{"id":11902,"date":"2010-07-18T09:27:00","date_gmt":"2010-07-18T11:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/07\/acabo-de-voltar-do-ira\/"},"modified":"2010-07-18T09:27:00","modified_gmt":"2010-07-18T11:27:00","slug":"acabo-de-voltar-do-ira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/07\/acabo-de-voltar-do-ira\/","title":{"rendered":"Acabo de voltar do Ir\u00e3"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TD99TtHbr6I\/AAAAAAAACi8\/wQFcXCIk3tg\/s1600\/reza2.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"267\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/reza2.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Domingo, dia de repercutir bons textos no Ouro de Tolo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Trago hoje texto de jornalista americano que esteve no Ir\u00e3 recentemente e que tra\u00e7a um painel muito interessante da pol\u00edtica, do povo e das rela\u00e7\u00f5es dos iranianos com os estrangeiros. O texto foi publicado originalmente no &#8220;Huffington Post&#8221; e traduzido pelo blog <a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/voce-escreve\/huffington-post-nem-a-oposicao-quer-os-estados-unidos-no-ira.html\">&#8220;Viomundo&#8221;<\/a>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Boa leitura.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><b>\u201cAcabo de voltar do Ir\u00e3.\u201d<\/b><\/i><\/p>\n<p><span><i>12\/7\/2010 Stephen Kinzer, Huffington Post<\/i><\/span><\/p>\n<p>Nos EUA, hoje, h\u00e1 um tema que faz calar todas as conversas perif\u00e9ricas. Os que estejam em posi\u00e7\u00e3o de servir-se dessa vara de cond\u00e3o, convertem-se em objeto de fascina\u00e7\u00e3o geral, embora tempor\u00e1ria, como deve ter acontecido com nossos av\u00f3s, caso tivessem visitado a China ou a URSS dos anos 50s. Viajar ao Ir\u00e3 converte qualquer um em aventureiro amalucado ou em forasteiro em perigo, em territ\u00f3rio inimigo.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 mais prosaica. Embora poucos norte-americanos visitem o Ir\u00e3, n\u00e3o h\u00e1, de fato, nada que os impe\u00e7a. No meu caso, acompanhei um grupo de turistas norte-americanos em giro de duas semanas e poucos quil\u00f4metros pelo pa\u00eds. N\u00e3o nos reunimos nem com o governo nem com os l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o, e andamos livremente, conversando com quem nos desse na telha conversar, com iranianos comuns, e o fizemos em todas as lojas onde entramos. Dado que o governo imp\u00f4s restri\u00e7\u00f5es a visitas de jornalistas ocidentais, que mal conseguem trabalhar no Ir\u00e3, andar como turista pela cidade pode ser o melhor meio de descobrir o que pensam e sentem as pessoas.<\/p>\n<p>O que mais chama a aten\u00e7\u00e3o de norte-americanos que visitem o Ir\u00e3, \u00e9 ver o quanto as pessoas s\u00e3o pr\u00f3-EUA. Em nenhum outro lugar do Oriente M\u00e9dio, em outros pontos do mundo mu\u00e7ulmano, e praticamente em lugar algum do planeta encontra-se gente que tanto e t\u00e3o abertamente admira os EUA. Pesquisas de opini\u00e3o confirmam o fen\u00f4meno, e n\u00e3o foi novidade para mim, que j\u00e1 vira exatamente o mesmo em outras visitas. Mas perturba sempre, se se pensa que ali se est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do eixo do mal, cercados, como eu estava, em plena pra\u00e7a Imam, em Isfahan, por garotas de gin\u00e1sio, aos gritinhos de \u201cAmamos os EUA!\u201d Num jardim persa em Kashan, encontrei um solene anci\u00e3o, que, de ingl\u00eas, s\u00f3 sabia dizer \u201cAmerica very good\u201d, frase que pronunciava com grave rever\u00eancia.<\/p>\n<p>O sentimento pr\u00f3-EUA no Ir\u00e3 explica-se, sobretudo, pela admira\u00e7\u00e3o que os iranianos sentem pelos feitos dos EUA. Os EUA t\u00eam tudo a que muitos iranianos aspiram: democracia, liberdade pessoal e Estado de Direito. Os iranianos aspiram profunda e sinceramente por essas b\u00ean\u00e7\u00e3os, aspira\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 nem abstrata nem transit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Essa aspira\u00e7\u00e3o \u00e9 produto de um s\u00e9culo de luta para construir uma democracia liberal. Desde a Revolu\u00e7\u00e3o Constitucional de 1906, gera\u00e7\u00f5es de iranianos assimilaram ideais democr\u00e1ticos. Hoje, a sociedade iraniana \u00e9 o oposto do regime iraniano: \u00e9 sociedade aberta, tolerante, ansiosa por engajar-se no mundo contempor\u00e2neo. H\u00e1 muito mais potencial de longo prazo para a democracia no Ir\u00e3 do que em qualquer outro ponto do Oriente M\u00e9dio mu\u00e7ulmano.<\/p>\n<p>O sentimento pr\u00f3-EUA no Ir\u00e3 \u00e9 ativo estrat\u00e9gico valios\u00edssimo para os EUA. Um ataque militar dos EUA contra o Ir\u00e3 liquidaria ou, pelo menos, feriria gravemente esse importante ativo estrat\u00e9gico. