{"id":12813,"date":"2012-11-20T23:14:00","date_gmt":"2012-11-21T01:14:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/11\/pano-branco-sobre-a-pele-preta\/"},"modified":"2012-11-20T23:14:00","modified_gmt":"2012-11-21T01:14:00","slug":"pano-branco-sobre-a-pele-preta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/11\/pano-branco-sobre-a-pele-preta\/","title":{"rendered":"PANO BRANCO SOBRE A PELE PRETA"},"content":{"rendered":"<div>No dia 6 de janeiro de 1954, o jornal <em>O Globo<\/em>\u00a0publicou o seguinte\u00a0editorial:<\/div>\n<div><span><em><\/em><\/span>\u00a0<\/div>\n<div><span><em><strong>&#8220;<span>A princ\u00edpio<\/span><\/strong><\/em><span><strong> <em> foi moda, e talvez ainda o seja, considerar a macumba como uma manifesta\u00e7\u00e3o pitoresca da cultura popular, \u00e0 qual se levam turistas e visitantes ilustres, e que era objeto de reportagens e not\u00edcias nas revistas e nos jornais, bem como de romantiza\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. Isso deu ao culto b\u00e1rbaro de orix\u00e1s e babala\u00f4s um prest\u00edgio que de outro modo n\u00e3o poderia ter e o fez propagar-se das camadas menos cultas da popula\u00e7\u00e3o para a classe m\u00e9dia e empolgar at\u00e9 pessoas das pr\u00f3prias elites. \u00c9 essa infec\u00e7\u00e3o que queremos apontar com alarme. \u00c9 essa trai\u00e7\u00e3o que queremos denunciar com ve\u00eamencia. \u00c9 preciso que se diga e que se proclame que  a macumba, de origem africana, por mais que apresente interesse pitoresco para os artistas, por mais que seja um assunto digno para o soci\u00f3logo, constitui manifesta\u00e7\u00e3o de uma forma primitiva e atrasada da civiliza\u00e7\u00e3o e a sua exterioriza\u00e7\u00e3o e desenvolvimento s\u00e3o fatos desalentadores e humilhantes para nossos foros de povo culto e civilizado. Tudo isso indica a necessidade de uma campanha educativa para a redu\u00e7\u00e3o desses focos de ignor\u00e2ncia e de desequil\u00edbrio mental,<\/em><\/strong> <strong>com que se v\u00eam conspurcando a pureza e a sublimidade do sentimento religioso.&#8221;<\/strong><\/span><\/span><\/div>\n<div><span><em><span><\/span><\/em><\/span>\u00a0<\/div>\n<div><span><span>O\u00a0editorial\u00a0do jornal, desde sempre identificado com a vis\u00e3o das classes dominantes, n\u00e3o poderia ser mais claro:\u00a0o Brasil precisa se\u00a0livrar do primitivismo b\u00e1rbaro\u00a0da heran\u00e7a africana, extirpar as religi\u00f5es que misturam ignor\u00e2ncia e desequil\u00edbrio mental e fazer valer os princ\u00edpios\u00a0 da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. \u00c0s elites, cabe o papel regenerador que nos afirmar\u00e1 como um povo culto e civilizado.\u00a0<\/span><\/span><br \/><span><span><\/span><\/span><br \/><span><span>[Este arrazoado\u00a0todo de <em>O Globo<\/em>, diga-se, n\u00e3o foi propagado no s\u00e9culo XIX. Foi escrito na segunda metade do s\u00e9culo XX,\u00a0quase setenta anos depois da Lei \u00c1urea, nove anos\u00a0depois do encerramento da guerra contra o Nazi-Fascismo e\u00a0cinco anos depois da Declara\u00e7\u00e3o Universal\u00a0dos Direitos Humanos.]<\/span><\/span><\/div>\n<div><span><span><\/span><\/span>\u00a0<\/div>\n<div><span><span>O editorial n\u00e3o surpreende. Alguns\u00a0governos brasileiros, com apoio de parte dos\u00a0segmentos mais favorecidos e de alguns intelectuais que abra\u00e7aram a eugenia, tentaram apagar, nos primeiros anos\u00a0do\u00a0p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, a presen\u00e7a do negro na nossa hist\u00f3ria. Este projeto se manifestou do ponto de vista f\u00edsico e cultural.\u00a0Fisicamente\u00a0o negro sucumbiria ao branqueamento racial promovido pela imigra\u00e7\u00e3o subvencionada de europeus, capaz de limpar a ra\u00e7a em algumas gera\u00e7\u00f5es.\u00a0Tal projeto tamb\u00e9m\u00a0se manifestou na tentativa sistem\u00e1tica de eliminar as formas de aproxima\u00e7\u00e3o com o mundo e elabora\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas cotidianas\u00a0(jeitos de cantar, rezar, comer, louvar os ancestrais, festejar, lidar com a natureza, etc.)\u00a0produzidas pelos descendentes de africanos, desqualificando como barb\u00e1rie e criminalizando como delitos contra a ordem seus sistemas de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria\u00a0e inven\u00e7\u00e3o\u00a0da vida.