{"id":11926,"date":"2010-07-02T07:52:00","date_gmt":"2010-07-02T09:52:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/07\/cinecasulofilia-mostra-olhar-do-ceara-parte-i\/"},"modified":"2010-07-02T07:52:00","modified_gmt":"2010-07-02T09:52:00","slug":"cinecasulofilia-mostra-olhar-do-ceara-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/07\/cinecasulofilia-mostra-olhar-do-ceara-parte-i\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Mostra Olhar do Cear\u00e1 &#8211; Parte I&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TCz0fnXsPUI\/AAAAAAAACes\/hSGugI-6a5Q\/s1600\/Incelen%C2%8DadaPerseguida.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"262\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/Incelen%C2%8DadaPerseguida.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>De volta ap\u00f3s interregno, a nossa coluna sobre cinema, &#8220;Cinecasulofilia&#8221;. Em parceria c<a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">om o blog de mesmo nome<\/a>, hoje mostra que cinema n\u00e3o \u00e9 somente Hollywood ou o eixo Rio-S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Como sempre, coluna assinada pelo cineasta, professor e cr\u00edtico Marcelo Ikeda.<\/p>\n<p><i><b>Olhar do Cear\u00e1<\/b><\/i><\/p>\n<p>A Mostra Olhar do Cear\u00e1, realizada dentro do Cine Cear\u00e1, \u00e9 uma boa oportunidade para se conhecer a produ\u00e7\u00e3o audiovisual cearense, em suas diferentes facetas. Quando se fala de uma certa produ\u00e7\u00e3o cearense, que vem conquistando destaque no cen\u00e1rio nacional, fala-se na verdade de alguns filmes, que circulam nos principais festivais de cinema nacionais. No entanto, a realidade da produ\u00e7\u00e3o cearense \u00e9 mais ampla e mais diversa que esse filtro pode nos oferecer. O mesmo acontece na verdade com um conjunto de filmografias: s\u00f3 conhecemos o cinema argentino ou o cinema franc\u00eas pelo que vemos nos grandes festivais, que filtram o nosso olhar sobre esse cinema. Por isso, a grande chave dessa mostra \u00e9 a exibi\u00e7\u00e3o de todos os filmes inscritos, independentemente de sele\u00e7\u00e3o. \u00c9 esse car\u00e1ter democr\u00e1tico que deve ser preservado nessa mostra, a possibilidade de que o p\u00fablico cearense trave contato com o bojo da produ\u00e7\u00e3o local, sem filtros pr\u00e9vios, para que ele construa o seu pr\u00f3prio olhar. \u00c9 claro que esse crit\u00e9rio \u2013 livre, radical, aberto \u2013 chateia boa parte do p\u00fablico, que assiste um sem-n\u00famero de filmes sem express\u00e3o, document\u00e1rios did\u00e1ticos, institucionais, anacr\u00f4nicos, mas, independentemente disso (\u00e9 s\u00f3 pensar uma curadoria que organizar\u00e1 os filmes no interior de cada sess\u00e3o com Intelig\u00eancia), s\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel examinar a \u201cprodu\u00e7\u00e3o cearense\u201d. Numa mesma sess\u00e3o, trafegam filmes experimentais, narrativos, document\u00e1rios po\u00e9ticos e registros hist\u00f3ricos, realizadores estreantes e veteranos, filmes em 35mm com o apoio de editais e outros filmados num equipamento prec\u00e1rio, montados em casa num software free. V\u00e1rias das contradi\u00e7\u00f5es, v\u00e1rios dos discursos, v\u00e1rios dos projetos circulam entre as sess\u00f5es que tem presen\u00e7a marcante de um p\u00fablico, que mesmo num dia do jogo do Brasil na Copa enche o cinema do Drag\u00e3o do Mar, que resiste a tudo, at\u00e9 mesmo as t\u00e9tricas condi\u00e7\u00f5es de exibi\u00e7\u00e3o dos v\u00eddeos, que prejudicou principalmente o belo As Corujas, de Fred Benevides, um curta com um trabalho sutil de luminosidade que praticamente se tornou um borr\u00e3o preto na tela do cinema.