{"id":12383,"date":"2009-09-29T15:47:00","date_gmt":"2009-09-29T17:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/09\/samba-de-terca-muito-prazer-eu-sou-a-vila\/"},"modified":"2009-09-29T15:47:00","modified_gmt":"2009-09-29T17:47:00","slug":"samba-de-terca-muito-prazer-eu-sou-a-vila","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/09\/samba-de-terca-muito-prazer-eu-sou-a-vila\/","title":{"rendered":"Samba de Ter\u00e7a &#8211; &quot;Muito Prazer, eu sou a Vila&quot;"},"content":{"rendered":"<div>Hoje \u00e9 ter\u00e7a feira, dia de nossa coluna semanal. Iremos falar um pouquinho do Grupo Especial, porque o samba que lembraremos \u00e9 para l\u00e1 de especial: Unidos de Vila Isabel 1994.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Este samba \u00e9 do tempo em que a escola do bairro de Noel ainda n\u00e3o havia &#8220;se modernizado&#8221;, como ocorreria na d\u00e9cada seguinte. A azul e branco da Zona Norte oscilava pelas posi\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias, mas como de h\u00e1bito apresentava grandes sambas de enredo; tradi\u00e7\u00e3o que ostenta desde a d\u00e9cada de sessenta e os imortais sambas de Martinho da Vila.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>1994, a prop\u00f3sito, marca a primeira vit\u00f3ria de outro tit\u00e3 da escola: Andr\u00e9 Diniz. O jovem compositor, de quem tenho a honra de conhecer e ter certo grau de coleguismo, messi\u00e2nico como eu, colecionaria vit\u00f3rias a partir da\u00ed. Sempre com grandes sambas, n\u00e3o somente na Vila, mas sempre grandes composi\u00e7\u00f5es.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O enredo contava a hist\u00f3ria do bairro de Vila Isabel, sede e nascedouro da escola. Disponibilizo a sinopse da escola, escrita pelo saudoso carnavalesco Oswaldo Jardim &#8211; falecido precocemente ap\u00f3s uma batalha contra as drogas &#8211; que faz muita falta aos desfiles de hoje:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>&#8220;Caros amigos, muito prazer, eu sou a Vila. Para que possamos nos conhecer melhor, hoje vou falar-lhes um pouco sobre mim mesma, contar-lhes um pouco sobre mim mesma, contar-lhes minhas hist\u00f3rias e meus segredos, apresentar a voc\u00eas meus admiradores e meus muitos filhos, que certamente entraram para a hist\u00f3ria imortal da Cidade do Rio de Janeiro.<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Meus primeiros habitantes foram os \u00edndios Tamoios e Tupinamb\u00e1s que permaneceram em meus recantos at\u00e9 a funda\u00e7\u00e3o da cidade. Em seguida vieram os Jesu\u00edtas que difundiram em minhas terras grande planta\u00e7\u00e3o de cana-de-a\u00e7\u00facar. Assim, durante muitos anos, fiquei a servi\u00e7o da Coroa Portuguesa. Nessa \u00e9poca me chamavam de Fazenda dos Macacos.<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>De Bragan\u00e7a <\/i><\/b><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>Foi com este nome que fui parar nas m\u00e3os reais de D.Pedro I que logo me adotou como sua preferida. Era fazenda de que ele mais gostava. Por meus caminhos, sua majestade cavalgava sempre na inten\u00e7\u00e3o espairecer o esp\u00edrito e recompor suas id\u00e9ias. Um dia, D.Pedro se casou novamente. Grande festa aconteceu. Foram sete dias de feriado e entre os presentes de casamento oferecidos a Duquesa de Bragan\u00e7a l\u00e1 estava eu. Seria agora uma esp\u00e9cie de resid\u00eancia da Fam\u00edlia Real. Assim permaneci por mais alguns anos at\u00e9 que um dia mudei de dono.<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>E Drumond<\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Agora sou de Jo\u00e3o Batista Viana Drumond, o nosso conhecido Bar\u00e3o. E foi com ele que comecei a crescer realmente. E vejam s\u00f3, chegaram a fundar uma Companhia Arquitet\u00f4nica na cidade s\u00f3 pra me urbanizar. Ruas e avenidas no modelo franc\u00eas, batizadas quase que em sua totalidade com nomes de abolicionistas famosos ou de moradores ilustres como: Joaquim Nabuco, Bezerra de Menezes, Manoel de Abreu, Teodoro da Silva e outros tantos. De quando em vez recebia a visita do Imperador D.Pedro II que guardava muito carinho e admira\u00e7\u00e3o. Comecei a Ter vida pr\u00f3pria, ganhei um zool\u00f3gico no antigo caminho do goiabal, o primeiro internato para menores carentes com ensino profissionalizante, o Col\u00e9gio Jo\u00e3o Francisco Bragan\u00e7a, autor da melodia do Hino \u00e0 Bandeira. Ganhei tamb\u00e9m um lugar para corrida de cavalos, o Prado de Vila Isabel. Fui ficando importante. Logo chegaram os bondes e com eles muitos admiradores. Minhas ruas se encheram de gente bonita e bem vestida.