de for\u00e7a menor que n\u00e3o interessam minimamente aos leitores. Ao baile da ter\u00e7a-feira gorda no\u00a0Trapiche, por\u00e9m, n\u00e3o faltarei nem debaixo d\u00b4\u00e1gua.\u00a0Resta apenas uma\u00a0d\u00favida sobre a fantasia: vou de Pen\u00e9lope Charmosa ou vocalista da banda Restart?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Evo\u00e9!<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ando lendo uns alfarr\u00e1bios sobre o antigo Carnaval carioca. Tem cada coisa do arco da velha. 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