{"id":12013,"date":"2010-05-07T08:47:00","date_gmt":"2010-05-07T10:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/05\/cinecasulofilia-o-mais-importante-filme-da-decada\/"},"modified":"2010-05-07T08:47:00","modified_gmt":"2010-05-07T10:47:00","slug":"cinecasulofilia-o-mais-importante-filme-da-decada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/05\/cinecasulofilia-o-mais-importante-filme-da-decada\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; O Mais Importante Filme da D\u00e9cada"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/S998_RTO30I\/AAAAAAAACH0\/MskdqiEEqyg\/s1600\/mekas-jonas3.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"200\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/mekas-jonas3.jpg\" width=\"200\"><\/a><\/div>\n<div>Mais uma sexta feira, e mais uma &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, escrita em parceria com o <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">blog de mesmo nome<\/a>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como sempre, texto do cineasta, professor de cinema e cr\u00edtico Marcelo Ikeda, agora tamb\u00e9m f\u00e3 n\u00famero 1 do Icasa de Juazeiro do Norte.<\/div>\n<div><\/div>\n<p><i><\/p>\n<div><span><i><b>O mais importante filme da &#8220;d\u00e9cada&#8221;<\/b><\/i><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><i>Aos poucos vem sendo publicado um conjunto de listas com os melhores filmes da primeira d\u00e9cada do novo s\u00e9culo. Na verdade, s\u00e3o listas \u201cdos anos 00\u201d, j\u00e1 que de fato a d\u00e9cada come\u00e7a em 2001 e termina em 2010. De qualquer modo, e aproveitando isso, minha lista \u00e9 encabe\u00e7ada com um filme finalizado em 2000. Um certo annus mirabilis, o ano da virada. \u00c9 curioso pois nesse conjunto de listas publicadas em nenhuma delas vi listado esse filme que \u00e9 certamente o filme mais significativo da \u201cd\u00e9cada\u201d.<\/i><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><i>Ele se chama As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty, de Jonas Mekas (foto). Mekas j\u00e1 garantiu o seu lugar na hist\u00f3ria do cinema com um filme absolutamente genial como Walden: Diaries, Notes &#038; Sketches, de 1969, coletando imagens realizadas nos cinco anos anteriores. A enorme grandeza de Mekas \u00e9 entender que o cinema possa ser n\u00e3o apenas um di\u00e1rio, mas essencialmente um esbo\u00e7o. Enquanto o cinema cl\u00e1ssico norte-americano busca os tempos fortes, as a\u00e7\u00f5es determinadas, e realiza in\u00fameros takes at\u00e9 encontrar o \u201ctake perfeito\u201d, a \u201ca\u00e7\u00e3o funcional\u201d, Mekas revira pelo avesso a forma como um realizador oferece imagens para o espectador. Intitulando seu filme-di\u00e1rio como \u201cnotas e esbo\u00e7os\u201d, Mekas aponta para o car\u00e1ter de incompletude, mas n\u00e3o como um \u201cprocesso por vir\u201d, ou como mera etapa para alcan\u00e7ar afinal uma \u201cobra acabada\u201d. Ao contr\u00e1rio, a grandeza de seu cinema \u00e9 apontar para a impossibilidade de se chegar ao fim, de se terminar um processo. O que aproxima o processo de realiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio ato de viver, permeado de imperfei\u00e7\u00f5es, rasuras e garranchos. Pois s\u00e3o exatamente essas imperfei\u00e7\u00f5es que garantem \u00e0 vida sua beleza, mas uma beleza essencialmente transidia.