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que, se os EUA atacarem militarmente o Ir\u00e3, ter\u00e3o conseguido converter o mais pr\u00f3-americano dos povos do Oriente M\u00e9dio em mais um povo de antinorte-americanistas, o que enfraquecer\u00e1 ainda mais a posi\u00e7\u00e3o dos EUA, na regi\u00e3o mais vol\u00e1til do mundo.<\/p>\n<p>A segunda coisa que aprendi, por ver, no Ir\u00e3, \u00e9 que a explos\u00e3o de protestos antigoverno do ano passado acabou-se, pelo menos por hora. O governo insiste em reprimir com viol\u00eancia alguns fracos protestos, apenas porque repress\u00e3o violenta funciona. E funcionou no Ir\u00e3. H\u00e1 muitos iranianos insatisfeitos \u2013 n\u00e3o sei estimar quantos \u2013, mas ningu\u00e9m com quem falei previu novos levantes ou agita\u00e7\u00f5es de rua. A vida transcorre razoavelmente boa para muitos iranianos, e uma elei\u00e7\u00e3o talvez roubada (e nem se sabe se foi roubada) n\u00e3o \u00e9 suficiente para tir\u00e1-los de casa e faz\u00ea-los enfrentar espancamentos e pris\u00f5es.<\/p>\n<p>Isso implica que, se a algu\u00e9m interessa manter negocia\u00e7\u00f5es com o Ir\u00e3 em futuro pr\u00f3ximo e nos pr\u00f3ximos anos \u2013 o tempo necess\u00e1rio para que o programa nuclear iraniano amadure\u00e7a \u2013, ter\u00e1 de negociar com o atual regime. Adiar o in\u00edcio de negocia\u00e7\u00f5es amplas com o Ir\u00e3, na esperan\u00e7a de que o governo de Ahmadinejad caia\u2026 parece-me esperan\u00e7a totalmente delirante, irrealista.<\/p>\n<p>Finalmente, me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u2013 embora n\u00e3o me tenha surpreendido \u2013 a unanimidade dos iranianos, inclusive muitos dos que participaram dos protestos no ano passado, em torno de dois pontos: o apoio a uma agenda de reformas e a firme rejei\u00e7\u00e3o de qualquer ajuda externa de qualquer outra pot\u00eancia, EUA ou outra.<\/p>\n<p>\u201cMuitos n\u00e3o gostam de Ahmadinejad, mas muito menos queremos os EUA, aqui, mandando em n\u00f3s\u201d \u2013 disse-me o dono de uma loja no bazaar de Shiraz. \u201cPreferem viver sob um governo do qual n\u00e3o gostam, do que sob qualquer governo imposto ao Ir\u00e3 por estrangeiros.\u201d<\/p>\n<p>Esses sentimentos s\u00e3o fortes e est\u00e3o por toda a parte, no Ir\u00e3. O motivo \u00e9 hist\u00f3rico, da hist\u00f3ria moderna do pa\u00eds. Durante quase todos os s\u00e9culos 19 e 20, o Ir\u00e3 foi devastado por pot\u00eancias estrangeiras que subjugaram o povo e saquearam seus recursos. Cada vez que o Ir\u00e3 come\u00e7ou a tentar modernizar-se \u2013 por exemplo, construindo uma usina de a\u00e7o nos anos 1930s, ou nacionalizando seu petr\u00f3leo, nos anos 1950s \u2013 algu\u00e9m veio de fora e interrompeu qualquer moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os iranianos tornaram-se super sens\u00edveis \u00e0 interven\u00e7\u00e3o estrangeira. S\u00e3o mais sens\u00edveis que qualquer outro povo no mundo. Por isso, rejeitam quaisquer for\u00e7as pol\u00edticas que suspeitem ser patrocinadas, apoiadas ou estimuladas por pot\u00eancias estrangeiras.<\/p>\n<p>Muitos norte-americanos apreciariam ver o Congresso e o presidente Obama abra\u00e7arem publica e vigorosamente o movimento democr\u00e1tico iraniano. Pois nem os l\u00edderes dos pr\u00f3prios movimentos democr\u00e1ticos iranianos querem v\u00ea-los por l\u00e1, ainda que para apoi\u00e1-los.Em vez de ajudar a democracia iraniana, qualquer sinal de apoio que venha de Washington s\u00f3 servir\u00e1 para estigmatizar o apoiado e deslegitimar sua causa. Os norte-americanos tendem a supor que seu apoio a amigos que se digam democr\u00e1ticos sempre ajuda. N\u00e3o. No Ir\u00e3, s\u00f3 atrapalhar\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cBush foi um desastre\u201d, disse um professor de matem\u00e1tica que encontrei sentado ao p\u00e9 de uma figueira na cidade de Rayen. \u201cObama \u00e9 um pouco melhor. Mas os iranianos acreditam firmemente que, quando EUA ou Inglaterra viram os olhos para o Ir\u00e3 ou para pa\u00edses \u00e1rabes, sempre querem roubar alguma coisa. Todos eles.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns tra\u00e7os da realidade iraniana, bem claros: t\u00e3o cedo n\u00e3o haver\u00e1 mudan\u00e7a de regime, e n\u00e3o h\u00e1 o que o ocidente possa tentar para acelerar qualquer mudan\u00e7a. Isso n\u00e3o implica que os iranianos n\u00e3o sejam democr\u00e1ticos: s\u00e3o mais democr\u00e1ticos e mais democratiz\u00e1veis, eles mesmos, que qualquer outra sociedade no mundo mu\u00e7ulmano. 70% dos iranianos t\u00eam hoje menos de 30 anos. As mudan\u00e7as vir\u00e3o. Mas vir\u00e3o ao ritmo do Ir\u00e3, n\u00e3o ao ritmo dos EUA.<\/p>\n<p>Enquanto isso, as centr\u00edfugas continuaram girando nas usinas nucleares iranianas, \u00e9 claro. A crise exige diplomacia criativa. E Washington parece congelada no paradigma da confronta\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Domingo, dia de repercutir bons textos no Ouro de Tolo. 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