{"id":12472,"date":"2009-08-28T01:15:00","date_gmt":"2009-08-28T03:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/08\/cinecasulofilia-jean-charles\/"},"modified":"2009-08-28T01:15:00","modified_gmt":"2009-08-28T03:15:00","slug":"cinecasulofilia-jean-charles","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/08\/cinecasulofilia-jean-charles\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Jean Charles&quot;"},"content":{"rendered":"<div>Hoje um pouco mais cedo, nossa coluna sobre cinema, parceria com o blog <a href=\"http:\/\/www.cinecasulofilia.blogspot.com\/\">Cinecasulofilia<\/a>, do amigo e cineasta Marcelo Ikeda, abrindo a sexta feira cultural no Ouro de Tolo.<\/p>\n<p>Vamos ao texto de hoje:<\/p>\n<p><span>Jean Charles<\/span><br \/><span>de Henrique Goldman<\/span><\/p>\n<p><span>&#8220;Preciso escrever alguma coisa sobre Jean Charles, ainda que atabalhoadamente, j\u00e1 que \u00e9 um filme que est\u00e1 sendo pouco comentado e acredito tratar-se de um filme importante dentro do cen\u00e1rio do atual cinema brasileiro.<\/span><\/p>\n<p><span>Jean Charles \u00e9 a primeira co-produ\u00e7\u00e3o entre Brasil e Inglaterra. Nunca antes foi feito nenhum filme co-produzido entre esses dois pa\u00edses. A co-produ\u00e7\u00e3o internacional est\u00e1 virando uma esp\u00e9cie de moda para os produtores nativos. Mas o que significa isso de fato, associar-se a uma produtora estrangeira para contar uma hist\u00f3ria? No caso de Jean Charles, isso \u00e9 natural, j\u00e1 que \u00e9 um \u201cdocudrama\u201d de um brasileiro que foi viver na Inglaterra. Acontece que no caso de v\u00e1rios filmes brasileiros recentes, a co-produ\u00e7\u00e3o internacional serve essencialmente como forma de se projetar para o mundo, meio para participar de festivais internacionais de renome, meio para superar \u201co obscurantismo e o subdesenvolvimento do cinema brasileiro\u201d e ter contato com \u201duma realidade de primeiro mundo\u201d. Nesse sentido, Jean Charles \u00e9 o ant\u00edpoda de uma co-produ\u00e7\u00e3o internacional como Budapeste, uma co-produ\u00e7\u00e3o entre o Brasil e a Hungria (??!!), que acabou fracassando em seu prop\u00f3sito em se inserir em um grande festival internacional. Henrique Goldman, diretor de Jean Charles, n\u00e3o quis fazer \u201co filme da sua vida\u201d, ou ainda, \u201cum filme para a competitiva de Cannes\u201d, ele simplesmente quis fazer um filme, mais um filme, um filme como tantos outros dispon\u00edveis no mercado internacional.<\/span><\/p>\n<p><span>Jean Charles \u00e9 um filme prec\u00e1rio. Feito numa esp\u00e9cie de 16mm granulado, com uma decupagem simples, o filme n\u00e3o tem entre seus m\u00e9ritos a habilidade na condu\u00e7\u00e3o dos elementos da linguagem cinematogr\u00e1fica, mesmo em se tratando de um filme de narrativa convencional. O que o torna interessante \u00e9 a abordagem da narrativa, \u00e9 a possibilidade de fazer o filme desta forma, \u00e9 sua posi\u00e7\u00e3o dentro do cinema brasileiro de hoje.<\/span><\/p>\n<p><span>Jean Charles j\u00e1 come\u00e7a anunciando-se como uma grande farsa, ou ainda, sem a pretens\u00e3o de ser um document\u00e1rio, um \u201cretrato imparcial\u201d sobre a condi\u00e7\u00e3o dos imigrantes que trabalham no \u201cprimeiro mundo\u201d. Jean Charles \u00e9 o ant\u00edpoda de um filme como P\u00e3o e Rosas, de Ken Loach. Loach mostra didaticamente personagens que representam tipos fechados e homog\u00eaneos, sem ambig\u00fcidades, constru\u00eddos para comprovar sua tese, a priori de todo o filme, cujo objetivo \u00faltimo \u00e9 \u201cconscientizar o espectador\u201d. Os imigrantes s\u00e3o v\u00edtimas dos empregadores, que s\u00e3o vil\u00f5es que representam o grande capital que os trata como semi-escravos. Em Jean Charles, ningu\u00e9m \u00e9 ing\u00eanuo, todos sabem as regras do jogo. E ainda assim \u00e9 poss\u00edvel construir um mundo humano. Ao final da obra, o empregador \u2013 tamb\u00e9m um imigrante \u2013 faz uma festa e traz mulheres para comemorar com os pedreiros. Pois acima de tudo, Jean Charles \u2013 um filme sobre uma trag\u00e9dia \u2013 \u00e9 um filme sobre a possibilidade da celebra\u00e7\u00e3o da vida e da liberdade de ir e vir.