{"id":12024,"date":"2010-04-30T11:02:00","date_gmt":"2010-04-30T13:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/cinecasulofilia-benning-lumiere\/"},"modified":"2010-04-30T11:02:00","modified_gmt":"2010-04-30T13:02:00","slug":"cinecasulofilia-benning-lumiere","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/cinecasulofilia-benning-lumiere\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; Benning &amp; Lumi\u00e8re"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S9osbyjlN_I\/AAAAAAAACCs\/jOV4amJ9mw4\/s1600\/cinematographe2.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"256\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/cinematographe2.jpg\" width=\"320\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Mais uma sexta feira, e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, em parceria com o <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">blog de mesmo nome<\/a>. Como sempre, assinada pelo cr\u00edtico de cinema e cineasta Marcelo Ikeda.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><b>&#8220;A chegada e a sa\u00edda de um conjunto de trens do enquadramento cinematogr\u00e1fico: Benning e Lumi\u00e8re<\/b><\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>Eu me lembro que em 1995, nas comemora\u00e7\u00f5es dos cem anos do cinema, come\u00e7aram a ser publicadas listas dos melhores filmes da hist\u00f3ria do cinema. Uma das listas era composta por listas individuais de cr\u00edticos brasileiros. Um dos cr\u00edticos \u2013 n\u00e3o me recordo o nome \u2013 colocou A Chegada do Trem na Esta\u00e7\u00e3o, dos Irm\u00e3os Lumi\u00e8re, encabe\u00e7ando sua lista. Apenas anos mais tarde fui perceber que sua lista era por ordem cronol\u00f3gica, de modo que, naquele instante, pensei que o cr\u00edtico colocava o que \u00e9 considerado o marco inicial da hist\u00f3ria do cinema como seu filme mais importante. Na \u00e9poca, fiquei absolutamente indignado com essa coloca\u00e7\u00e3o, como se fosse uma provoca\u00e7\u00e3o, pois senti que era como se o cinema n\u00e3o tivesse se consolidado, j\u00e1 que se o filme mais importante era o primeiro, ent\u00e3o era porque todos os seguintes n\u00e3o estavam \u00e0 sua altura? Curiosamente esta constata\u00e7\u00e3o poderia ser vista como tipicamente \u201clumieriana\u201d, j\u00e1 que supostamente os Lumi\u00e8re disseram uma frase bastante famosa e ainda pouco compreendida: \u201co cinema \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o sem futuro\u201d.<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>Hoje, 110 anos ap\u00f3s a primeira exibi\u00e7\u00e3o desse filmete dos Lumi\u00e8re, de cerca de um minuto, n\u00e3o seria exagero se o consider\u00e1ssemos como um dos filmes mais importantes da hist\u00f3ria do cinema. Hoje, esse filmete ganha novas e novas significa\u00e7\u00f5es. A suposta ingenuidade dos Lumi\u00e8re, registrando com c\u00e2mera fixa acontecimentos simples (um trem chegando a uma esta\u00e7\u00e3o, oper\u00e1rios saindo de uma usina), com t\u00edtulos (magistrais) que simplesmente descreviam o que v\u00edamos (era isso, nada al\u00e9m disso), hoje pode ser visto como uma s\u00edntese das possibilidades expressivas de um certo tipo de cinema contempor\u00e2neo, em suas rela\u00e7\u00f5es com o espa\u00e7o f\u00edsico, a dura\u00e7\u00e3o e a c\u00e2mera fixa. Ao contr\u00e1rio de Griffith (bem depois), que encenava dramas morais, ou de Meli\u00e8s, que fazia trucagens espetaculares, os Lumi\u00e8re, em seus filmes mais significativos, \u201capenas\u201d colocavam uma c\u00e2mera e deixavam-na ali registrando o escorrer do tempo e da vida ao longo da pel\u00edcula cinematogr\u00e1fica. Paradoxalmente essa suposta ingenuidade pode ser vista hoje como a \u201cponta de linha\u201d das investiga\u00e7\u00f5es sobre o cinema contempor\u00e2neo.