{"id":12062,"date":"2010-04-03T10:23:00","date_gmt":"2010-04-03T12:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/o-golpe-civil-militar-de-1964-e-a-classe-media-vila-ou-massa-de-manobra-da-historia\/"},"modified":"2010-04-03T10:23:00","modified_gmt":"2010-04-03T12:23:00","slug":"o-golpe-civil-militar-de-1964-e-a-classe-media-vila-ou-massa-de-manobra-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/o-golpe-civil-militar-de-1964-e-a-classe-media-vila-ou-massa-de-manobra-da-historia\/","title":{"rendered":"O Golpe Civil-Militar de 1964 e a Classe M\u00e9dia: vil\u00e3 ou massa de manobra da Hist\u00f3ria?"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S7UFdW94EuI\/AAAAAAAAB8M\/Z6mHzs9agKo\/s1600\/Brizola+e+Jango.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"200\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/Brizola+e+Jango.jpg\" width=\"168\"><\/a><\/div>\n<div>O texto publicado abaixo sobre o anivers\u00e1rio do Golpe Militar de 1964 suscitou um r\u00e9plica bastante interessante do leitor e colunista Fabr\u00edcio Gomes. Como historiador ele elaborou um texto que complementa e contextualiza com rigor cient\u00edfico o assunto tratado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Divido com voc\u00eas abaixo, para coment\u00e1rios e an\u00e1lises.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>&#8220;Discordo da abordagem hist\u00f3rica adotada no texto, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo do artigo. Vamos ent\u00e3o falar didaticamente, tentar explicar isso para todos entenderem: n\u00e3o houve um &#8220;golpe militar&#8221; e sim um &#8220;golpe CIVIL-MILITAR&#8221;. O acr\u00e9scimo da palavra &#8220;civil&#8221; acontece a\u00ed justamente porque todo o aparato que envolveu o epis\u00f3dio contou com a ajuda (e anu\u00eancia) da CLASSE M\u00c9DIA, o principal sustent\u00e1culo do golpe.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria (e os fatos) confirmam isso, quando pegamos, por exemplo, duas tentativas anteriores de golpe, tambem empreendidas pelos militares: em 1955, quando setores conservadores do Ex\u00e9rcito a pedido do ent\u00e3o presidente Carlos Luz &#8211; e tambem do ex-presidente Caf\u00e9 Filho &#8211; tentaram impedir a posse de Juscelino sob o pretexto de que ele n\u00e3o tinha a maioria dos votos e, com isso, n\u00e3o poderia assumir. E em 1961 (quando novamente os mesmos setores conservadores, personificados pela UDN, ap\u00f3s a ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, tentaram impedir a posse do ent\u00e3o vice-presidente Jo\u00e3o Goulart, que se encontrava em viagem a China &#8211; at\u00e9 tentativa de assassinato a Jango foi pensada, leiam sobre a &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Mosquito&#8221;, tentativa de abater o avi\u00e3o de Jango em seu retorno ao Brasil &#8211; na ocasi\u00e3o, o golpe foi abafado pela Rede da Legalidade do governador do RS, Leonel Brizola.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s desses dois exemplos, percebemos claramente que houve frustra\u00e7\u00e3o dos golpes justamente porque a classe m\u00e9dia n\u00e3o chancelou aquele empreendimento. Em ambos os casos, pr\u00f3prios setores do Ex\u00e9rcito, legalistas, inibiram a a\u00e7\u00e3o golpista. Em 1955, o ent\u00e3o Ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Duffles Lott, com sua &#8220;novembrada&#8221;, garantiu a posse de JK; e em 1961, a atua\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel do General Machado Lopes, comandante do III Ex\u00e9rcito (Rio Grande do Sul), que ao se dirigir ao Palacio Piratini, sede do Governo daquele Estado, para prender Brizola acabou aderindo \u00e0 Rede da Legalidade.<\/p>\n<p>No caso de 1961, o Ex\u00e9rcito &#8220;calou a boca&#8221; mediante a instaura\u00e7\u00e3o de um novo modo de governo, o Parlamentarismo &#8211; que restringia a atua\u00e7\u00e3o de Jango e transformava a presidencia da Rep\u00fablica num cargo pra l\u00e1 de simb\u00f3lico. Quem mandava mesmo era o primeiro-ministro Tancredo Neves. A partir de 1963, o quadro mudou, mais precisamente em 06 de janeiro daquele ano, com o plebiscito que definiu o retorno do regime presidencialista. Com isso, Jango readquiria plenos poderes.