{"id":12054,"date":"2010-04-09T09:02:00","date_gmt":"2010-04-09T11:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/cinecasulofilia-estrada-para-ythaca\/"},"modified":"2010-04-09T09:02:00","modified_gmt":"2010-04-09T11:02:00","slug":"cinecasulofilia-estrada-para-ythaca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/cinecasulofilia-estrada-para-ythaca\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Estrada para Ythaca&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S7z0N2QRgJI\/AAAAAAAAB-E\/2NNrkeZcscY\/s1600\/ythaca.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"150\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/ythaca.jpg\" width=\"200\"><\/a><\/div>\n<div>Mais uma sexta feira, semana complicada, mas temos a nossa coluna sobre cinema, a <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/search\/label\/Cinecasulofilia\">&#8220;Cinecasulofilia&#8221;<\/a>. Como sempre assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e um dos dois torcedores da Acad\u00eamicos da Santa Cruz Marcelo Ikeda, que assina o excelente blog &#8220;<a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">Cinecasulofilia<\/a>&#8220;.<\/p>\n<p><i>&#8220;Dos quatro filmes, o mais radical \u00e9, sem sombras de d\u00favidas, Estrada Para Ythaca, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Di\u00f3genes e Ricardo Pretti. A radicalidade j\u00e1 est\u00e1 impressa no filme (ou melhor, gravada na fita, ou ainda, salva no HD) por compor um projeto coletivo, assinado por quatro diretores, experi\u00eancia cada vez mais rara nos dias de hoje, em que o \u201ccinema de autor\u201d representa o trunfo do cineasta solit\u00e1rio, da \u201cc\u00e2mera-caneta\u201d. Os quatro diretores n\u00e3o assinam somente a dire\u00e7\u00e3o mas praticamente todas as fun\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. Dessa forma \u00e9 um projeto essencialmente coletivo. A coletividade de seu modo de produ\u00e7\u00e3o (o filme \u00e9 todo financiado pelos realizadores, sem editais ou leis de incentivo) combina de forma org\u00e2nica com o pr\u00f3prio objetivo do filme, j\u00e1 que Ythaca \u00e9 um filme sobre a amizade, a amizade entre os quatro diretores, e um quinto membro, cuja figura \u201cfantasmag\u00f3rica\u201d paira durante todo o filme, ainda que eventualmente apare\u00e7a: sua aus\u00eancia f\u00edsica \u00e9 compensada por uma presen\u00e7a marcante ao longo de todo o filme. Falo de Ythallo Rodrigues (cuja estranha grafia do primeiro nome inspirou a tresloucada grafia de Ythaca), amigo supostamente morto, que estabelece o mote para o filme: os quatro amigos embarcam em uma viagem de conota\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e metaf\u00edsicas. Falo \u201csupostamente\u201d, pois Ythallo est\u00e1 morto apenas na diegese: apenas o personagem de si mesmo jaz, mas ele est\u00e1 \u201cvivinho da silva\u201d l\u00e1 no Cariri, inclusive dirigindo seus pr\u00f3prios filmes. Essa ambig\u00fcidade entre as influ\u00eancias da representa\u00e7\u00e3o e o real \u00e9 uma das mais fortes marcas do filme.<\/p>\n<p>Se em Morro do C\u00e9u, o ga\u00facho Spolidoro vai ao interior do Rio Grande do Sul para, sozinho, observar o t\u00edmido cotidiano do jovem Bruno Storti, num projeto viabilizado pelo DOCTV, Estrada Para Ythaca em v\u00e1rias medidas pode ser visto como um filme oposto, apesar de um di\u00e1logo marcante: s\u00e3o quatro diretores que, num projeto coletivo, bancado por eles mesmos, adentram pelo interior do Cear\u00e1, num aut\u00eantico road movie, a fim de encontrar algo que n\u00e3o se sabe muito bem, talvez rastros do amigo morto, talvez no fundo, apenas um passeio de fuga e de encontro de si mesmos.