{"id":12846,"date":"2011-08-23T17:43:00","date_gmt":"2011-08-23T19:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/08\/a-sindrome-de-maia-ou-a-peleja-dos-pretos-fedidos-contra-os-de-fina-estampa\/"},"modified":"2011-08-23T17:43:00","modified_gmt":"2011-08-23T19:43:00","slug":"a-sindrome-de-maia-ou-a-peleja-dos-pretos-fedidos-contra-os-de-fina-estampa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/08\/a-sindrome-de-maia-ou-a-peleja-dos-pretos-fedidos-contra-os-de-fina-estampa\/","title":{"rendered":"A S\u00cdNDROME DE MAIA (OU A PELEJA DOS PRETOS FEDIDOS CONTRA OS DE FINA ESTAMPA)"},"content":{"rendered":"<div>De onde menos se espera, j\u00e1 dizia o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, \u00e9 que n\u00e3o vem nada que preste. Lembrei disso quando\u00a0soube que Wolf Maia, diretor da novela global Fina Estampa,\u00a0com elenco predominantemente branco (parece que tem uns crioulos representando\u00a0moradores de comunidades),\u00a0foi condenado\u00a0em junho \u00faltimo\u00a0por crime de racismo. Maia, que est\u00e1 recorrendo da condena\u00e7\u00e3o, se referiu a um funcion\u00e1rio negro de um teatro de Campinas nos seguintes termos: &#8220;me colocaram um preto fedorento que saiu do esgoto com mal de Parkinson para operar o canh\u00e3o de luz&#8230;&#8221;\u00a0 (\u00a0<a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/geral,wolf-maia-e-condenado-por-racismo,730202,0.htm\">http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/geral,wolf-maia-e-condenado-por-racismo,730202,0.htm<\/a>\u00a0)<\/div>\n<div>O caso n\u00e3o me surpreende. Est\u00e1 na ordem do dia, sobretudo entre certos segmentos da classe m\u00e9dia alta e das elites endinheiradas do pa\u00eds, manifestar uma pedante avers\u00e3o ao povo brasileiro. Chamei isso\u00a0certa feita\u00a0de &#8220;Mal de Neuendorf&#8221;. Explico. Kevin Neuendorf, para quem n\u00e3o se lembra,\u00a0foi o chefe da delega\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos durante os jogos panamericanos de 2007, realizados no Rio de Janeiro. O Mister Neuendorf chocou muita gente ao aparecer para uma entrevista coletiva com um cartaz onde se lia: &#8220;Welcome to Congo&#8221;. Alguns brasileiros ficaram profundamente ofendidos com o gringo que, cheio de arrog\u00e2ncia, nos comparou ao pa\u00eds da \u00c1frica. <\/div>\n<div>Escrevi na ocasi\u00e3o um texto\u00a0em que, provocativamente,\u00a0concordei com o mister e afirmei que\u00a0somos de fato \u00a0o Congo. Alguns acontecimentos recentes, feito esse caso Wolf Maia, apenas escancaram\u00a0a exist\u00eancia de uma elite preconceituosa, nefasta,\u00a0 assustadoramente moralista e potencialmente fascista. \u00c9 por isso que retomo\u00a0e desenvolvo alguns\u00a0argumentos que utilizei \u00e0 \u00e9poca\u00a0para afirmar,\u00a0aos que sofrem\u00a0do Mal\u00a0de Neuendorf (ou\u00a0S\u00edndrome de Wolf \u00a0Maia, se preferirem),\u00a0 que\u00a0os brasileiros, pretos fedidos,\u00a0somos\u00a0Congo\u00a0mesmo. Com muito orgulho.<\/div>\n<div>Somos porque vieram de l\u00e1, da regi\u00e3o do Congo-Angola, s\u00f3 no s\u00e9culo XVII, cerca de 700 mil africanos para trabalhar nas lavouras e minas do Brasil Colonial. N\u00f3s, os brasileiros, somos, portanto, congos. Somos tamb\u00e9m jalofos, bamuns, mandingas, bijag\u00f3s, fantes, achantis, g\u00e3s, fons, guns, baribas, gur\u00fansis, quetos, ondos, ijex\u00e1s, ijebus, oi\u00f3s, ibad\u00e3s, benins, hau\u00e7\u00e1s, nup\u00eas, ibos, ij\u00f3s, calabaris, teques, iacas, anzicos, andongos, songos, pendes, lenges, ovimbundos, ovambos, macuas, mangajas e cheuas. <\/div>\n<div>Todos estes\u00a0acima mencionados\u00a0s\u00e3o grupos de africanos que chegaram nessas praias com seus valores, conjuntos de cren\u00e7as, costumes e l\u00ednguas &#8211; culturas, enfim &#8211; para, ao lado de minhotos, beir\u00f5es, alentejanos, algarvios, transmontanos, a\u00e7orianos, madeirenses e milhares de comunidades amer\u00edndias, civilizar o Brasil.<\/div>\n<div>O caso \u00e9\u00a0que agora\u00a0est\u00e1 rolando uma certa moda &#8211; que faz a alegria dos descolados iconoclastas e dos\u00a0ap\u00f3stolos do\u00a0liberalismo mais tacanho &#8211; \u00a0de atribuir aos pr\u00f3prios africanos a responsabilidade sobre a escravid\u00e3o. Todo mundo palpita sobre a hist\u00f3ria da \u00c1frica, mete o bedelho sem conhecimento de causa e, nesse rame-rame, tem gente dizendo que\u00a0n\u00f3s\u00a0nunca fomos racistas e que Monteiro Lobato comparava Tia Nast\u00e1cia a uma macaca bei\u00e7uda por uma quest\u00e3o de afeto. Sugiro que esses\u00a0papudos leiam Silvio Romero e Oliveira Vianna, dois intelectuais respeitados em antanhos.