<\/p>\n<p>A figura de Jo\u00e3o Goulart \u00e9 bastante emblem\u00e1tica nesse sentido: para alguns, um trabalhista hist\u00f3rico, herdeiro pol\u00edtico de Get\u00falio Vargas. Jango seria incensado por seu padrinho pol\u00edtico, que o prestigiara em seu segundo governo, elevando Jango a Ministro do Trabalho (um cargo que historicamente era destinado sempre ao PTB). Para outros Jango era um comunista infiltrado no Planalto, incentivador de uma Rep\u00fablica Sindicalista e influenciado diretamente por seu cunhado Brizola. Mas na verdade Jango n\u00e3o passava de um nacionalista: mas n\u00e3o a ponto de rejeitar capital estrangeiro. \u00c9 v\u00e1lido lembrar que antes do Golpe Jango visitou os EUA e foi bem recebido por l\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tamb\u00e9m levar em conta o panorama geopol\u00edtico da \u00e9poca: fim da d\u00e9cada de 1950, in\u00edcio dos anos 1960, tivemos a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana acontecendo em Cuba (1959) &#8211; a prop\u00f3sito, tambem uma revolu\u00e7\u00e3o nacionalista. O r\u00f3tulo de &#8220;revolu\u00e7\u00e3o comunista&#8221; s\u00f3 veio 2 anos depois. No contexto da Guerra Fria, o mundo polarizava-se entre EUA e URSS e quem se alinhava a um lado, era considerado inimigo do outro. Os EUA, diante do exemplo cubano, resolveu implementar uma pol\u00edtica que observava diretamente os pa\u00edses da America Latina e Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>Ser nacionalista naquela \u00e9poca era ter a possibilidade de ser confundido com a vermelhid\u00e3o ideol\u00f3gica importada de Moscou. E isso \u00e9 logico que assustava a classe m\u00e9dia, que foi alertada do perigo comunista. Apesar de toda propaganda ideol\u00f3gica feita por institui\u00e7\u00f5es como o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais &#8211; dirigido pelo General Golbery do Couto Silva), IBAD (Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica), CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia) entre outros, fica dif\u00edcil acreditar que milh\u00f5es de pessoas pudessem servir de massa de manobra; sendo totalmente manipuladas por meios de comunica\u00e7\u00e3o da \u00e9poca (que inclusive eram mais distintos em opini\u00e3o do que temos hoje, com o predom\u00ednio de uma emissora de TV apenas). N\u00e3o \u00e9 possivel que aqueles institutos pudessem enganar tanta gente &#8211; o que nos leva a refletir que, de alguma forma, a classe m\u00e9dia brasileira se identificava, de fato, com o medo ao perigo comunista e a restri\u00e7\u00e3o \u00e0s liberdades impostas por seu exemplo mais emblem\u00e1tico &#8211; o regime cubano, do ditador Fidel Castro.<\/p>\n<p>As Marchas da Fam\u00edlia com Deus e pela Liberdade levavam, em media, 500 mil pessoas, em v\u00e1rias capitais do Brasil: Rio, S\u00e3o Paulo, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte etc. Houve uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Setores conservadores das For\u00e7as Armadas contariam ent\u00e3o,com o elemento que lhes faltou nas duas tentativas anteriores de golpe, em 1955 e 1961: a classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>\u00c9 bom ressaltar, por\u00e9m, que as For\u00e7as Armadas n\u00e3o eram um bloco monol\u00edtico: no interior das Armas, v\u00e1rias cis\u00f5es existiam. Nas elei\u00e7\u00f5es do Clube Militar, em 1962, disputavam chapas que eram nacionalistas (apelidadas de comunistas) e chapas anti-nacionalistas (apelidadas de entreguistas). Venceu a chapa anti-nacionalista. Era comum ent\u00e3o, os rumos do Ex\u00e9rcito serem direcionados pelos resultados das elei\u00e7\u00f5es no Clube Militar. Mas dentro do pr\u00f3prio Exercito havia sim setores identificados