<\/p>\n<p>Se Morro do C\u00e9u \u00e9 um filme \u201cintrovertido\u201d, que observa de forma delicada e discreta a vida de Storti, Ythaca \u00e9 um filme \u201cextrovertido\u201d, irreverente, absolutamente radical em sua narrativa estilha\u00e7ada, profundamente debochado e autocr\u00edtico. Ythaca d\u00e1 continuidade ao maravilhoso cinema produzido pelo Cear\u00e1. Aqui, o uso da palavra \u201ccontinuidade\u201d \u00e9 curioso, pois justamente o que surpreende na atual \u201ccena cearense\u201d \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de uma \u201cescola cinematogr\u00e1fica\u201d em que cada diretor precisa se estabelecer na \u201ccinematografia mundial\u201d ao adotar determinados tiques ou cacoetes que os identifiquem com uma marca autoral, e que ser\u00e3o reproduzidos ad nauseam nos filmes seguintes. Ao contr\u00e1rio, cada filme \u00e9 uma \u201cmetamorfose ambulante\u201d, com viradas e mudan\u00e7as radicais de um filme para o outro, ou mesmo dentro de um filme. Vejamos por exemplo a virada dentro de Passos no Sil\u00eancio, de Guto Parente, do interior para o exterior. Vejamos a \u201cvirada a cada plano\u201d de um filme como Mi\u00fados, de Pedro Di\u00f3genes. Ou ainda, a filmografia dos Irm\u00e3os Pretti, que sintetiza esse desejo da transforma\u00e7\u00e3o e do gosto pelo processo, mais que o resultado final.<\/p>\n<p>Mas fal\u00e1vamos que Estrada Para Ythaca \u00e9 um filme sobre a amizade, espelhada na escolha radical dos quatro diretores em serem os protagonistas do pr\u00f3prio filme. Filme que \u00e9 absolutamente ficcional mas ao mesmo tempo uma autobiografia. S\u00e3o nesses entremeios entre o document\u00e1rio, o experimental e o cinema de fic\u00e7\u00e3o que os quatro diretores se filiam a uma certa tradi\u00e7\u00e3o do cinema contempor\u00e2neo. Vendo Ythaca tamb\u00e9m parece claro que os diretores pisam num grande terreno de refer\u00eancias, que v\u00e3o desde filmes americanos \u201chigh school\u201d dos anos oitenta at\u00e9 \u00edcones do cinema contempor\u00e2neo como Gerry, de Gus Van Sant, ou o cinema do catal\u00e3o Albert Serra, ou mesmo uma direta cita\u00e7\u00e3o a Vento do Leste, numa cena que deslumbrou os cr\u00edticos presentes em Tiradentes (onde recebeu o pr\u00eamio de melhor filme) pelas possibilidades de leituras.<\/p>\n<p>Mas acima de tudo \u2013 e esse \u00e9 o objetivo desse texto \u2013 Ythaca \u00e9 um filme jovem. Filme feito por jovens, todos diretores abaixo dos trinta anos, que brincam de fazer cinema, e enquanto brincam fingindo ser, acabam sendo. Ou ainda, por tr\u00e1s de suas barbas posti\u00e7as e de seu jeito canastr\u00e3o, os quatro diretores s\u00e3o jovens que n\u00e3o querem crescer, que n\u00e3o fazem planos para o futuro. Nessa fase fugidia que \u00e9 a juventude, esses diretores s\u00e3o adolescentes tardios que n\u00e3o s\u00f3 se assumem jovens mas principalmente se orgulham disso (Rushmore??) Eles se preocupam em viver o presente, intensamente, em saborear os percursos desse caminho que os leva a lugar nenhum a n\u00e3o ser a si mesmos (como ali\u00e1s a cartela do in\u00edcio do filme aponta, uma cita\u00e7\u00e3o de Kaf\u00e1vis). Essa despretens\u00e3o e essa ingenuidade por sua vez s\u00e3o acompanhadas por um cinema extremamente sofisticado de refer\u00eancias, permeado de uma certa melancolia, expressa num desejo pelos grandes planos gerais e tempos mortos, num deslocamento entre o corpo e a paisagem, num cinema sobre a amizade composto de poucos di\u00e1logos e preenchido por sil\u00eancios. \u00c9 na forma particular como o filme trata essa necessidade de um afeto distante, esse desejo de fuga e de encontro, atrav\u00e9s de um cinema \u201cleve e engra\u00e7adinho\u201d (diria \u201ccool\u201d), que faz o seu encanto particular, um filme misterioso, irregular, difuso, talvez como o cinema e a vida.&#8221;<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma sexta feira, semana complicada, mas temos a nossa coluna sobre cinema, a &#8220;Cinecasulofilia&#8221;. 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