{"id":12820,"date":"2012-10-13T08:08:00","date_gmt":"2012-10-13T10:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/10\/o-meu-brasil-e-o-do-cirio-de-nazare\/"},"modified":"2012-12-30T10:27:01","modified_gmt":"2012-12-30T12:27:01","slug":"o-meu-brasil-e-o-do-cirio-de-nazare","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/10\/o-meu-brasil-e-o-do-cirio-de-nazare\/","title":{"rendered":"O MEU BRASIL \u00c9 O DO C\u00cdRIO DE NAZAR\u00c9"},"content":{"rendered":"<div><em><span>(Este texto, com pequenas altera\u00e7\u00f5es, foi publicado originalmente no domingo do C\u00edrio de 2010)<\/span><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o sou um homem de f\u00e9, sou homem de ritos. Minha cren\u00e7a\u00a0\u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pelo encantamento do mundo e s\u00f3 compreendo a devo\u00e7\u00e3o quando ela se manifesta em reza, festa, dan\u00e7a, batuque, comida e camaradagem. Meus\u00a0deuses\u00a0s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es do\u00a0olhar da poesia sobre o mundo que me cerca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A ci\u00eancia v\u00ea no fogo a oxida\u00e7\u00e3o de um material combust\u00edvel que libera calor, luz e produtos da rea\u00e7\u00e3o, tais como o di\u00f3xido de carbono. A poesia dos homens, na M\u00e3e \u00c1frica, \u00a0viu no fogo a for\u00e7a\u00a0de Xang\u00f4, Nzazi e Hevioso. Eu acredito na verdade da ci\u00eancia, mas me emociono com o canto e a dan\u00e7a. Por isso, diante do fogo, bato\u00a0 cabe\u00e7a para Xang\u00f4 e venero no rito a poesia do mundo, o encantamento dos homens e a celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Escrevi certa feita que a raz\u00e3o, quando v\u00ea a natureza, produz ci\u00eancia. A poesia, quando faz a mesma coisa, v\u00ea os deuses e orix\u00e1s. A mirada da arte come\u00e7a onde a ci\u00eancia\u00a0n\u00e3o consegue contemplar a aspira\u00e7\u00e3o dos homens pelo que n\u00e3o \u00e9 tang\u00edvel\u00a0&#8211; e esses olhares, para mim, absolutamente n\u00e3o se excluem. Eu n\u00e3o acredito em deuses, mas creio nos homens que rezam e, deste modo, se integram ao todo &#8211; o conjunto de deuses sem Deus &#8211; que algum acaso provavelmente produziu.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 exatamente por isso, como homem sem f\u00e9 gr\u00e1vido de ritos, que me comovo com a celebra\u00e7\u00e3o do C\u00edrio de Nazar\u00e9, nesse segundo domingo de outubro, em Bel\u00e9m do Par\u00e1 &#8211;\u00a0 e tamb\u00e9m, em propor\u00e7\u00e3o mais modesta, mas\u00a0nem por isso menos comovente,\u00a0aqui no Rio, quando a comunidade paraense fecha a Rua Haddock Lobo, na minha Tijuca, para louvar a santa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Me\u00a0emociona a hist\u00f3ria de um certo Pl\u00e1cido, caboclo ribeirinho, que em mil e setecentos achou, \u00e0 beira do igarap\u00e9 Murucutu, uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazar\u00e9. Pl\u00e1cido cuidou da imagem, bastante desgastada pelo tempo, e\u00a0montou um\u00a0modesto\u00a0altar em sua casa. Diz o povo que a imagem voltou, misteriosamente, ao local onde tinha sido encontrada algumas vezes. A santinha queria mesmo ficar no igarap\u00e9.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O caboclo Pl\u00e1cido viu na volta da santa um sinal divino e, por isso, ergueu uma ermida \u00e0 beira do Murucutu. O povo simples, sabendo do milagre da volta da imagem, passou a visitar a ermida e reverenciar Nossa Senhora. A festa do C\u00edrio de Nazar\u00e9, at\u00e9 hoje, reproduz\u00a0o misterioso\u00a0retorno da santinha ao local onde fora encontrada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Se me falta a f\u00e9, me sobra o apre\u00e7o pelos ritos do povo. O C\u00edrio, ao longo dos tempos, se transformou em vigorosa celebra\u00e7\u00e3o da vida em comunidade. Comidas, cantos, louvores, brinquedos, leil\u00f5es, namoros, cheiros e licores bordam a festan\u00e7a daquilo que constitui, para mim, o verdadeiro sentimento religioso do Brasil\u00a0&#8211; afeto celebrado em festa e recria\u00e7\u00e3o, pelo rito, da miudeza\u00a0provis\u00f3ria da vida.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 esse Brasil ritualizado que, temo, pode estar se perdendo em meio ao desencantamento trazido pela intoler\u00e2ncia dos fundamentalismos de tantos que, ao louvar a Deus, celebram na verdade a supremacia do mercado, a ascens\u00e3o do indiv\u00edduo como\u00a0m\u00e1quina de consumo\u00a0e a morte da coletividade. Soam tristemente, feito berrantes que chamam o gado triste, as trombetas que tangem o povo para os currais eleitorais\u00a0de uma\u00a0f\u00e9 n\u00e3o ritualizada e desprovida da capacidade de reinventar os mundos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O meu Brasil \u00e9 o do C\u00edrio do Nazar\u00e9. \u00c9, mais ainda, o do C\u00edrio reinventado, na f\u00e9 do batuque, pela for\u00e7a do samba &#8211; ritual profano do povo e celebra\u00e7\u00e3o do apre\u00e7o entre as gentes em suas aspira\u00e7\u00f5es\u00a0de beleza.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Abra\u00e7os!<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Este texto, com pequenas altera\u00e7\u00f5es, foi publicado originalmente no domingo do C\u00edrio de 2010) N\u00e3o sou um homem de f\u00e9, sou homem de ritos. 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