{"id":12812,"date":"2012-11-22T15:29:00","date_gmt":"2012-11-22T17:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/11\/oxalufanico-e-exusiaco\/"},"modified":"2012-11-22T15:29:00","modified_gmt":"2012-11-22T17:29:00","slug":"oxalufanico-e-exusiaco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/11\/oxalufanico-e-exusiaco\/","title":{"rendered":"OXALUFANICO E EXUS\u00cdACO"},"content":{"rendered":"<div>Dia desses, matutando no \u00f3cio sobre uma aula que dei a respeito da Festa da Penha e\u00a0as artimanhas\u00a0de sacralizar o profano e profanizar o sagrado, resolvi ensaiar uma traquinagem brasileira: n\u00e3o usarei mais os conceitos de Apol\u00edneo e Dionis\u00edaco para falar de impulsos fundamentais do homem, ordem e caos, festa e labuta, invers\u00e3o e controle e outros salamaleques. Para todos os efeitos, utilizarei os conceitos de Oxalufanico e Exus\u00edaco. Nietzsche, que se tivesse conhecido um babalorix\u00e1 e\u00a0raspado o orix\u00e1 de cabe\u00e7a resolveria boa parte dos seus problemas pessoais, aprovaria.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Oxaluf\u00e3 \u00e9 o senhor do pano branco, da paci\u00eancia, do m\u00e9todo, da ordem, da retid\u00e3o de conduta e do cumprimento rigoroso dos afazeres. Tudo que \u00e9 contr\u00e1rio a isso representa a negatividade que pode prejudicar seus filhos. Diz um mito do corpo liter\u00e1rio de If\u00e1 que, quando se desviou da miss\u00e3o a ser executada e se entregou aos deleites do vinho de palma, Oxaluf\u00e3 quase comprometeu a pr\u00f3pria tarefa da cria\u00e7\u00e3o do mundo. Tomou uma porranca e, por muito pouco, a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi para a cucuia. Em outra ocasi\u00e3o, quando tamb\u00e9m tentou agir por instinto e teimosia, n\u00e3o seguindo as\u00a0recomenda\u00e7\u00f5es do babala\u00f4, Oxaluf\u00e3 foi preso ao fazer uma viagem ao reino de seu filho Xang\u00f4, acusado injustamente de furtar o cavalo do Ob\u00e1. Curtiu uma cana de sete anos por causa disso.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A dan\u00e7a de Oxaluf\u00e3 \u00e9\u00a0 alquebrada, solene, marcada pelo ritmo lento e constante\u00a0do toque do igbin nos atabaques. Apoiado em um cajado sagrado, o opaxor\u00f4, coberto por um pano branco, o al\u00e1 funfun, o grande orix\u00e1 exige respeito e \u00e9 reverenciado por todos os outros orix\u00e1s. Sua propalada\u00a0lentid\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 apenas aparente, feito o futebol de Ademir da Guia, l\u00edmpido, cl\u00e1ssico, objetivo e sem firulas, na dire\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel do gol advers\u00e1rio. Quando o rum dobra na batida do aguidavi, Oxaluf\u00e3 mostra o vigor de sua majestade s\u00e9ria. \u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Seus filhos devem evitar as bebidas alco\u00f3licas, n\u00e3o podem nem chegar perto de cacha\u00e7a,\u00a0e s\u00e3o submetidos a uma s\u00e9rie de tabus alimentares que envolvem, por exemplo, os alimentos que levam dend\u00ea. \u00c9 a ele, reverente, que ofere\u00e7o canjica sem sal, pe\u00e7o a ordem para minha casa,\u00a0dedico a\u00a0minha como\u00e7\u00e3o silenciosa e guardo o branco nas primeiras sextas-feiras. Oxaluf\u00e3 \u00e9, enfim,\u00a0o maestro de solenidades,\u00a0que n\u00e3o toca sem partitura e n\u00e3o quer firulas que driblem\u00a0o rigor bonito e s\u00e9rio do que vai escrito na\u00a0pauta.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>J\u00e1 Exu vive\u00a0no riscado, na fresta, na casca da lima,\u00a0malandreando no sincopado, desconversando, subvertendo no arrepiado do tempo.\u00a0 Exu \u00e9 o menino que colheu o mel dos gafanhotos, mamou o leite das donzelas e  acertou o p\u00e1ssaro ontem com a pedra que atirou hoje; \u00e9 o subversivo que, em um verso de If\u00e1,\u00a0quando est\u00e1 sentado\u00a0bate com a cabe\u00e7a no teto e em p\u00e9 n\u00e3o atinge nem mesmo a altura do  fogareiro.<\/div>\n<div>Exu \u00e9 Pastinha na ginga, Garrincha no  drible, Dino no sete cordas, Grande Otelo na tela, o jagun\u00e7o na travessia, o  sincopado do escurinho com fama de brig\u00e3o, a pimenta no caruru de Dona Flor, Tia  Eul\u00e1lia no miudinho, a rima de Aniceto na roda de partido alto, o mote de Z\u00e9  Limeira, o trenzinho do Villa-Lobos, o manto do Bispo do Ros\u00e1rio, a vida severina, o infinito enquanto  dure e o provis\u00f3rio que se perpetua na poesia. Exu mora nos oito baixos de Janu\u00e1rio e passeia, brincalh\u00e3o,\u00a0nos 120 do seu filho Luiz.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Certa feita imaginei e escrevi sobre\u00a0um encontro entre Her\u00e1clito e Exu. O grego  diz, cheio de solenidades,\u00a0que viver \u00e9 a arte de esperar o inesperado.\u00a0O moleque Elegbara, preto retinto, fil\u00e1  na cabe\u00e7a , p\u00e9s ligeiros e pau duro, solta uma gargalhada alegre e responde ao  grego, entre um gole e outro de marafo , enquanto descarna um bode, prepara o  couro e dan\u00e7a no a\u00e7o da navalha: <\/p>\n<div>&#8211; S\u00f3 percebeu isso agora, meu bom?<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Como eu acho, feito o poeta das irrelev\u00e2ncias,\u00a0que s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 falso aquilo que o homem inventa, fa\u00e7o dessas brasileirices africanas o meu desfazer do n\u00f3 do mundo e me proclamo\u00a0Oxalufanico e Exus\u00edaco: \u00e9 assim,\u00a0galhofeiro como o Compadre e s\u00e9rio feito o Pai Maior, que tento compreender as nossas ritualiza\u00e7\u00f5es do tempo.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Abra\u00e7os\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia desses, matutando no \u00f3cio sobre uma aula que dei a respeito da Festa da Penha e\u00a0as artimanhas\u00a0de sacralizar o profano e profanizar o sagrado,Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[],"class_list":["post-12812","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12812","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12812"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12812\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12812"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12812"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12812"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}