<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>Rosa <br \/><\/i><\/b><\/div>\n<div><i>Era o in\u00edcio do s\u00e9culo. Minha avenida principal era o Boulevard, nela misturando-se a eleg\u00e2ncia francesa e amabilidade carioca. Fui crescendo. Apareceram f\u00e1bricas e com elas mais moradores. Uma delas, a f\u00e1brica Confian\u00e7a de Tecidos, ficou imortalizada na can\u00e7\u00e3o do grande filho Noel Rosa, &#8220;Tr\u00eas Apitos&#8221;. Os tr\u00eas apitos acionados pelas m\u00e3os do Seu Luiz Alves, pernambucano como quase todos os oper\u00e1rios da Confian\u00e7a, que trouxe consigo um pouco da heran\u00e7a de sua terra. Atrav\u00e9s dele, por minhas ruas desfilou o mais importante Frevo da cidade &#8220;Os Lenhadores&#8221;. Muito bem ensaiados e com muita alegria, faziam nos dias de carnaval. A festa dos moradores do bairro. Mas n\u00e3o s\u00f3 de frevo vivia meu carnaval: meus blocos eram de balan\u00e7ar o coreto. Era dif\u00edcil saber o melhor: &#8220;Cara de Vaca&#8221; ou &#8220;Faz Vergonha&#8221;.<br \/><\/i><\/div>\n<div><i>Minhas batalhas de confetes nos bondes e nas ruas eram inenarr\u00e1veis. Com carros pr\u00f3prios ou at\u00e9 mesmo alugados, os corsos eram esperados com ansiedade. Com suas capotas arriadas, os autom\u00f3veis exibiam odaliscas, sult\u00f5es, piratas e tantos outros personagens que desfilavam sob chuva de confetes e serpentinas. Fui caraterizada por minhas festas. As Juninas com p\u00e9-de-moleque pra quem quer que fosse. A Festa do Divino tamb\u00e9m atra\u00eda muita gente, promovida pelo &#8220;Seu Garganta&#8221;, dono de uma vacaria, que nessa ocasi\u00e3o distribu\u00eda carne para os mais carentes da comunidade.<\/i><\/div>\n<div><i>Minhas tardes de Domingo eram rom\u00e2nticas: ver a sorte no realejo, levar a namorada ao cinema pra assistir Tom Mix e depois tomar sorvete de pistache com soda, na confeitaria Vila Isabel.<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Fui me tornando cada vez mais a predileta dos amantes, namorados e poetas. Quando a noite ca\u00eda, o som dos viol\u00f5es invadia as minhas cal\u00e7adas, vindo de v\u00e1rias partes, da Leiteria Vita, do Ponto-do-Cem-Reis e at\u00e9 mesmo das esquinas. Nessa \u00e9poca, os chamados &#8220;Tangar\u00e1s&#8221; reinavam nas minhas madrugadas, iluminadas pela luz da lua e acompanhados de uma boa &#8220;cascatinha&#8221; gelada. Um verdadeiro bando de poetas e amantes da bo\u00eamia que entre outros cantavam com a presen\u00e7a de Almirante e Jo\u00e3o de Barro (Braguinha).<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>O gosto pelo samba foi tomando conta de mim. Cada vez mais, noites iam se enchendo de cad\u00eancia e compasso. E l\u00e1 do alto do Morro que ainda lembra meu nome, Morro do Macaco, em 1946 surgiu, das m\u00e3os de Seu China, a minha Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, que sem d\u00favida nenhuma, hoje \u00e9 o reduto dos meus maiores artistas e amigos. Sim, porque filho de artistas sempre foi o meu forte. Acho que n\u00e3o h\u00e1 no mundo que n\u00e3o conhe\u00e7a Noel Rosa. Quem n\u00e3o ouviu falar em Orestes Barbosa? Quem n\u00e3o conhece Paulo Braz\u00e3o? Sem falar do nosso querido Martinho da Vila que com certeza \u00e9 todos, mas \u00e9 da Vila.