{"id":11824,"date":"2010-09-10T04:18:00","date_gmt":"2010-09-10T06:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/09\/cinecasulofilia-gerry\/"},"modified":"2010-09-10T04:18:00","modified_gmt":"2010-09-10T06:18:00","slug":"cinecasulofilia-gerry","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/09\/cinecasulofilia-gerry\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Gerry&quot;"},"content":{"rendered":"<div>Mais uma sexta feira e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, publicada em parceria com o <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">blog de mesmo nome<\/a>. Uma vez mais, texto do cr\u00edtico teatral e cineasta Marcelo Ikeda.<\/div>\n<div><\/div>\n<p><b><i>Gerry<\/i><\/b><\/p>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;Gerry, de Gus Van Sant, \u00e9 um belo filme, que tive a oportunidade de rev\u00ea-lo no curso de Linguagem e Cr\u00edtica, que tenho o privil\u00e9gio de dividir com a Beatriz Furtado, nas quartas de manh\u00e3 no cinema da Casa Amarela. Depois de alguns filmes duvidosos, como um remake de Psicose, G\u00eanio Indom\u00e1vel e Encontrando Forrester, Gus Van Sant resolveu dar uma guinada radical na sua carreira como cineasta. Deixou os blockbusters de Hollywood para embarcar num projeto autoral bastante radical, bancado por ele pr\u00f3prio e por mais dois \u201camigos\u201d (Casey Affleck e Matt Damon, que tamb\u00e9m aceitaram rever seus papeis de \u201cbelos rostos\u201d e embarcar nessa aventura). Lembramos a frase de Nicholas Ray que se um cineasta em Hollywood fizer um filme com um or\u00e7amento menor que o anterior, ele est\u00e1 arruinado. Gus Van Sant fez isso. Logo, seu filme \u00e9 um caminho sem volta. Gerry come\u00e7a com um longo plano de um carro numa estrada, e uma m\u00fasica \u2013 de ningu\u00e9m menos que Arvo Part \u2013 como se fosse um canto l\u00fagubre. Vemos um plano ponto de vista de uma estrada. Ali est\u00e3o os tr\u00eas art\u00edfices desse filme, num olhar integrado: os personagens, o autor (o pr\u00f3prio van sant) e o espectador. Caminho esse que \u00e9 dessa forma o pr\u00f3prio caminho de Van Sant em sua cinematografia, no interior de um cinema americano.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao (re)ver Gerry, n\u00e3o pude deixar de pensar nos descaminhos da pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o norte-americana, o da conquista do Oeste. O pr\u00f3prio cinema participou da constru\u00e7\u00e3o de um ide\u00e1rio sobre esse caminho, atrav\u00e9s do western, o \u201ccinema americano por execel\u00eancia\u201d. Lembramos os filmes do John Ford; lembramos um filme como Rio Vermelho, de Howard Hawks, em que um grupo tenta conduzir um rebanho de gado pelo interior americano, passando por uma travessia \u2013 \u00e9pica e \u00e9tica \u2013 f\u00edsica e espiritual. Essa conquista do espa\u00e7o f\u00edsico da civiliza\u00e7\u00e3o americana sempre foi baseada na domestica\u00e7\u00e3o de uma natureza selvagem, subjugada pelo Homem determinado. Lembramos um filme como N\u00e1ufrago, em que Tom Hanks sozinho vence a for\u00e7a da natureza, assim como o fizera o heroico Robinson Cruzo\u00e9.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em Gerry, essa apologia da vit\u00f3ria do Homem sobre a Natureza, \u00e1pice do processo civilizat\u00f3rio, \u00e9 virada pelo acesso por Gus Van Sant, o que nos leva a pensar que o filme basicamente coloca a quest\u00e3o: quais foram os legados da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d para os jovens americanos de hoje? Em Gerry, dois jovens amigos se perdem num deserto. Um passeio tur\u00edstico acaba assumindo propor\u00e7\u00f5es cada vez mais desesperadoras para esses dois amigos indefesos, diante do vigor da natureza. V\u00eaem-se pequenos diante da imensid\u00e3o do mundo, e precisam assumir seus limites e sua incapacidade de lidar com as tarefas b\u00e1sicas da sobreviv\u00eancia: a busca por comida e \u00e1gua. S\u00e3o meros patetas indefesos, sem a redoma de defesa dos processos civilizat\u00f3rios. Come\u00e7am a perder-se cada vez mais. Quanto mais se perdem, mais adquirem a consci\u00eancia de sua pequenez e da fragilidade de sua condi\u00e7\u00e3o humana. \u00c9 impressionante uma cena em que um dos personagens tenta pular de uma pedra: um plano-sequ\u00eancia, sem cortes, desvela o absurdo praticamente c\u00f4mico dessa situa\u00e7\u00e3o. A beleza dessa sequ\u00eancia existe exatamente por ela acontecer sem corte e em plano geral, quando percebemos o abismo entre os dois amigos, ou ainda, entre eles e o mundo. O que s\u00f3 nos lembra a famosa