{"id":12841,"date":"2011-11-22T21:28:00","date_gmt":"2011-11-22T23:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/11\/a-morada-do-rei-dos-indios\/"},"modified":"2011-11-22T21:28:00","modified_gmt":"2011-11-22T23:28:00","slug":"a-morada-do-rei-dos-indios","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/11\/a-morada-do-rei-dos-indios\/","title":{"rendered":"A MORADA DO REI DOS \u00cdNDIOS"},"content":{"rendered":"<div>Os mais velhos do terreiro de xamb\u00e1 e encantaria de minha av\u00f3, onde cresci, me ensinaram a\u00a0respeitar \u00e1rvores floridas, rios largos, pedras mi\u00fadas, remansos e ventanias. H\u00e1 que se considerar a possibilidade da borda do vento ser a morada de algum encantado. Rio \u00e9 orix\u00e1, vento \u00e9\u00a0inquice, mar\u00e9 \u00e9 vodum, pedra de riacho \u00e9 encantamento de bugre. Assim aprendi &#8211; e\u00a0n\u00e3o me importa a cren\u00e7a, que tenho pouca &#8211; mas me vale o rito, que conforta e desvela o mundo na reinven\u00e7\u00e3o da vida\u00a0e me permite louvar a ancestralidade.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Existem\u00a0os encantados e os eguns.\u00a0Eu\u00a0convivi, conversei, tomei esporro, fui confortado\u00a0e aprendi\u00a0com gente\u00a0das duas naturezas.\u00a0Tento alumiar a diferen\u00e7a.\u00a0\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Minha av\u00f3, por exemplo, trabalhava com o caboclo Peri, um \u00edndio que teve vida terrena, morreu e se transformou numa poderosa entidade, baixando na cabe\u00e7a dos seus filhos e filhas para dar consultas, sempre esbanjando sabedoria. Dos cantos desse caboclo, meu predileto\u00a0\u00e9 o bel\u00edssimo ponto de partida, entoado na hora <personname productid=\"em que Seu Peri\" w:st=\"on\">em que Seu Peri<\/personname> deixa a guma para voltar ao invis\u00edvel:<\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><em><span>Adeus Seu Peri, adeus<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>A sua banda lhe chama<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>Ele j\u00e1 vai ol\u00f3<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>(Ele j\u00e1 vai ol\u00f3)<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>Sua macaia, macaiana<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>Como fica s\u00f3&#8230;<\/span><\/em> <\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Seu Peri n\u00e3o pode ser considerado um encantado, j\u00e1 que sofreu a morte f\u00edsica. O encantado \u00e9 aquele que n\u00e3o conheceu a experi\u00eancia da morte, transformando-se, em vida, num vento, numa rocha, numa praia, numa \u00e1rvore, numa folha, nas areias do fundo do mar, dos desertos e das serras. Encantou-se ou ajuremou-se, como alguns antigos preferem dizer.<\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Minha m\u00e3e carnal trabalhava com Japetequara (ou Jabetequara, segundo alguns),\u00a0um exemplo de encantado.\u00a0 Reza a tradi\u00e7\u00e3o que\u00a0Japetequara, conhecido tamb\u00e9m como rei dos \u00edndios,\u00a0foi um turco que chegou ao Brasil no s\u00e9culo XVII e encantou-se numa \u00e1rvore de sucupira, castanha-escura, pesada e resistente, da floresta amaz\u00f4nica. Quando vem na guma dan\u00e7a curvado, como um velho honor\u00e1vel, e \u00e9 recebido por alguns cantos fabulosos. O meu predileto \u00e9 o seguinte:<\/div>\n<p><\/p>\n<div><\/div>\n<div><em><span>Ainda flora a sucupira<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>Ainda flora o guerreiro<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>Ainda flora a sucupira<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>Ainda flora o guerreiro<\/span><\/em><i><span><br \/><em>Ainda flora a sucupira<\/em><\/span><\/i><\/div>\n<div><em><span>Caboclo velho \u00e9 flecheiro<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>\u00ca caboclo velho<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>Das barras do Ariri<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>Lagoa grande secou<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>Todos morreram <\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span>Eu n\u00e3o morri!<\/span><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Enquanto o canto de seu Peri fala em ir ol\u00f3, termo muito ligado ao conceito de morte f\u00edsica, o canto de Japetequara afirma que ele n\u00e3o morreu, passou a viver ajuremado &#8211; encantado &#8211; nos fol\u00edolos cori\u00e1ceos e nas flores em pan\u00edculas do tronco da sucupira velha; vez por outra ele aparece para desfilar sua fidalguia entre o povo da terra.<\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div>\u00c9 por isso, amigos, que n\u00e3o conhe\u00e7o coisa mais bonita que os mist\u00e9rios do encanto. Enquanto o mundo se consome em um desvario produtivista que enxerga o grande rio &#8211; um Orix\u00e1! &#8211;\u00a0como um potencial gerador de energia para grandes empreendimentos\u00a0e restringe a isso o seu papel, eu, com um olhar insistente de menino que cresceu na guma, digo que a coisa estaria muito melhor se todos vissem a natureza com o respeito do povo do tambor.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como podem derrubar a\u00a0sucupira amaz\u00f4nica\u00a0onde  vive, ajuremado no encanto, o mestre turco, rei dos \u00edndios e caboclo do Brasil, o velho Japetequara, que eu vi dan\u00e7ar pelo corpo de minha m\u00e3e? \u00c9 ele, o \u00edndio velho encantador de mundos,\u00a0que brada quando floresce e abranda de suavidades\u00a0a dureza do tronco escuro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Abra\u00e7os<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os mais velhos do terreiro de xamb\u00e1 e encantaria de minha av\u00f3, onde cresci, me ensinaram a\u00a0respeitar \u00e1rvores floridas, rios largos, pedras mi\u00fadas, remansos eTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[297],"class_list":["post-12841","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-encantarias"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12841","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12841"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12841\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12841"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12841"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12841"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}