{"id":12827,"date":"2012-03-08T07:00:00","date_gmt":"2012-03-08T09:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/03\/liberdade-na-folia-um-louvor-ao-poder-feminino\/"},"modified":"2012-03-08T07:00:00","modified_gmt":"2012-03-08T09:00:00","slug":"liberdade-na-folia-um-louvor-ao-poder-feminino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/03\/liberdade-na-folia-um-louvor-ao-poder-feminino\/","title":{"rendered":"LIBERDADE NA FOLIA [UM LOUVOR AO PODER FEMININO]"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/TI57TJraFCI\/AAAAAAAABEE\/x7PedHC0SrM\/s1600\/308011612_3438d4ab80.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" ox=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/308011612_3438d4ab80.jpg\"><\/a><\/div>\n<div>As brasileiras dan\u00e7am no Bai\u00e3o. Negras senhoras, donas do segredo da ancestralidade, zeladoras do tempo e da tradi\u00e7\u00e3o de Massinoukou Alapong, sacerdotisa da Costa do Ouro\u00a0que chegou\u00a0ao Brasil, no por\u00e3o de algum tumbeiro,\u00a0em meados do s\u00e9culo XIX. \u00a0Massinokou Alapong, que adotou entre n\u00f3s o nome de Bas\u00edlia Sofia,\u00a0ajudou a civilizar esse ch\u00e3o\u00a0ao fincar em S\u00e3o Lu\u00eds do\u00a0Maranh\u00e3o os\u00a0batuques, cantos, dan\u00e7as e mandingas\u00a0do seu povo.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As negras dan\u00e7am. Negras senhoras que continuam fazendo, na Casa Fanti Ashanti,\u00a0a festa que Alapong ensinou: o Bai\u00e3o de Princesas. Saias coloridas, leques, colares de contas, sand\u00e1lias, adornos de cambraia e cheiros de alfazemas vestem de dignidade e realeza as sacerdotisas que, com a leveza do mist\u00e9rio, entregam seus corpos-totens para que\u00a0as encantadas venham, uma vez por ano, dan\u00e7ar entre os viventes. E como dan\u00e7am as encantadas, e como rodopiam e revigoram a vida &#8211; pois que a morte n\u00e3o h\u00e1 &#8211;\u00a0em cada rodopiar. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>E que toquem as violas, violinos, sanfonas\u00a0e \u00a0pandeiros no batuque do Bai\u00e3o. Foi esse o jeito que Alapong encontrou para despistar a pol\u00edcia, que n\u00e3o queria festas com cantos acompanhados\u00a0pelos tambores das \u00c1fricas. Foi esse o jeito que Alapong, a negra velha Bas\u00edlia,\u00a0inventou para\u00a0chamar as passeadoras &#8211; encantadas em pedra de rio, areia de praia, flor de manac\u00e1-cheiroso, tronco de jeretataca, croa, olho de serpente,\u00a0jetirana e\u00a0primavera-de-caiena.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Homem n\u00e3o dan\u00e7a no Bai\u00e3o de Princesas. \u00c9 a festa do poder feminino &#8211; o maior que h\u00e1 &#8211; ,\u00a0\u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o em canto e sonho do dom\u00ednio matriarcal \u00a0da ancestralidade, perpetuada em sensa\u00e7\u00f5es dadivosas que n\u00f3s, os homens, somos incapazes de conceber. \u00c9 por isso que s\u00f3 as mulheres dan\u00e7am quando\u00a0o forrobod\u00f3\u00a0come\u00e7a.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas o Bai\u00e3o \u00e9 mais do que isso. \u00c9 a celebra\u00e7\u00e3o da dignidade fundamental\u00a0de empregadas dom\u00e9sticas, cortadoras de cana, donas de casa, feirantes, cozinheiras, vendedoras de cheiros da terra, merendeiras, faxineiras e\u00a0guerrilheiras de um Brasil que, \u00e0s vezes, insiste em ignorar o Brasil. S\u00e3o elas, essas brasileiras fundamentais, que rodopiam no sal\u00e3o embandeirado de brasilidades.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E eu ou\u00e7o o Bai\u00e3o e fico pensando nos pais de fam\u00edlias de classe m\u00e9dia e\u00a0alta que sonham em mandar\u00a0as filhas e\u00a0filhos adolescentes para estudar na Europa, nos Estados Unidos, na Austr\u00e1lia e nos infernos. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 simples:\u00a0as garotas\u00a0v\u00e3o\u00a0conhecer outras culturas,\u00a0com o objetivo\u00a0de aprender\u00a0novas l\u00ednguas. Sem problemas, mas&#8230;\u00a0e a nossa l\u00edngua, quando \u00e9 que\u00a0os filhos dos bacanas\u00a0v\u00e3o aprender? E a nossa cultura? E o nosso canto, o cheiro da aldeia, a mem\u00f3ria dos nossos mortos, a bandeira das nossas guerras e a dignidade das m\u00e3es ancestrais? Quem ensinar\u00e1?\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um dos cantos mais bonitos do ritual do\u00a0Bai\u00e3o diz, com singeleza comovente\u00a0e falar brasileiro, o seguinte:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em><strong>O meu pai me deu um livro<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Que eu estudava noite e dia<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Pra mim\u00a0fazer o dever<\/strong><\/em><\/div>\n<div><em><strong>Pra ser livre na folia<\/strong><\/em>\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 esse, meus camaradas, o mantra das delicadezas do Brasil, canto do povo miudinho, povo valente de mulheres e \u00a0homens comuns. O Brasil que me comove,\u00a0arrebata e serpenteia feito as saias das\u00a0negras velhas\u00a0do Bai\u00e3o de Princesas.<\/p>\n<p>Saias e alfaias\u00a0de negras velhas onde dan\u00e7am, encantadas, Dandara, Lu\u00edsa Mahim, Maria Quit\u00e9ria, Menininha, M\u00e3e Senhora, Aninha de Xang\u00f4, Iara, Elenira, Zuzu,\u00a0Ana Maria e as marias todas desse povo inteiro.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esse \u00e9 o livro que precisa ser lido,\u00a0o presente dos ancestrais,\u00a0tradi\u00e7\u00e3o dos av\u00f3s, \u00a0li\u00e7\u00e3o dos tumbeiros, aldeias e portas de f\u00e1bricas &#8211; porque n\u00f3s\u00a0estamos aqui\u00a0para dan\u00e7ar, cantar, reverenciar e lutar feito\u00a0as malungas que cruzaram a calunga grande.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00f3s nascemos, e nossas mulheres nos ensinam, \u00a0para a liberdade na folia e para os encantamentos em raiz\u00a0da terra\u00a0no calor da luta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Abra\u00e7os!<\/p>\n<p><span>(Os interessados nas can\u00e7\u00f5es do\u00a0bai\u00e3o podem encontrar v\u00e1rias delas reunidas, com arranjos primorosos, nos trabalhos do grupo A Barca. Indico, sobretudo, o cd\u00a0 Bai\u00e3o de Princesas, lan\u00e7ado pela gravadora CPC-UMES)<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As brasileiras dan\u00e7am no Bai\u00e3o. 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