frase de Bazin sobre o cinema de Chaplin, de como o efeito c\u00f4mico de Chaplin na jaula do le\u00e3o s\u00f3 faz sentido pelo fato de s\u00ea-lo num plano sem cortes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No entanto, para Gus Van Sant, os personagens n\u00e3o existem essencialmente como uma psicologia, mas principalmente por suas a\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, por seu deslocamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 geografia f\u00edsica local. Por isso, em todo o filme, os personagens simplesmente caminham, movimentam-se atrav\u00e9s de longos planos de caminhadas, at\u00e9 que o corpo se transforme, fatigado pelo andar sem fim. Ao final, arrastam-se como m\u00famias, quase como se fossem personagens do expressionismo alem\u00e3o, numa nuvem de in\u00e9rcia e pesar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c0 medida que os personagens v\u00e3o se perdendo, a pr\u00f3pria narrativa de Gus Van Sant vai se esgar\u00e7ando, os personagens v\u00e3o perdendo o foco de sua caminhada, at\u00e9 que o espa\u00e7o f\u00edsico assume o posto de protagonista do filme, e o filme desconstrua de vez seu fio de narrativa para transformar-se, cada vez mais, em planos que primam por despertar no espectador um sentido sensorial pl\u00e1stico, que o insiram num outro registro de sensibilidade em rela\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o e ao tempo, como se oferecessem uma esp\u00e9cie de n\u00e9voa de suspens\u00e3o, com um novo trabalho sobre as cores, sobre o foco, sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o primeiro plano e o fundo, borrando ou indefinindo as dist\u00e2ncias temporais ou espaciais entre os pr\u00f3prios planos. Esse recurso se intensifica a partir de dois planos extremamente significativos, em que a c\u00e2mera realiza um movimento de 360\u25e6 : o primeiro, em torno de um dos personagens,e o outro, perscrutando a pr\u00f3pria natureza f\u00edsica do local, que assume uma presen\u00e7a onipresente, quase assustadora. A partir de ent\u00e3o, Gerry vai progessivamente se aproximando de um del\u00edrio visual, rompendo de vez seu esbo\u00e7o de narratividade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ainda assim, em Gerry tudo \u00e9 planejado antecipadamente, com uma r\u00edgida decupagem. Ou seja, Gus Van Sant n\u00e3o arrisca se perder com os personagens, como por exemplo Miguel Gomes ir\u00e1 fazer em Aquele Querido M\u00eas de Agosto. H\u00e1 um certo formalismo que privilegia as composi\u00e7\u00f5es geom\u00e9tricas, os jogos de luz, a decupagem rigorosa. Um di\u00e1logo com um cinema de Bela Tarr (a quem van Sant inclusive agradece nos cr\u00e9ditos finais) e com os primeiros filmes de Phillipe Garrel, em especial A Cicatriz Interior. Tudo \u00e9 do dom\u00ednio da fic\u00e7\u00e3o: n\u00e3o h\u00e1 um olhar do document\u00e1rio, de improviso, de limite t\u00eanue entre cinema e vida: os personagens ir\u00e3o se perder e a narrativa ir\u00e1 se desconstruir exatamente da forma, quando e onde o diretor previamente j\u00e1 havia pr\u00e9-programado, sem surpresas. Ou ainda, o filme n\u00e3o se deixa perder durante seu pr\u00f3prio processo de confec\u00e7\u00e3o: nesse sentido ele se desenvolve num m\u00e9todo mais pr\u00f3ximo ao cinema cl\u00e1ssico. \u00c9 o passo que van Sant p\u00f4de realizar!<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em seguida, Gus Van Sant ir\u00e1 prosseguir em seu \u201ccaminho sem volta\u201d, realizando uma s\u00e9rie de trabalhos not\u00e1veis como reflex\u00f5es dos rumos de uma juventude norte-americana: Elefante, \u00daltimos Dias, Paranoid Park. Gerry, antecipando esses novos rumos, n\u00e3o deixa de ser um filme preocupado com uma juventude: n\u00e3o apenas por ser um filme com jovens, sobre jovens, mas essencialmente em se indagar sobre as possibilidades de mostrar a solid\u00e3o e o despreparo do jovem contempor\u00e2neo norte-americano por meio de uma linguagem muito peculiar, que valoriza os momentos, os fragmentos e as impress\u00f5es, ao inv\u00e9s dos percursos psicol\u00f3gicos ou dos filmes-painel. Gerry, acima de tudo, representa uma guinada radical, um caminho sem volta, que ao mesmo tempo \u00e9 simplesmente o come\u00e7o de um caminho, em dire\u00e7\u00e3o de uma nova filmografia, de um dos mais coerentes cineastas do cinema norte-americano do novo s\u00e9culo.&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma sexta feira e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, publicada em parceria com o blog de mesmo nome. 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