<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>\u201cO cinema \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o sem futuro\u201d. Mais de cem anos depois \u00e9 sobre este contexto que \u00e9 poss\u00edvel assistir a uma experi\u00eancia extremamente radical e extremamente simples (intuitiva) como os filmes de James Benning, especialmente um filme como RR. \u00c9 importante frisar que RR n\u00e3o \u00e9 o primeiro filme de Benning, que, por sua vez, n\u00e3o \u00e9 um jovem de vinte anos de idade. RR \u00e9 mais um filme que comprova todo um caminho de experimenta\u00e7\u00e3o art\u00edstica desse realizador canadense que agora come\u00e7a a ter seus trabalhos mais difundidos, especialmente devido a internet. Isso \u00e9 extremamente curioso, j\u00e1 que a radical op\u00e7\u00e3o de Benning pela pel\u00edcula cinematogr\u00e1fica, pelos filmes de longa dura\u00e7\u00e3o com planos fixos, pode parecer \u201canacr\u00f4nica\u201d, \u201cantiquada\u201d, ou ainda, absolutamente oposta ao esp\u00edrito inquieto, perscrutador, incisivo, geralmente associado \u00e0s novas tecnologias. Nesse sentido, RR ainda tem uma participa\u00e7\u00e3o especial, pois talvez seja a \u00faltima experi\u00eancia em pel\u00edcula de Benning, j\u00e1 que seu filme seguinte, Ruhr, foi o primeiro em que o autor utilizou uma c\u00e2mera digital, em HD.<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>O que \u00e9 RR? Num certo sentido, o filme \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o, um conjunto de quinze, vinte planos (n\u00e3o sei ao certo quantos) com c\u00e2mera fixa, de trens passando pela superf\u00edcie norte-americana, entrando e saindo de quadro, sem nenhum efeito em imagem e som (na verdade h\u00e1 alguns, e em Ruhr o autor vai radicalizar isso, mas n\u00e3o vou aprofundar isso aqui). Para al\u00e9m disso, podemos fazer in\u00fameras rela\u00e7\u00f5es: o trem como s\u00edmbolo da modernidade, o trem como \u00edcone de uma origem cinematogr\u00e1fica, o realismo da imagem cinematogr\u00e1fica, o rigor do cinema estruturalista, a import\u00e2ncia econ\u00f4mica e social do trem (s\u00e3o trens de todos os tipos, de passageiros, de carga, passando por desertos, pontes, cidades, etc.), o trem como desestabilizador de uma harmonia geogr\u00e1fica e sonora [lembremos o Thoreau de Walden], o movimento (deslocamento) da imagem e do som como trajet\u00f3ria no interior da imagem fixa, o jogo entre previsibilidade e o acaso (cada trem passando \u00e9 uma experi\u00eancia \u00fanica, imposs\u00edvel de ser repetida), etc, etc, etc.<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>Mas al\u00e9m disso, o que est\u00e1 em jogo, \u00e9 uma possibilidade de olhar e ouvir o mundo, de se inserir num certo espa\u00e7o e tentar reproduzir essas sensa\u00e7\u00f5es visuais e ac\u00fasticas para o espectador, a partir das possibilidades e especialmente das impossibilidades do cinema. Quando sa\u00edmos do fim de um filme de Benning (aqueles que o conseguem), passamos a rever nossas rela\u00e7\u00f5es de percep\u00e7\u00e3o com o mundo. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, passamos a RESIGNIFICAR o sentido dessas pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es e, ao resignificar, estamos fazendo cinema! O cinema de Benning se insere numa dualidade que ele resume com muita solidez, de forma robusta, e da\u00ed a singeleza de seu projeto cinematogr\u00e1fico: de um lado passamos a observar de forma mais atenta o mundo, de outro (como se o anterior ainda fosse pouco), passamos a resignificar a possibilidade dessa pr\u00f3pria observa\u00e7\u00e3o (o rigor do estilo, a autoconsci\u00eancia do estilo, a \u00eanfase na repeti\u00e7\u00e3o \u2013 o que me lembra Cezanne \u201cver, ver, ver, para que possamos desver\u201d). O \u201cimpressionismo\u201d do cinema de Benning (cada trem \u00e9 um trem) com o rigor de um estilo, um \u201cestruturalismo\u201d (um \u201cequil\u00edbrio\u201d, uma \u201charmonia\u201d). \u00c9 como se Benning quisesse fazer uma s\u00edntese entre Cezanne e Rafael. E isso com apenas meio naco de tinta.&#8221;<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma sexta feira, e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, em parceria com o blog de mesmo nome. 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