<\/span><\/span><\/div>\n<div><span><\/span>\u00a0<\/div>\n<div><span><span>Se hoje n\u00e3o temos mais a prega\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de uma pol\u00edtica de branqueamento, ainda estamos distantes de superar o que Joaquim Nabuco chamou de &#8220;obra da escravid\u00e3o&#8221;. H\u00e1 um senhor de engenho morando em cada brasileiro, adormecido. Vez por outra ele acorda, diz que est\u00e1 presente, se\u00a0manifesta\u00a0e adormece de novo, em sono leve. <\/span><\/span><\/div>\n<div><span><span><\/span><\/span>\u00a0<\/div>\n<div><span><span>H\u00e1\u00a0um senhor de engenho nos espreitando nos elevadores sociais e de servi\u00e7o; nos apartamentos com depend\u00eancias de empregadas; no bacharelismo imperial dos doutores que\u00a0ostentam garbosamente\u00a0o t\u00edtulo; na eleva\u00e7\u00e3o do tom de voz e na postura senhorial\u00a0do <em>sabe com quem voc\u00ea est\u00e1 falando? <\/em>; no deslumbre das elites que buscam civilizar os filhos em interc\u00e2mbios no exterior; na cruzada evang\u00e9lica contra a Umbanda e o Candombl\u00e9; na folcloriza\u00e7\u00e3o pitoresca &#8211; quase t\u00e3o nociva quanto a demoniza\u00e7\u00e3o &#8211; destas religiosidades; nos curr\u00edculos escolares fundamentados em par\u00e2metros europeus, onde \u00edndios e negros entram como ap\u00eandices do projeto civilizacional predat\u00f3rio e catequista\u00a0do Velho Mundo; nos gritos do\u00a0diretor de televis\u00e3o que chama um aux\u00edliar de preto fedorento; no chiste do\u00a0sujeito que\u00a0acha que n\u00e3o \u00e9 racista e chama o outro de macaco;\u00a0no pedantismo de certa intelectualidade versada na bagagem cultural produzida pelo ocidente e refrat\u00e1ria\u00a0aos saberes oriundos das praias\u00a0africanas e florestas brasileiras.<\/span><\/span><\/div>\n<div><span><span><\/span><\/span>\u00a0<\/div>\n<div>E j\u00e1 que \u00e9 para exemplificar as pr\u00e1ticas senhoriais, lembremos que recentemente\u00a0dois clubes de granfinos do Rio de Janeiro, o Paysandu e o Cai\u00e7aras, proibiram a entrada em suas depend\u00eancias de bab\u00e1s\u00a0negras. A raz\u00e3o explicitada para as barra\u00e7\u00f5es foi cristalina:\u00a0elas\u00a0n\u00e3o vestiam uniformes brancos que as identificassem. Em S\u00e3o Paulo, com seus contrastes mirabolantes e favelas incendiadas \u00e0 socapa,\u00a0\u00e9 obrigat\u00f3rio o branco\u00a0para as\u00a0bab\u00e1s\u00a0que cuidam\u00a0dos filhos das sinh\u00e1s\u00a0nos parquinhos dos\u00a0clubes\u00a0Pinheiros, Paulistano e Paineiras.\u00a0Os\u00a0seguran\u00e7as do\u00a0shopping S\u00e3o Conrado Fashion Mall, o preferido da classe AAA carioca,\u00a0t\u00eam ordens para abordar\u00a0as bab\u00e1s que n\u00e3o vestem o uniforme distintivo da condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A roupa exigida \u00e0s bab\u00e1s, uma das faces mais reveladoras de um\u00a0Brasil que insiste em mirar o mundo do alpendre da\u00a0Casa Grande do engenho,\u00a0 guarda, por outro lado, um contraponto cheio de significados. \u00c9 inteiramente branco, afinal, o traje consagrado ao maior dos orix\u00e1s, Obatal\u00e1, dono do poder da cria\u00e7\u00e3o,\u00a0 portador do opaxor\u00f4, o cajado misterioso dos mundos.<\/p>\n<p>As sinhazinhas e sinhozinhos\u00a0em flor, os\u00a0novos senhores de engenho, os seus capit\u00e3es do mato e feitores, nem desconfiam\u00a0que no contraste entre\u00a0o pano\u00a0branco e a pele negra se manifesta, insuper\u00e1vel e silenciosa, a for\u00e7a\u00a0ancestral da\u00a0majestade do Pai Maior; aquela que\u00a0cruzou a calunga grande\u00a0para amenizar a dor e nos civilizar um dia.<\/p>\n<p>Abra\u00e7os<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 6 de janeiro de 1954, o jornal O Globo\u00a0publicou o seguinte\u00a0editorial: \u00a0 &#8220;A princ\u00edpio foi moda, e talvez ainda o seja, considerar aTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[],"class_list":["post-12813","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12813","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12813"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12813\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12813"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12813"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12813"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}