com Jango, que concordavam com sua pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Friso isso porque o senso comum aponta para uma certa polariza\u00e7\u00e3o integral na epoca: Jango x Militares. Tal compreens\u00e3o do fato \u00e9 equivocada. O proprio dispositivo militar que cercava Jango (comandado pelo Ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro) \u00e9 um exemplo de que havia um racha no proprio exercito sobre isso. O comandande do II Ex\u00e9rcito, Amaury Kruel, lotado em S\u00e3o Paulo era amigo pessoal de Jango, tendo seu filho conseguido um emprego p\u00fablico a gra\u00e7as interven\u00e7\u00e3o do presidente. O general Kruel poderia perfeitamente garantir a permanencia de Jango no poder &#8211; e realmente houve uma negocia\u00e7\u00e3o para isso, mas a imposi\u00e7\u00e3o dada seria que Jango se desfizesse de Brizola e da CGT &#8211; o que Jango recusou veementemente.<\/p>\n<p>Entendendo tambem a pr\u00e1xis pol\u00edtica e operacional do Governo Jango \u00e9 interessante perceber que o presidente n\u00e3o contava com a simpatia da propria esquerda da \u00e9poca. Luis Carlos Prestes e outros comunistas hist\u00f3ricos viam o governo tomar atitudes de morosidade diante do cen\u00e1rio da epoca. Achavam que Jango estava indo muito devagar e que o presidente cedia aos interesses &#8220;imperialistas&#8221; (o que quebra a vers\u00e3o de que Jango era contrario totalmente aos EUA). Leonel Brizola inclusive queria assumir a Pasta da Fazenda em 1963 &#8211; fato que n\u00e3o ocorreu. O ex-governador, deputado mais votado no Estado da Guanabara, discordava veementemente das posi\u00e7\u00f5es de Jango &#8211; inclusive sua participa\u00e7\u00e3o no com\u00edcio da Central em 13 de abril deu-se apenas de ultima hora, pois Jango n\u00e3o concordava em ser influenciado por ele.<\/p>\n<p>\u00c9 bem possivel que Jango fosse muito indeciso em suas a\u00e7\u00f5es. E isto de fato colaborou para sua deposi\u00e7\u00e3o em 01\/04\/1964. Era alvo de cr\u00edticas da esquerda e da direita justamente por n\u00e3o se posicionar. Acreditava-se que daria um golpe em 01 de maio de 1964 &#8211; o que nunca ficou provado.<\/p>\n<p>Finalizando, acho completamente sem fundamento comparar Lula com Jango, principalmente porque Lula conta em seu governo (ou com a simpatia), com ex-arenistas hist\u00f3ricos &#8211; Sarney, Collor, Maluf, Francisco Dornelles, Jader Barbalho, entre outros antigos &#8220;coron\u00e9is&#8221; da ditadura. Outro erro \u00e9 apontar apenas a UDN como partido que apoiava o golpe. Juscelino tamb\u00e9m apoiou o golpe, pois estava interessado nas elei\u00e7\u00f5es de 1965.<\/p>\n<p>Criar um clima de golpismo, afirmando que &#8220;dependendo dos resultados de outubro\/2010, os rumos podem mudar&#8221;, \u00e9, na minha vis\u00e3o, atitude precipitada e que vai contra as regras de uma democracia. Assim como Lula assumiu o governo em 2003, o partido derrotado seja qual for deveria aceitar o resultado tal como ele emergir das urnas. \u00c9 a regra do jogo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Tanto JK como outros pol\u00edticos e a classe m\u00e9dia se arrependeram a partir de 1965\/1966 ao perceber os rumos que o regime tomava. O general Humberto de Alencar Castello Branco assumiu a presidencia querendo promover elei\u00e7\u00f5es presidenciais em 1965. Mas novamente setores conservadores de dentro do ex\u00e9rcito n\u00e3o concordavam com isso. A ascens\u00e3o do general Costa e Silva pode ser entendida ent\u00e3o como &#8220;um golpe dentro do golpe&#8221;. Depois vieram AI-5, acirramento de persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, etc etc etc, mas a\u00ed j\u00e1 \u00e9 assunto para outro post futuro.&#8221;<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto publicado abaixo sobre o anivers\u00e1rio do Golpe Militar de 1964 suscitou um r\u00e9plica bastante interessante do leitor e colunista Fabr\u00edcio Gomes. 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