<\/i><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><i>Isto est\u00e1 ainda mais expl\u00edcito em As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty. Enquanto Walden era um grande (leve) tour de force para estabelecer um estilo (um modo de ver o mundo a partir do cinema), em GLIMPSES (como vou carinhosamente intitular o filme daqui em diante), finalizado 30 anos depois, Mekas p\u00f4de consolidar essa forma de ser, como um filme de maturidade. Digo isso porque vejo Glimpses, de uma certa forma, como uma continua\u00e7\u00e3o de Walden, n\u00e3o s\u00f3 por seguir e aprofundar a id\u00e9ia do filme-di\u00e1rio e das rela\u00e7\u00f5es entre o cinema e a vida, mas pelo pr\u00f3prio fato de que o material compilado nesse filme abrange o per\u00edodo de 1970-2000, exatamente o per\u00edodo p\u00f3s-Walden. A ambi\u00e7\u00e3o do filme pode ser vista na dura\u00e7\u00e3o: enquanto Walden cobre um per\u00edodo de 5 anos (1964-69), Glimpses abrange trinta. Al\u00e9m disso, \u00e9 o mais longo filme de Mekas, com 4 horas e 48 minutos de dura\u00e7\u00e3o.<\/i><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><i>Glimpses j\u00e1 come\u00e7a com uma voz-over do pr\u00f3prio Mekas que exp\u00f5e sua metodologia de montagem. Que trechos selecionar? Como organizar esses trinta anos a partir da montagem? Da\u00ed que Mekas oferece uma linda resposta: diante de um arm\u00e1rio lotado de \u201crolinhos\u201d, Mekas desiste de organiz\u00e1-los em ordem cronol\u00f3gica, ou por \u201cassuntos agrupados\u201d, estabelecendo rela\u00e7\u00f5es, composi\u00e7\u00f5es, di\u00e1logos programados, como t\u00edpico exerc\u00edcio de montagem. Simplesmente o realizador vai pegando os rolinhos por acaso (\u201cby chance\u201d), e montando as imagens a partir dessa revis\u00e3o de cada rolinho, escolhidos por um crit\u00e9rio aleat\u00f3rio. A beleza disso \u00e9 que n\u00e3o se trata de um \u201cdispositivo\u201d ou coisa do tipo, mas simplesmente aponta para uma consci\u00eancia da impossibilidade de organizar esses registros de uma maneira sist\u00eamica, totalizante. \u00c9 como se Mekas tivesse cansado de encontrar \u201cum sentido\u201d na vida, mas simplesmente tenha se concentrado em observ\u00e1-la passar por ele (n\u00e3o passar diante dele, mas por dentro dele), e que ocasionalmente ele tenha se surpreendido (encantado) com breves momentos de beleza. \u00c9 nessa fugacidade da beleza, nessa transitoriedade que reside o encanto da vida, ou ainda, a import\u00e2ncia do cinema, nessa tentativa quase her\u00f3ica de tentar registrar o inef\u00e1vel, de tentar congelar um momento de beleza, mesmo sabendo que esse breve instante est\u00e1 prestes a se perder. Enquanto o observamos, vivemos.<\/i><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><i>Walden foi recebido \u00e0 \u00e9poca com um certo desd\u00e9m. Hoje, quarenta anos ap\u00f3s sua primeira exibi\u00e7\u00e3o, parece que come\u00e7amos a ter a dimens\u00e3o do que essa obra representa, em termos de uma reavalia\u00e7\u00e3o das teorias realistas de cinema, e especialmente do papel do document\u00e1rio. Num espa\u00e7o estranho (fr\u00e1gil, delicado, robusto) entre o document\u00e1rio, a fic\u00e7\u00e3o e o ensaio experimental, Walden foi mal compreendido em sua \u00e9poca, rotulado como \u201cfilme experimental\u201d, dada a participa\u00e7\u00e3o de Mekas no cen\u00e1rio alternativo dos filmes vanguardistas norte-americanos nos anos sessenta. Mas por outro lado foi o pr\u00f3prio Mekas que valorizou (defendeu) document\u00e1rios criativos como os dos Irm\u00e3os Mayles.