{"id":11853,"date":"2010-08-20T09:42:00","date_gmt":"2010-08-20T11:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/cinecasulofia-revendo-classicos-fellini-e-bergman\/"},"modified":"2010-08-20T09:42:00","modified_gmt":"2010-08-20T11:42:00","slug":"cinecasulofia-revendo-classicos-fellini-e-bergman","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/08\/cinecasulofia-revendo-classicos-fellini-e-bergman\/","title":{"rendered":"Cinecasulofia &#8211; &quot;Revendo cl\u00e1ssicos: Fellini e Bergman&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TGll-leyLdI\/AAAAAAAACsc\/XPQI5a28cp0\/s1600\/fellini.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/fellini.jpg\" width=\"221\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Mais uma sexta feira e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, publicada em pareceria com o <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">blog de mesmo nome<\/a>. Como de h\u00e1bito, texto de autoria do cineasta, cr\u00edtico e professor de cinema Marcelo Ikeda. <\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00eas devem ter observado que ando com uma certa pregui\u00e7a para escrever sobre filmes aqui neste blog. \u00c9 verdade que tenho visto menos filmes, mas h\u00e1 algumas semanas em que uma \u00fanica semana vi dez filmes, e n\u00e3o consegui escrever sobre um sequer. Mas aos poucos vamos tentando restabelecer a rotina e o rumo das coisas, j\u00e1 que este blog \u00e9 acima de tudo um companheiro. Aproveitei para rever um conjunto de filmes \u201ccl\u00e1ssicos\u201d que n\u00e3o os via h\u00e1 um bocado de tempo. Agora, como \u201cprofessor\u201d, estou tentando rever esses filmes para que eu possa dialogar com um certo sentimento de cinefilia que despertava em mim quando tinha meus dezoito anos, quando vi esses filmes pela primeira vez. Revi, nesse esp\u00edrito, filmes como A Doce Vida e Oito e Meio, ou ainda, Persona e Gritos e Sussurros.<\/p>\n<p>Dos quatro, o que mais me encantou foi sem sombra de d\u00favidas A Doce Vida. Acho esse filme um dos grandes filmes da hist\u00f3ria do cinema. H\u00e1 v\u00e1rias coisas que me fascinam nesse filme. A primeira delas \u00e9 a paix\u00e3o de Fellini pelo ato de encenar, de filmar. \u00c9 um filme sempre cheio de pessoas, cheio de movimento, cheio de tes\u00e3o pelas circunst\u00e2ncias pr\u00e1ticas de filmagem, de decupar, de encenar, de dirigir atores, de pensar a arte, a montagem, etc. \u00c9 um filme de produ\u00e7\u00e3o nada trivial, cheio de sequ\u00eancias de festas exuberantes que Fellini resolve com grande maestria no que tange \u00e0 encena\u00e7\u00e3o. Nesse filme de quase tr\u00eas horas de dura\u00e7\u00e3o, claramente h\u00e1 v\u00e1rias cenas que poderiam ser cortadas, mas parece que Fellini n\u00e3o queria nunca parar de filmar, tamanha \u00e9 sua paix\u00e3o com a possibilidade de encen\u00e1-las.<\/p>\n<p>Acho A Doce Vida o filme mais maduro sobre \u201cas dores e as del\u00edcias\u201d de uma gera\u00e7\u00e3o, e o fato de ter sido feito em 1960 mostra que Fellini \u00e9 um vision\u00e1rio. A Doce Vida mostra a It\u00e1lia recomposta do p\u00f3s-guerra, num outro rumo cinematogr\u00e1fico em rela\u00e7\u00e3o ao neo-realismo italiano mas ao mesmo tempo um certo desconforto com o rumo das coisas. O incr\u00edvel do filme \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o com que Fellini coloca o seu personagem, belamente composto por Marcello Mastroianni, uma posi\u00e7\u00e3o de proximidade e distanciamento do rumo das coisas. Por um lado, Fellini v\u00ea com uma beleza as transforma\u00e7\u00f5es sociais, culturais e sexuais de uma \u00e9poca, a agita\u00e7\u00e3o e o movimento das festas e dos encontros noturnos, uma divers\u00e3o descompromissada, uma liberdade. Por outro lado, \u00e9 claro como Fellini ao mesmo tempo demonstra uma consci\u00eancia da futilidade, da superficialidade, da decad\u00eancia dos novos-ricos e da classe m\u00e9dia alta italiana, como esse mundo guarda em si in\u00fameras contradi\u00e7\u00f5es. Para isso, Fellini escolheu observar de perto esse mundo atrav\u00e9s de um jornalista que circula por esse mundo de apar\u00eancias e futilidades.