<\/span><\/p>\n<p><span>Mas como ia dizendo, o filme come\u00e7a como uma grande mentira. Jean Charles comove os oficiais da alf\u00e2ndega para que sua prima, Vanessa Gi\u00e1como, possa entrar no Brasil. Logo ap\u00f3s ele ridiculariza os oficiais ingleses, mostrando que seu \u201cchoror\u00f4\u201d como pobre-coitado era um mero artif\u00edcio para conseguir entrar na t\u00e3o sonhada Inglaterra. \u00c9 como se o pr\u00f3prio Henrique Goldman estivesse nos dizendo que todo o enredo em torno de Jean Charles fosse uma esp\u00e9cie de pretexto para poder fazer cinema na Inglaterra!<\/span><\/p>\n<p><span>Henrique Goldman n\u00e3o quer ser Ken Loach: n\u00e3o quer passar no Festival de Cannes, n\u00e3o quer fazer mensagem politicamente correta sobre a vitimiza\u00e7\u00e3o dos imigrantes estrangeiros, n\u00e3o quer fazer cinema de decupagem cheio de virtuosismos de c\u00e2mera. Jean Charles \u00e9 exemplar pela forma humana e honesta com que assume a sua precariedade, da\u00ed que se trata de um dos filmes mais dignos do cinema brasileiro em muito tempo. Assume a sua precariedade como brasileiro, isto \u00e9, com a consci\u00eancia de que o cinema brasileiro entrando na Inglaterra nunca vai ser cinema ingl\u00eas, sempre vai ser um cinema do terceiro mundo. Numa cena, Vanessa Gi\u00e1como trabalha como gar\u00e7onete numa festa num barco, e ao final da festa seu pretendente a namorado ucraniano mostra a ela que eles est\u00e3o no mesmo barco, vendo a mesma vista e tomando o mesmo champagne (no final de festa eles bebem o que sobrou das garrafas) dos gringos ingleses milion\u00e1rios. \u00c9 o Brasil entrando no cinema globalizado mesmo que seja pela porta dos fundos!!!! Da mesma forma, quando Goldman vai filmar uma festa de m\u00fasica brasileira, ele n\u00e3o escolhe bossa nova, samba, chorinho ou nada do tipo, e sim simplesmente o Sidney Magal!!!<\/span><\/p>\n<p><span>Ainda, no final do filme, Goldman se concentra na trag\u00e9dia, do b\u00e1rbaro assassinato de Jean Charles. Mas o que poderia ser um retrato raivoso do contato com o estrangeiro, \u00e9 visto com certa serenidade, at\u00e9 um final bonito, bonito de verdade. Em vez de apontar para o ressentimento em rela\u00e7\u00e3o ao assassinato, Goldman prefere apontar para uma expectativa de esperan\u00e7a, apontar para um legado de Jean Charles: como dissemos, uma possibilidade da celebra\u00e7\u00e3o da vida e da liberdade de ir e vir. A personagem de Gi\u00e1como n\u00e3o vai mais trabalhar de 9 \u00e0s 9 para juntar dinheiro e voltar para o Brasil, mas arruma uma mochila e resolve viajar na aventura de conhecer o mundo. O filme se encerra \u2013 SPOILER!!!! \u2013 com ela simplesmente entra no metr\u00f4, mesmo local onde Jean Charles foi brutalmente assassinado. Ou seja, no lugar do ressentimento, a possibilidade de voltar a entrar nesse metr\u00f4, o que encerra de forma coerente o belamente prec\u00e1rio Jean Charles.<\/span>&#8220;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje um pouco mais cedo, nossa coluna sobre cinema, parceria com o blog Cinecasulofilia, do amigo e cineasta Marcelo Ikeda, abrindo a sexta feira culturalTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[289],"tags":[13,11],"class_list":["post-12472","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pedro-migao","tag-cinema","tag-marcelo-ikeda"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12472","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12472"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12472\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12472"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12472"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}