<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>da Silva<\/i><\/b><\/div>\n<div><i><\/i><\/div>\n<div><i>Por minhas cal\u00e7adas, as \u00fanicas cal\u00e7adas musicais do mundo, hoje passam muitos tipos. Apressados, tranq\u00fcilos, do bairro e de fora dele. Mas uma coisa \u00e9 certa: apesar do progresso, minha atmosfera n\u00e3o mudou. A grande fam\u00edlia, como sempre fui chamada, continua unida, basta lembrar do nosso querido &#8220;Perna&#8221;, personagem vivo no cora\u00e7\u00e3o de todos n\u00f3s, que at\u00e9 bem pouco tempo promovia uma grande ceia de Natal chamada &#8220;quem tem p\u00f5e, quem n\u00e3o tem tira&#8221;, onde os mais afortunados davam oportunidade aos mais carentes de tamb\u00e9m terem o Natal.<\/i><\/div>\n<div><i><\/i><\/div>\n<div><b><i>Pode Me Chamar de Vila<\/i><\/b><\/div>\n<div><i><\/i><\/div>\n<div><i>\u00c9 certo que muita coisa em mim mudou, mais em apar\u00eancia que em personalidade. Por isso me sinto segura em dizer que hoje ainda sou a Vila da Princesa, sou do Morro e da Nobreza e de mais quem quiser me amar.&#8221;<\/i><\/div>\n<div><i><\/i><\/div>\n<div><span><i>(Fonte: <a href=\"http:\/\/www.galeriadosamba.com.br\/\">Galeria do Samba<\/a>)<\/i><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Embalada pelo belo samba, a escola fez um desfile bastante alegre, apesar de seu poderio financeiro inferior ao das grandes for\u00e7as daqueles tempos. A azul e branca foi a sexta escola a passar pelo Samb\u00f3dromo na noite do domingo de carnaval, 13 de fevereiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A Unidos de Vila Isabel obteria o nono lugar no carnaval daquele ano, com 289 pontos. Seu samba ficaria para a hist\u00f3ria, n\u00e3o somente pela sua beleza; mas tamb\u00e9m por marcar o in\u00edcio de uma era dominante nos sambas da escola, a do talentoso compositor Andr\u00e9 Diniz.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um leg\u00edtimo sucessor de Martinho da Vila.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Abaixo a letra do samba e um v\u00eddeo do desfile.<\/div>\n<p><i>Enredo: &#8220;Muito prazer! Isabel de Bragan\u00e7a e Drumond Rosa da Silva, mas pode me chamar de Vila&#8221;<\/i><\/p>\n<p><span><i>Compositores: Vilani Silva &#8220;Bombril&#8221;, Evandro Boc\u00e3o e Andr\u00e9 Diniz<\/i><\/span><i><br \/><\/i><br \/><i>&#8220;Vou cantando&#8230;<\/i><br \/><i>Os meus encantos vou mostrar<\/i><br \/><i>Muito prazer, eu sou a musa, sou a fonte<\/i><br \/><i>Deixa meu feiti\u00e7o te levar <\/i><br \/><i>Antes habitada pelos \u00edndios<\/i><br \/><i>E os jesu\u00edtas cultivaram a cana no meu ch\u00e3o<\/i><br \/><i>Era &#8220;Fazenda dos Macacos&#8221;<\/i><br \/><i>A preferida do Imperador desta na\u00e7\u00e3o<\/i><br \/><i>Tamb\u00e9m fui o dote de D.Pedro para duquesa<\/i><br \/><i>Com o progresso de Drumond<\/i><br \/><i>Ganhei cultura e requinte &#8220;\u00e0 francesa&#8221;<\/i><\/p>\n<p><b><i>&#8220;Peguei o bonde&#8221;, &#8220;passei&#8221; no Boulevard<\/i><\/b><br \/><b><i>E a &#8220;Confian\u00e7a&#8221; \u00e9 doce recordar<\/i><\/b><br \/><b><i>&#8220;Os tr\u00eas apitos&#8221; cantados por Noel<\/i><\/b><br \/><b><i>Ainda ecoam pela Vila Isabel<\/i><\/b><i><br \/><\/i><br \/><i>Blocos, corsos, &#8220;lenhadores&#8221;&#8230;<\/i><br \/><i>Alegria dos meus carnavais<\/i><br \/><i>Embalei, os namorados, na magia do amor formei casais<\/i><br \/><i>Em noites de festas, serestas, viol\u00f5es e &#8220;Os Tangar\u00e1s&#8221;<\/i><br \/><i>Virei a predileta dos amantes e poetas<\/i><br \/><i>Gravados nas cal\u00e7adas musicais<\/i><br \/><i>Desperta &#8220;Seu China&#8221;! Acorda &#8220;Noel&#8221;!<\/i><br \/><i>Pra ver a nossa escola desse branco azul do c\u00e9u<\/i><br \/><i>E o &#8220;Z\u00e9 Ferreira&#8221; (al\u00f4 Martinho!) vem saudando a multid\u00e3o<\/i><br \/><i>Pode ma chamar de Vila que orgulho \u00e9 o meu &#8220;Braz\u00e3o&#8221;!<\/i><\/p>\n<p><b><i>Quem p\u00f5e n\u00e3o tira<\/i><\/b><br \/><b><i>Nesta ceia popular<\/i><\/b><br \/><b><i>Sou do morro \u00e0 nobreza<\/i><\/b><br \/><b><i>E de quem quiser amar&#8221;<\/i><\/b><\/p>\n<p>Semana que vem, finalmente falaremos deste samba: Acad\u00eamicos da Rocinha 1992.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 ter\u00e7a feira, dia de nossa coluna semanal. 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