<\/p>\n<p>O personagem de Mastroianni n\u00e3o sabe bem o que quer, e nessa d\u00favida prefere viver o instante, o momento. Perde-se entre a bebida, as mulheres, o emprego, v\u00ea o tempo passar, e procura pelo menos se divertir com isso. O filme no entanto n\u00e3o tem um clima de den\u00fancia cr\u00edtica, ou um tom austero como os filmes de Visconti e Antonioni. H\u00e1 um certo humor, h\u00e1 um charme e uma beleza nesse mundo de trivialidades. Isso faz com que o filme seja calorosamente humano, porque Fellini abra\u00e7a as contradi\u00e7\u00f5es, as dificuldades e as car\u00eancias dos seus personagens. N\u00e3o h\u00e1 vil\u00f5es ou her\u00f3is. As pessoas t\u00eam d\u00favidas. As pessoas querem no fundo se esconder de si mesmas, n\u00e3o querem encarar de frente suas limita\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o preferem o mundo superficial das festas e da divers\u00e3o do hoje.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma enorme beleza em v\u00e1rios pequenos instantes de A Doce Vida. Acontece que esses momentos de beleza s\u00e3o sempre fugazes. O extraordin\u00e1rio t\u00edtulo e a extraordin\u00e1ria sequ\u00eancia final (bela, fugaz) mostram que Fellini talvez tenha sido o cineasta que mais entendeu os desafios (e os fracassos) da sua gera\u00e7\u00e3o, sabendo ver com generosidade e humanidade suas dificuldades. Ao mesmo tempo, o filme tem uma narrativa fragmentada, epis\u00f3dica, em que os eventos se sucedem de forma livre, compondo um painel ou um mosaico ricos, de forma que \u00e9 poss\u00edvel pensar que esse filme representa para os anos sessenta em termos de narrativa o que Amantes Constantes \u00e9 para o cinema contempor\u00e2neo, no sentido de observar os dilemas de uma gera\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de um tempo que observa respeitosamente as dificuldades das pessoas e respira esse conviver atrav\u00e9s de uma narrativa mais relaxada e fragmentada. A diferen\u00e7a \u00e9 que Fellini falava sobre o \u201choje\u201d enquanto Garrel fala de um evento mais de trinta anos depois (ou seja, n\u00e3o \u00e9 prof\u00e9tico).<\/p>\n<p>Oito e Meio \u00e9 um filme de enorme coer\u00eancia dentro do cinema do Fellini, ratificando o autor como um dos mais importantes diretores europeus dos anos sessenta. A solid\u00e3o, a futilidade de um mundo de apar\u00eancias, o clima epis\u00f3dico, o tom de humor que tenta fazer mais palat\u00e1vel o indiscut\u00edvel clima de melancolia, o personagem que \u201ctem d\u00favidas e n\u00e3o sabe como agir\u201d, o imenso tes\u00e3o do diretor em encenar festas e eventos com diversas pessoas, tudo isso prossegue um projeto est\u00e9tico em continuidade com A Doce Vida. O que Oito e Meio se diferencia \u00e9 um clima on\u00edrico, um fator pessoal (a mem\u00f3ria), que complexifica ainda mais a narrativa fragmentada, um certo clima surrealista e fant\u00e1stico, e, claro, a refer\u00eancia ao cinema, a dificuldade de fazer filmes pessoais respondendo a um certo modelo de produ\u00e7\u00e3o. Oito e Meio precisa ser visto com O Desprezo, porque ambos tratam da mesma quest\u00e3o e feitos na mesma \u00e9poca: a dificuldade de um diretor fazer um filme dada uma certa estrutura de produ\u00e7\u00e3o que o oprime.<\/p>\n<p>Eu prefiro o filme do Godard, porque O Desprezo marca uma posi\u00e7\u00e3o, uma posi\u00e7\u00e3o do autor, atrav\u00e9s de uma posi\u00e7\u00e3o de mise-en-scene, uma \u00e9tica do mundo. A posi\u00e7\u00e3o de Godard \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o moral: o fracasso do personagem no mundo do cinema reflete seu fracasso diante do mundo, seu fracasso diante da possibilidade de amar. Fellini tem mais \u201cjogo de cintura\u201d, \u00e9 mais \u201crelaxado\u201d que Godard: ele \u201cvai levando\u201d, amaciando os confrontos e conflitos. O personagem de Fellini vai sobrevivendo, driblando a si mesmo, de mentira em mentira, por tr\u00e1s de seus \u00f3culos escuros. Os personagens de Fellini n\u00e3o s\u00e3o pessoas ador\u00e1veis; eles acima de tudo tentam sobreviver, e isso \u00e9 n\u00e3o \u00e9 nada trivial, embora pare\u00e7a. Para tanto, \u00e9 preciso humor, \u00e9 preciso \u201cn\u00e3o levar t\u00e3o a s\u00e9rio as coisas para que voc\u00ea n\u00e3o enlouque\u00e7a\u201d. Eles tentam esquecer que sofrem, tentam n\u00e3o se perceber disso. H\u00e1 uma enorme dor por tr\u00e1s disso mas ao mesmo tempo h\u00e1 uma certa beleza do mundo. O tom com que Fellini consegue exprimir isso \u00e9 muitas vezes fascinante.