{"id":12843,"date":"2011-09-03T09:41:00","date_gmt":"2011-09-03T11:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/09\/o-vinho-esse-ser-humano-complexo-e-sofisticado\/"},"modified":"2011-09-03T09:41:00","modified_gmt":"2011-09-03T11:41:00","slug":"o-vinho-esse-ser-humano-complexo-e-sofisticado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/09\/o-vinho-esse-ser-humano-complexo-e-sofisticado\/","title":{"rendered":"O VINHO, ESSE SER HUMANO COMPLEXO E SOFISTICADO."},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>O Imperador D. Pedro I gostava, de vez em quando, de esquecer os burburinhos da Corte e viajar para a Real Fazenda de Santa Cruz, onde costumava\u00a0benzer suas amantes com o b\u00e1culo episcopal. Sobre as viagens de Sua Majestade,\u00a0 Brasil Gerson escreveu o seguinte\u00a0na Hist\u00f3ria das Ruas do Rio : <\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>D. Pedro I e sua comitiva paravam na fonte de pedra da igreja, para que seus cavalos bebessem \u00e1gua, enquanto ele buscava sofregamente a magn\u00edfica pinga do vendeiro que ficava defronte, famosa desde Campinho at\u00e9 Campo Grande<\/em>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 isso, senhores. O Imperador do Brasil era\u00a0frequentador de uma tendinha na altura de Realengo, onde encostava o cotovelo no balc\u00e3o, jogava conversa fora e tomava umas doses daquela que matou o guarda. N\u00e3o duvido que jogasse porrinha com os populares.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Citei essa\u00a0passagem prosaica da vida de D.\u00a0Pedro pelo seguinte:\u00a0a informalidade com que\u00a0o Imperador\u00a0tomava umas canas \u00e9 diametralmente oposta \u00e0 frescurite que grassa, nos dias de hoje e sobretudo durante o inverno, entre os bebedores e entendidos de vinho. Explico.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>J\u00e1 me declarei, alhures, impressionado com o verdadeiro ritual em que se transformou\u00a0o simples ato de beber\u00a0vinho em um restaurante. O gar\u00e7om serve um m\u00edsero gole e aguarda, com cara de tacho, que o cliente experimente o tinto, avalie a qualidade da safra, verifique a harmoniza\u00e7\u00e3o com o card\u00e1pio, balance a cabe\u00e7a e autorize, vinte minutos depois, que a bebida seja servida. Mas a coisa n\u00e3o para por a\u00ed.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A \u00faltima moda dos especialistas \u00e9 tecer considera\u00e7\u00f5es sobre a psicologia e os aspectos emocionais da bebida. Sim, \u00e9 exatamente isso. Os vinhos agora s\u00e3o analisados com rigores freudianos. H\u00e1 uma nova ci\u00eancia na pra\u00e7a, a \u00a0vinhognoseterapia. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o bastassem aqueles cabras que ficam rodando o vinho no copo, cafungando o tinto e destacando a sutileza dos aromas e da caracter\u00edstica das uvas, mergulhamos na era das divaga\u00e7\u00f5es existenciais sobre o tema. O camarada toma uma ta\u00e7a, faz\u00a0pose de quem limpa bosta de galinha com colher de prata e arrisca uma an\u00e1lise das caracter\u00edsticas emocionais da bebida:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; \u00c9 um vinho que se mostra, ao primeiro gole, um tanto t\u00edmido. Aos poucos, por\u00e9m, vai ganhando um toque de agressividade que o equipara aos melhores rascantes. Honra a tradi\u00e7\u00e3o e tem personalidade. Harmoniza bem com carnes vermelhas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O outro, sem perder a pose, faz cara de gal\u00e3 do cinema mudo e manda brasa:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; O vinho padece de um acanhamento excessivo. Poderia ser um pouco mais arrojado, sem perder a sensibilidade. Acho que harmoniza com carne de vitela ao molho de queijo de b\u00fafala\u00a0desmamada\u00a0marajoara.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O terceiro resolve entrar de sola nos adjetivos :<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; As caracter\u00edsticas do mosto da uva atribuem um toque de excentricidade \u00e0 bebida. \u00c9 , todavia, um vinho corajoso. Eu diria que tem car\u00e1ter. \u00c9 isso; eis um vinho de car\u00e1ter. Harmoniza bem com escama de peixe espada ao molho de tamaras fl\u00e2mbadas no conhaque.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O quarto d\u00e1 o tiro de miseric\u00f3rdia:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Talvez falte uma certa ousadia. Mas \u00e9, sem d\u00favidas, um vinho que tem alma. Harmoniza com a minha pr\u00f3pria personalidade. Esse vinho sou eu.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mais\u00a0chegado ao estilo D. Pedro I de ser, ou\u00e7o essas barbaridades e pergunto aos meus bot\u00f5es velhos de guerra. Como pode uma bebida ser t\u00edmida, agressiva, acanhada, arrojada, sens\u00edvel, exc\u00eantrica, corajosa, de car\u00e1ter, ousada e possuir alma ? <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Soube, dia desses, de um sujeito que entrou no consult\u00f3rio do analista e disse pro\u00a0m\u00e9dico da alma\u00a0:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Eu j\u00e1 obtive alta da an\u00e1lise. Quero, na verdade, que o senhor analise essa garrafa de tinto, da safra de 1937, que eu ganhei de uns amigos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A realidade, a acreditar nessas avalia\u00e7\u00f5es , \u00e9\u00a0que qualquer vinho \u00e9 um ser humano mais complexo\u00a0do que eu. N\u00e3o me surpreenderei se um dia souber que algum m\u00e9dium incorporou uma garrafa de vinho em um centro de mesa branca e saiu dando consultas. \u00c9 o caminho natural. S\u00f3 n\u00e3o contem comigo para bater cabe\u00e7a pro caboclo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu sou do tempo em que harmonizar era s\u00f3 ajustar a rela\u00e7\u00e3o entre o canto e a dan\u00e7a nos desfiles das escolas de samba.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Abra\u00e7os.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Imperador D. 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