<\/div>\n<div>Silvio Romero, ao refletir sobre o problema brasileiro no in\u00edcio do s\u00e9culo passado,\u00a0sugeriu que a \u00fanica salva\u00e7\u00e3o do\u00a0pa\u00eds era torcer para que a miscigena\u00e7\u00e3o se fosse processando com o aumento cont\u00ednuo do sangue branco. Chegou a profetizar que (se a miscigena\u00e7\u00e3o fosse estimulada) a superioridade do sangue branco prevaleceria e\u00a0no ano 2000 n\u00e3o haveria mais\u00a0tra\u00e7os negr\u00f3ides no nosso povo. Clarear o brasileiro, eis a solu\u00e7\u00e3o do nobre intelectual.<\/div>\n<div>Oliveira Vianna, por sua vez,\u00a0escreveu um livro outrora muito respeitado, que apaixonou gera\u00e7\u00f5es de leitores, chamado <em>Evolu\u00e7\u00e3o do povo brasileiro<\/em>. Segundo este autor, a salva\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do Brasil era a na\u00e7\u00e3o embranquecida. Para ele, a imigra\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, a fecundidade dos brancos , maior do que a das ra\u00e7as inferiores (negros e \u00edndios ), e a preponder\u00e2ncia de cruzamentos felizes, nos quais os filhos de casais mistos herdariam as caracter\u00edsticas superiores do pai ou da m\u00e3e branca, garantiam um futuro brilhante e branquelo ao Brasil.<\/div>\n<div>A\u00a0irresponsabilidade de\u00a0reacion\u00e1rios rancorosos e embusteiros intelectuais\u00a0escancara a exist\u00eancia de brasileiros que sentem verdadeiro nojo do nosso\u00a0povo, execram o Brasil\u00a0\u00a0e guardam no fundo de suas almas o acalentado sonho que Romero e Vianna ousaram expressar. S\u00e3o aqueles que\u00a0nutrem verdadeiro p\u00e2nico de lembrar que vivem num pa\u00eds mesti\u00e7o, em larga medida civilizado pela \u00c1frica e\u00a0dotado da cultura mais rica e m\u00faltipla que o mundo conhece. <\/div>\n<div>S\u00e3o brasileiros que marcharam com Deus pela liberdade em 1964, mandam os filhos para\u00a0 interc\u00e2mbios nos EUA, Austr\u00e1lia e\u00a0Europa em busca de valores supostamente civilizados, \u00a0vivem encastelados em condom\u00ednios luxuosos, acham que a empregada dom\u00e9stica\u00a0deve vestir uniforme branco\u00a0e subir pelo elevador de servi\u00e7o, n\u00e3o gostam de pretos,\u00a0botam fogo em \u00edndios, n\u00e3o respeitam as religiosidades afro-amer\u00edndias, dizem que samba \u00e9 coisa de gentinha, frequentam compulsivamente shoppings centers, gastam num jantar o que pagam em um m\u00eas para os empregados, vibram quando a pol\u00edcia executa moradores de favelas e criam filhos enfurecidos e preconceituosos que saem de noitadas em boates da moda para surrar pobres, gays e\u00a0garotas de programa nas esquinas das grandes\u00a0cidades.<\/div>\n<div>Essa gente n\u00e3o se conforma com o Brasil\u00a0que\u00a0vive\u00a0\u00a0nos maracatus, nos mo\u00e7ambiques, na taieira, na folia de s\u00e3o Benedito, no candombl\u00e9 de angola, nas cavalhadas, no terno-de-congo, no batuque do jongo e na dan\u00e7a do semba. <\/div>\n<div>Somos os pretos fedidos que tanto irritam os Wolf Maia. E somos\u00a0porque batemos tambor, batemos cabe\u00e7a, dan\u00e7amos e rezamos como os do lado de l\u00e1 da Calunga Grande, o mar dos tumbeiros, sepultura de tantos.<\/p>\n<p>Somos o Congo e somos a \u00c1frica porque somos o pa\u00eds de Zumbi, Licutam, Ganga- Zumba, Luiza Mahin, Bamboxe Obitiku , Felisberto Benzinho, Cipriano de Ogum, Le\u00f4nidas da Silva, Jo\u00e3o da Baiana, Donga , Pixinguinha, Candeia, M\u00e3e Senhora, M\u00e3e Aninha, Tata Fomutinho, Jo\u00e3o Candido, Osvald\u00e3o, Marighela, Martiniano do Bomfim, Solano Trindade, Silas de Oliveira e de tantos outros her\u00f3is civilizadores.<\/p><\/div>\n<div>Urge afirmar, contra os preconceitos mais mesquinhos dos de fina estampa,\u00a0o Brasil que acalentamos &#8211; o \u00a0nosso\u00a0Congo Amer\u00edndio\u00a0de macaias, aldeias, botequins, ocas,\u00a0sambas, calundus, jongos\u00a0e\u00a0portugueses fados. Com a \u00a0prote\u00e7\u00e3o\u00a0de Zambiapungo, de todos os inkices de Angola e dos ancestrais do samba.<\/div>\n<div>Abra\u00e7os<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De onde menos se espera, j\u00e1 dizia o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, \u00e9 que n\u00e3o vem nada que preste. 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