<\/p>\n<p><b>Alumbramento<\/b><\/p>\n<p>Al\u00e9m da presen\u00e7a de tr\u00eas curtas na competi\u00e7\u00e3o principal \u2013 Supermem\u00f3rias, Cidade Desterro e A Amiga Americana \u2013, sem contar com o longa Estrada para Ythaca, o cinema do Alumbramento marcou presen\u00e7a no Olhar do Cear\u00e1 com outros tr\u00eas curtas: O Saco Azul e Flash Happy Society, ambos de Guto Parente, e As Corujas, de Fred Benevides. Esse feito comprova a amplitude do projeto do \u00fanico verdadeiro coletivo de cinema do pa\u00eds, dada a pot\u00eancia do conjunto desses trabalhos, que dialogam entre si, ainda que guardando as suas n\u00edtidas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Quando vemos em seguida os dois curtas de Guto Parente, n\u00e3o deixamos de nos espantar com essa diferen\u00e7a, que ressoa de diversas formas: de um modo de produ\u00e7\u00e3o (o cinema em 35mm fruto de um edital e o curta em digital feito sem grana) a uma forma de estar no mundo. Ainda assim, h\u00e1 uma forma sempre frontal de encarar o mundo, um cinema de observa\u00e7\u00e3o, um entrecruzamento de g\u00eaneros (um entre a fic\u00e7\u00e3o e o documental e outro entre o documental e o experimental), um olhar cr\u00edtico sobre a cidade de Fortaleza, sobre a aliena\u00e7\u00e3o das elites, ou ainda, a busca de um cinema sem palavras, feito apenas de imagem e som.<\/p>\n<p>O Saco Azul \u00e9 uma tentativa de dialogar com as contradi\u00e7\u00f5es do modo de vida urbano da cidade de Fortaleza que possui muitas semelhan\u00e7as com Quando o vento sopra, de Petrus Cariry. Guto comp\u00f5e um painel da rela\u00e7\u00e3o entre a classe m\u00e9dia alta e a grande massa que vive na linha de pobreza \u2013 caracter\u00edstica t\u00edpica da cidade, considerada uma das mais desiguais do planeta \u2013 atrav\u00e9s de um saco azul, que armazena o lixo dos ricos que ser\u00e1 aproveitado pelos pobres. O estranhamento desse curta \u00e9 seu car\u00e1ter austero: Guto n\u00e3o est\u00e1 interessado em compor propriamente um discurso cr\u00edtico em tom expl\u00edcito, muito menos de exaltar uma certa poesia da mis\u00e9ria, um elogio ao sentido de sobreviv\u00eancia dos catadores. Seu tom cr\u00edtico est\u00e1 impresso no filme no total distanciamento do filme em rela\u00e7\u00e3o a ambas as classes: as personagens s\u00e3o opacas para o espectador, que tem contato com elas apenas a partir de seu corpo, ou ainda, de seus deslocamentos. Com isso, nos passa um sentimento de esvaziamento do plano, que n\u00e3o raramente nos desconcerta, ainda que o projeto n\u00e3o se realize por completo. Mas se O Saco Azul n\u00e3o \u00e9 mera met\u00e1fora da desigualdade das rela\u00e7\u00f5es sociais, ou mero romantismo que aponta para uma solu\u00e7\u00e3o conciliadora, ele tampouco \u00e9 o cinema de Candeias: ao se manter t\u00e3o distante, Guto fecha seu discurso diante de si mesmo, quase como se fosse imposs\u00edvel apontar caminhos. Prova disso \u00e9 o desconcertante plano final, que apresenta no som, na imagem, no movimento, no cen\u00e1rio, o grande protagonista de seu filme: o lixo. O saco azul, quase como um Balthazar de Bresson, torna-se uma testemunha muda da desumaniza\u00e7\u00e3o tanto de pobres quanto ricos, que aproveitam o que lhes serve e simplesmente se desfazem dos restos, convivendo com sua inexor\u00e1vel solid\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 Flash Happy Society, do qual muito se falou por sua premiada carreira nos festivais nacionais e mesmo internacionais, nos desconcerta pela simplicidade do registro e pelo alcance de sua realiza\u00e7\u00e3o. Um filme que trafega entre a fic\u00e7\u00e3o, o documental e o experimental. Um curta que navega entre o cinema abstrato (um filme de Kubelka, baseado na repeti\u00e7\u00e3o e na interven\u00e7\u00e3o na superf\u00edcie f\u00edsica do filme) e o cinema pol\u00edtico (a aliena\u00e7\u00e3o da sociedade do espet\u00e1culo). Uma pol\u00edtica das imagens. Um bom uso do digital. Uma pessoa fotografando (filmando) pessoas que fotografam. Um bom uso do digital criticando um mau uso do digital; um bom uso da imagem