{"id":12833,"date":"2011-12-19T18:18:00","date_gmt":"2011-12-19T20:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/12\/a-licao-do-sono-do-rio\/"},"modified":"2011-12-19T18:18:00","modified_gmt":"2011-12-19T20:18:00","slug":"a-licao-do-sono-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/12\/a-licao-do-sono-do-rio\/","title":{"rendered":"A LI\u00c7\u00c3O DO SONO DO RIO"},"content":{"rendered":"<div><em><span>Meia-noite o rio dorme<\/span><\/em><br \/><em><span>Mais ou menos dois minutos<\/span><\/em><br \/><em><span>Pra n\u00f3s \u00e9 um tempo curto<\/span><\/em><br \/><em><span>Pra Uiara \u00e9 um tempo enorme<\/span><\/em><br \/><em><span>(Uiara. Paulo C\u00e9sar Pinheiro)<\/span><\/em><\/p>\n<p>Contam os canoeiros do S\u00e3o Francisco que o rio, na hora grande da meia-noite, dorme durante dois minutos. \u00c9 a hora em que a vida se assossega e o mundo se recolhe: as cachoeiras interrompem a queda, a correnteza cessa e at\u00e9 Paulo Afonso silencia. Os ribeirinhos aprendem desde cedo que n\u00e3o se deve acordar o rio durante o seu sono. <\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nos dois minutos de sono do rio, os peixes se aquietam, as cobras perdem a pe\u00e7onha e\u00a0a m\u00e3e d\u00b4\u00e1gua se levanta para pentear os cabelos nas canoas. Os\u00a0que morreram afogados saem do fundo das \u00e1guas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s estrelas. Esse sono do rio n\u00e3o deve ser, de maneira alguma, interrompido, sob pena de endoidecer quem despertou as \u00e1guas. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ando matutando &#8211; como sujeito alumbrado que sou pelas brasilidades caboclas &#8211;\u00a0a respeito do\u00a0que os ribeirinhos ensinam sobre o descanso\u00a0do rio\u00a0e concluo que vez por outra \u00e9 mesmo necess\u00e1rio adormecer no tempo e sossegar como as \u00e1guas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O ritmo\u00a0da\u00a0nossa sociedade\u00a0&#8211;\u00a0marcado pelo\u00a0fasc\u00ednio das m\u00e1quinas, o ru\u00eddo dos motores,\u00a0a precis\u00e3o dos rel\u00f3gios, a velocidade das informa\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas e a procura fe\u00e9rica da felicidade\u00a0&#8211; acelera a vida e nos desacostuma dos homens. Tem l\u00e1 seus benef\u00edcios (n\u00e3o sou, definitivamente, um saudosista) mas anda perto das desumanidades\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por isso\u00a0\u00e9 preciso, vez por outra, adormecer feito o rio ao abandono das horas, se aluar em \u00e1guas paradas\u00a0e abandonar os\u00a0desatinos da felicidade ( o brinquedo que n\u00e3o tem) .<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O\u00a0sono do S\u00e3o Francisco, o desapego dos peixes e\u00a0o sil\u00eancio das cachoeiras\u00a0me fazem crer\u00a0que \u00a0a expectativa da felicidade, da forma como a sociedade de consumo lida com ela, \u00e9 das coisas mais brutais que existem. O sujeito acha que tem que ser bem sucedido no amor, no trabalho e\u00a0nas rela\u00e7\u00f5es pessoais. Precisa viajar pelo menos duas vezes por ano, trocar de carro de quando em vez, n\u00e3o pode ficar doente e\u00a0n\u00e3o pode conceber a morte. Acontece que n\u00e3o \u00e9 assim que o rio segue seu curso e descansa no fim do dia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><\/span><\/div>\n<div>Como ningu\u00e9m \u00e9 capaz de atingir essa tal felicidade de <em>shopping center<\/em> que \u00e9 vendida por a\u00ed, formamos aos montes um bando de depressivos, uns sujeitos infantilizados que n\u00e3o conseguem lidar com o fracasso e se entopem de rem\u00e9dios para dormir, acordar, trabalhar, trepar&#8230; Parece paradoxal, mas \u00e9 isso mesmo:\u00a0a expectativa da felicidade\u00a0\u00e9\u00a0uma fonte poderosa de ang\u00fastias e depress\u00f5es. <\/div>\n<div>\u00a0 <\/div>\n<div>Que os caboclos do Brasil, portanto, me iluminem para que eu respeite o sono do rio, o repouso dos peixes e o voo dos afogados. Que o pa\u00eds imaginado, e em mim recolhido,\u00a0me ensine a viver na s\u00edncopa, no drible, na dobra do tambor,\u00a0na ora\u00e7\u00e3o dos romeiros, na dan\u00e7a lenta de Oxaluf\u00e3, nas delicadezas do Reisado, nas rodas de cirandas, nas oferendas do Divino, na suavidade dos sons bonitos\u00a0e na impon\u00eancia calada\u00a0das gameleiras.<\/p>\n<p>Esse nosso mundo, de t\u00e3o virtual, anda meio desvirtuado &#8211; e eu quero cada vez mais ter o tempo de adormecer o rio,\u00a0aquietar os peixes, sossegar as cachoeiras, louvar meus ancestrais\u00a0e\u00a0me encantar com\u00a0a\u00a0Uiara a\u00a0envaidecer canoas.<\/p>\n<p>Abra\u00e7os<\/p>\n<p><span>(M<em>\u00fasica que acompanha o texto: Sete Violas &#8211; Theo de Barros \/ P.C.Pinheiro<\/em>)<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meia-noite o rio dormeMais ou menos dois minutosPra n\u00f3s \u00e9 um tempo curtoPra Uiara \u00e9 um tempo enorme(Uiara. 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