<\/p>\n<p>J\u00e1 Bergman \u00e9 muito mais fechado para o que o mundo pode nos oferecer e \u00e9 curioso ver como esse projeto de cinema hoje me interessa pouco, e que me interessava muito h\u00e1 quinze anos atr\u00e1s. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, Glauber e seus asseclas do cinema novo tinham muita raz\u00e3o quando diziam que o cinema de Bergman era um \u201ccinema velho\u201d, que representava um passo atr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o ao que o cinema moderno representava. Hoje eu consigo entender isso muito bem. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o sejam \u00f3timos filmes. Mas s\u00e3o filmes bem \u201cmais velhos\u201d que os do Fellini, por exemplo. Por que? Porque s\u00e3o filmes fechados para o mundo, s\u00e3o \u201ccomprova\u00e7\u00f5es de tese\u201d, enquanto o cinema contempor\u00e2neo \u00e9 exatamente composto de filmes que se abrem de forma tamanha para o mundo que s\u00e3o filmes-vida, s\u00e3o document\u00e1rios.<\/p>\n<p>Vou tentar explicar melhor. Persona e Gritos e Sussurros s\u00e3o filmes sobre o encapsulamento. S\u00e3o filmes sobre pessoas que se fecham da vida em locais de retiro, e o contato com as pessoas sempre gera dor e desentendimento. As pessoas n\u00e3o conseguem dizer uma palavra \u00e0 outra. At\u00e9 a\u00ed tudo bem. Acontece que o pr\u00f3prio Bergman tamb\u00e9m encapsula o seu cinema de algumas possibilidades, ele se fecha diante do seu pr\u00f3prio processo, que ele domina e conhece \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. Mas se torna um artif\u00edcio for\u00e7ado e pesado, com enorme esfor\u00e7o para se sustentar. Falta leveza e gra\u00e7a. Hoje, penso que o melhor filme de Bergman seja Morangos Silvestres, quando ele procura fugir de um cinema mais \u201ccomplexo\u201d e dif\u00edcil.<\/p>\n<p>O que me interessa no cinema do Bergman s\u00e3o quest\u00f5es de encena\u00e7\u00e3o, que ele resolve bem. A estranh\u00edssima introdu\u00e7\u00e3o de Persona e a bela introdu\u00e7\u00e3o de Gritos e Sussurros com os planos do jardim, at\u00e9 chegar ao interior da casa com um dire\u00e7\u00e3o de arte falsa, que d\u00e1 um clima de claustrofobia e decad\u00eancia muito caro ao filme. A famosa sobreposi\u00e7\u00e3o da imagem das duas mulheres, a \u201centrevista\u201d filmada duas vezes em Persona. A bel\u00edssima cena em Persona em que a enfremeira conta \u00e0 mulher o acontecimento na praia (ela simplesmente fala, e s\u00f3). A enorme cena em Gritos e Sussurros em que a mulher sangra sua vagina para n\u00e3o transar com o marido, e diz \u201ctudo \u00e9 um bando de mentiras\u201d. O lindo final de Gritos e Sussurros, a serenidade dessa imensa dor que \u00e9 viver. A estranha quebra em Persona quando tudo sai de foco. Etc. Embora o projeto de cinema do Bergman hoje me enfase um pouco, \u00e9 sempre inspirador ver seus filmes para pensar em quest\u00f5es de encena\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida, Bergman foi um grande diretor. Bergman deve ter sido um nobre aristocrata que se lamentava sobre o mundo em sua casa da ilha de Faro, entre dois goles de vinho. Viveu com dignidade, fez um grande n\u00famero de belos filmes, teve grande reconhecimento ainda em vida, mas no fundo n\u00e3o se arriscou muito.<\/p>\n<p>A beleza dos filmes do Bergman me incomoda, porque n\u00e3o raramente me soa falsa.<\/p>\n<p>Talvez um bom resumo dessa diferen\u00e7a entre Bergman e Fellini que eu estava apontando no post anterior \u00e9 que o Bergman \u00e9 magistral em abrir todas as portas que d\u00e3o para dentro. &#8216;Mas eu prefiro abrir as janelas pra que entrem todos os insetos'&#8221;<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TGlmywR3LBI\/AAAAAAAACsk\/fuGJR0zk9R8\/s1600\/gritos+e+sussurros.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/gritos+e+sussurros.jpg\" width=\"240\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma sexta feira e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, publicada em pareceria com o blog de mesmo nome. 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