<\/i><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><i>Walden e Glimpses s\u00e3o dois document\u00e1rios, e \u00e9 fundamental que possamos inserir o nome de Mekas nas tradicionais \u201chist\u00f3rias do document\u00e1rio\u201d. No entanto, a pr\u00f3pria id\u00e9ia de documentar, registrar, se complexifica. Mekas documenta mas n\u00e3o se interessa propriamente pelo fato, \u00e9 como se ele n\u00e3o se interessasse pelos fatos em si, pelas imagens em si, mas o que se desperta a partir deles. Ao mesmo tempo os fatos e as imagens s\u00e3o tudo o que se tem. Ainda, n\u00e3o se trata mais de documentar um acontecimento, ou de ficcionalizar uma narrativa, mas ambos se confundem. Viver \u00e9 narrar a pr\u00f3pria vida.\u00a0<\/i><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><i>Vendo os filmes de Mekas, filmes geniais como os de Zhang-Ke ou at\u00e9 mesmo os de Pedro Costa parecem brincadeiras infantis, experimentos ing\u00eanuos na forma como articulam a fic\u00e7\u00e3o e o document\u00e1rio, em como procuram inscrever o \u201creal\u201d no cinema, a partir de associa\u00e7\u00f5es ou rela\u00e7\u00f5es definidas, a partir de categorias pr\u00e9vias, ou ainda como um espa\u00e7o geogr\u00e1fico estar\u00e1 inscrito no filme de fic\u00e7\u00e3o. Nos filmes-di\u00e1rio de Mekas, nenhuma dessas categorias faz mais sentido. Sua proposta de cinema \u00e9 de outra natureza: as rela\u00e7\u00f5es entre a fic\u00e7\u00e3o e o document\u00e1rio (ou, melhor dizendo, entre a vida e o cinema) s\u00e3o muito mais org\u00e2nicas e intensas. \u00c9 como se enquanto os outros realizadores ainda est\u00e3o presos \u00e0 estrutura griffithiana ou \u00e0 imagem neo-realista (ainda que as revirando pelo avesso), Mekas fosse dialogar com Lumi\u00e9re.<\/i><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><i>Para terminar, GLIMPSES \u00e9 o melhor filme da nova d\u00e9cada porque apenas hoje (nesta nova d\u00e9cada) \u00e9 poss\u00edvel enxergar onde daria aquela trilha que o autor desbravou l\u00e1 no fim dos anos sessenta. Anos sessenta que por sua vez tamb\u00e9m \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cannus mirabilis\u201d dentro do s\u00e9culo passado. Walden \u00e9 uma ilha dentro do cinema dos anos sessenta, cujos caminhos s\u00f3 podem ser vistos hoje, nesta nova d\u00e9cada, em que reina uma extrema individualiza\u00e7\u00e3o dos modos de consumo e de produ\u00e7\u00e3o da imagem, em que proliferam no youtube mir\u00edades de auto-imagens, estimuladas pela facilidade do registro do digital. \u00c9 maravilhosa a forma como Mekas se insere e se op\u00f5e a tudo isso: a radicalidade com que Mekas abra\u00e7a esse projeto retomando o outro de trinta anos atr\u00e1s e como, ao mesmo tempo, essa radicalidade \u00e9 acompanhada com um tom id\u00edlico, levemente rom\u00e2ntico, doce, esperan\u00e7oso, vivo, din\u00e2mico, inovador, pouco pretensioso. Acima de tudo, os filmes de Mekas s\u00e3o um ato diante da vida, uma posi\u00e7\u00e3o diante do mundo. N\u00e3o seria exagero afirmar que nunca antes o cinema alcan\u00e7ou tamanho grau de refinamento e beleza, garantindo ao filme um lugar privilegiado na hist\u00f3ria do cinema (se isso ainda fizer sentido).&#8221;<\/i><\/span><\/div>\n<p><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma sexta feira, e mais uma &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, escrita em parceria com o blog de mesmo nome. 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