{"id":12865,"date":"2011-04-10T09:34:00","date_gmt":"2011-04-10T11:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/04\/santo-antonio-neles-texto-meu-publicado-em-o-globo-8-de-abril-de-2011\/"},"modified":"2011-04-10T09:34:00","modified_gmt":"2011-04-10T11:34:00","slug":"santo-antonio-neles-texto-meu-publicado-em-o-globo-8-de-abril-de-2011","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/04\/santo-antonio-neles-texto-meu-publicado-em-o-globo-8-de-abril-de-2011\/","title":{"rendered":"SANTO ANTONIO NELES ! (Texto meu publicado em O Globo, 8 de abril de 2011)"},"content":{"rendered":"<div>Sei de muita gente que anda preocupada com os eventos previstos para a cidade do Rio de Janeiro nos pr\u00f3ximos anos. H\u00e1 quem diga que a cidade n\u00e3o suportar\u00e1 o crescimento do Carnaval, o furdun\u00e7o da Copa do Mundo de 2014 e as Olimp\u00edadas de 2016. Minha opini\u00e3o, nesse sentido, \u00e9 muito clara: a popula\u00e7\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro tem a tradi\u00e7\u00e3o de enfrentar com galhardia as maiores confus\u00f5es e transformar em festa (para o bem e para o mal) as situa\u00e7\u00f5es mais desfavor\u00e1veis. Os riscos maiores se encontram, podem apostar, nas a\u00e7\u00f5es e neglig\u00eancias do poder p\u00fablico. Recorro \u00e0 Hist\u00f3ria para exemplificar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em 1710, pouco depois da not\u00edcia de que o ouro tinha sido encontrado em Minas Gerais, o rei franc\u00eas Lu\u00eds XIV resolveu enviar ao Brasil novecentos e tantos piratas, sob comando do capit\u00e3o-de-fragata Jean-Fran\u00e7ois Duclerc, para pilhar a cidade do Rio de Janeiro. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os flibusteiros enviados pelo Rei Sol, temendo a barra estreita e as fortalezas da Ba\u00eda da Guanabara, desembarcaram em Guaratiba, atravessaram os sert\u00f5es de Jacarepagu\u00e1 e as matas da Tijuca e rumaram em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade sem maiores problemas. Nesse momento entrou em cena o governador do Rio na ocasi\u00e3o, o portugu\u00eas Castro Morais (apelidado pela popula\u00e7\u00e3o, que tinha o saud\u00e1vel h\u00e1bito de n\u00e3o simpatizar com governantes, de O Vaca). Retifico a frase: Castro Morais, na verdade, saiu de cena.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao receber a not\u00edcia de que os homens de Duclerc estavam chegando ao Centro da cidade, Castro Morais tomou a mais inusitada decis\u00e3o administrativa da hist\u00f3ria carioca em todos os tempos. Teve um ataque de covardia, se trancou no pal\u00e1cio governamental (no pr\u00e9dio onde hoje fica o Centro Cultural do Banco do Brasil) e, de l\u00e1 mesmo, mandou anunciar que estava passando, em ato administrativo, o comando das tropas ao novo chefe da seguran\u00e7a p\u00fablica da cidade: Santo Antonio. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 isso mesmo. Santo Antonio, o casamenteiro, morto em 1231, foi oficialmente nomeado comandante das for\u00e7as de seguran\u00e7a do Rio de Janeiro em 1710. H\u00e1 quem afirme que uma pequena est\u00e1tua do santo foi oficialmente empossada no cargo, em r\u00e1pida cerim\u00f4nia administrativa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O pepino sobrou, evidentemente, para a popula\u00e7\u00e3o. As not\u00edcias de que o governador estava trancado no pal\u00e1cio sob cuidados m\u00e9dicos, tendo ataques nervosos, e de que Santo Antonio era o novo respons\u00e1vel pela defesa da cidade, levaram o povo do Rio a se virar. E nisso, admitamos, o carioca \u00e9 especialista.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os franceses &#8211; desgastados pela estrat\u00e9gia maluca de atravessar Jacarepagu\u00e1 e a Tijuca a p\u00e9 &#8211; foram emboscados no largo da Lapa e atacados das janelas com armas de fogo, \u00f3leo fervente, pedras, peda\u00e7os de pau, hortifrutigranjeiros e toda a sorte de quinquilharias dom\u00e9sticas. Mil\u00edcias populares se organizaram com impressionante rapidez. O cacete estancou nas vielas do Centro, com especial destaque para combates corpo-a-corpo envolvendo escravos, \u00edndios, mulheres, crian\u00e7as, bebuns, padres e devotos. Os estudantes do col\u00e9gio dos jesu\u00edtas deram uma banana para as aulas, formaram uma inusitada artilharia de batinas e, desta forma, mandaram bala nos franceses e evitaram a invas\u00e3o do pal\u00e1cio do governador. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Depois do furdun\u00e7o todo, o saldo da quizumba era o seguinte: trezentos e tantos franceses mortos, quatrocentos e poucos presos (dentre eles o pr\u00f3prio Duclerc, que acabou misteriosamente assassinado em sua pris\u00e3o domiciliar) e outros tantos feridos. O governador, sa\u00eddo do estado de letargia, permitiu que a semana seguinte \u00e0 vit\u00f3ria fosse dedicada aos festejos populares (como se a popula\u00e7\u00e3o precisasse de alguma autoriza\u00e7\u00e3o do Vaca para celebrar a vida). <\/div>\n<div><\/div>\n<div>A ironia \u00e9 irresist\u00edvel. Que me desculpem os f\u00e3s de Jos\u00e9 Mariano Beltrame e da pol\u00edtica de seguran\u00e7a do atual governo. Os fatos hist\u00f3ricos indicam, sem a menor margem de d\u00favidas, que o maior secret\u00e1rio de seguran\u00e7a p\u00fablica da hist\u00f3ria do Rio de Janeiro foi mesmo Santo Antonio. Estou com ele e n\u00e3o abro. Revelam, ainda, a enorme capacidade da popula\u00e7\u00e3o do Rio para dar n\u00f3 em pingo d \u00e1gua e se organizar na mais absoluta desordem.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O risco maior \u00e9 mesmo a s\u00edndrome de Castro Morais. Vez por outra o esp\u00edrito do Vaca gruda no cangote dos nossos governantes e o poder p\u00fablico n\u00e3o cumpre a sua parte, n\u00e3o faz o que deve ser feito e ainda corre o risco de se meter onde n\u00e3o devia. De festa a gente entende; administrar o babado \u00e9 que s\u00e3o elas. A voca\u00e7\u00e3o do Rio, salva\u00e7\u00e3o e dana\u00e7\u00e3o da nossa gente, \u00e9, afinal de contas, amanhecer cantando. <\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sei de muita gente que anda preocupada com os eventos previstos para a cidade do Rio de Janeiro nos pr\u00f3ximos anos. 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