criticando um mau uso da imagem. Primeiro cinema aliado ao cinema contempor\u00e2neo: cinema da luz e das sombras, filme expressionista. Um filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (2001?). Mas aqui talvez Guto consiga o que n\u00e3o conseguiu em O Saco azul: construir imagens afetuosas a partir do que n\u00e3o lhe serve, do que lhe incomoda. Por tr\u00e1s da banaliza\u00e7\u00e3o do uso da imagem, existe uma certa poesia, como ao final se constr\u00f3i um universo de estrelas cadentes, ou um novo Big Bang. Talvez. O tom exato entre ironia, cr\u00edtica e desejo torna Flash Happy Society um curta not\u00e1vel, rico, cuja percep\u00e7\u00e3o se amplia a cada nova exibi\u00e7\u00e3o.<br \/><i><br \/><\/i><b>Dois curtas de Rodrigo Fernandez<\/b><\/p>\n<p>Dois curtas de Rodrigo Fernandez tamb\u00e9m se destacaram na sess\u00e3o: Al\u00edpio e Noir Sur Blanc. Em Al\u00edpio, um dos curtas premiados no edital \u201cse essa rua fosse minha\u201d, Rodrigo comp\u00f5e um olhar particular sobre a rua Ant\u00f4nio Sales, uma das mais movimentadas da cidade. Filmando \u00e0 noite, Rodrigo extrai um sentido de poesia, percorrendo, em tons avermelhados, seus espa\u00e7os vazios, seu sil\u00eancio, o colorido dos sinais. Esvaziamento que se revela um olhar po\u00e9tico para esse espa\u00e7o f\u00edsico. De um olhar documental, o filme se desloca para uma vertente que o aproxima de um certo abstracionismo. Por fim, \u00e9 curioso como a voz se conjuga ao filme, uma esp\u00e9cie de narra\u00e7\u00e3o antiga que o torna um filme falsamente acad\u00eamico. S\u00f3 ao final percebemos que na verdade trata-se de versos do pr\u00f3prio Ant\u00f4nio Sales, tornando Al\u00edpio uma investiga\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio da mem\u00f3ria, ou ainda, como a obra de Ant\u00f4nio Sales (n\u00e3o) ressoa pelo espa\u00e7o f\u00edsico que agora leva o seu nome. As rela\u00e7\u00f5es entre as bandas de imagem e som fazem de Al\u00edpio um filme de deslocamentos, em que um sentido de abandono aponta para um olhar instigante sobre o centro urbano.<\/p>\n<p>O abstracionismo tamb\u00e9m \u00e9 a chave do interessante Noir Sur Blanc, trabalho radical, composto quase que exclusivamente, al\u00e9m dos cr\u00e9ditos, de telas negras e brancas. Aqui, mais uma vez, Rodrigo explora uma rela\u00e7\u00e3o d\u00fabia entre a imagem e som, de modo que o som nunca meramente ilustra a imagem mostrada, apontando para a independ\u00eancia das duas camadas para a composi\u00e7\u00e3o do sentido f\u00edlmico. Em boa parte do filme, h\u00e1 simplesmente uma tela negra, que remonta aos quadros do abstracionismo russo, em especial ao suprematismo de Malevich. O som, no entanto, \u00e9 de um rap negro norte-americano, que aponta para um discurso pol\u00edtico, sobre uma cr\u00edtica ao modo de ver mostrado pela televis\u00e3o. Desse modo, Rodrigo reflete sobre os princ\u00edpios do abstracionismo como uma arte pol\u00edtica, aliado a uma met\u00e1fora da vis\u00e3o. Ainda que o curta tenha solu\u00e7\u00f5es equivocadas (as legendas na m\u00fasica que quebram o tom negro da tela em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 aus\u00eancia de legendas nos cr\u00e9ditos em franc\u00eas, o que pode ser lido como uma certa arrog\u00e2ncia do autor), Noir Sur Blanc comprova que, de todos os trabalhos inscritos no Olhar do Cear\u00e1, os de Rodrigo Fernandez s\u00e3o certamente os que mais se debru\u00e7am sobre a natureza da linguagem cinematogr\u00e1fica de forma coerente, tornando-o uma promessa que merece ser melhor acompanhada.<\/p>\n<p>(continua&#8230;)<\/p>\n<p><span><i>(Foto: Curtametragem participante da Mostra: \u201cIncelen\u00e7a da Perseguida\u201d)<\/i><\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De volta ap\u00f3s interregno, a nossa coluna sobre cinema, &#8220;Cinecasulofilia&#8221;. 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