{"id":11814,"date":"2010-09-17T05:20:00","date_gmt":"2010-09-17T07:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/09\/cinecasulofilia-a-critica-o-critico-como-um-barco-a-deriva\/"},"modified":"2010-09-17T05:20:00","modified_gmt":"2010-09-17T07:20:00","slug":"cinecasulofilia-a-critica-o-critico-como-um-barco-a-deriva","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/09\/cinecasulofilia-a-critica-o-critico-como-um-barco-a-deriva\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia: &quot;A cr\u00edtica ( o cr\u00edtico) como um barco \u00e0 deriva&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TI5dkZ1h3lI\/AAAAAAAAC5A\/4NBAkIH2QXc\/s1600\/sala+de+cinema.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"261\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/sala+de+cinema.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mais uma sexta feira e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor de cinema Marcelo Ikeda &#8211; dono do <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">blog de mesmo nome<\/a> e em parceria com o qual esta coluna \u00e9 publicada. O texto de hoje \u00e9 sobre a pr\u00f3pria ess\u00eancia da cr\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8220;<i><b>A cr\u00edtica ( o cr\u00edtico) como um barco \u00e0 deriva<\/b><\/i><\/p>\n<p>Como escrever uma cr\u00edtica? Me incomoda o fato de que alguns cr\u00edticos, quando analisam obras cinematogr\u00e1ficas vanguardistas, o fa\u00e7am a partir de um texto acad\u00eamico, ran\u00e7oso. Isso por mim j\u00e1 \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o por si, ainda mais quando se investiga um cinema contempor\u00e2neo, um cinema gr\u00e1vido do hoje. Uma escrita acad\u00eamica para se defender um cinema do futuro, um cinema que desafia as possibilidades? Quero uma cr\u00edtica que v\u00e1 al\u00e9m do filme, e para ir al\u00e9m do filme, ela precisa naturalmente ir al\u00e9m das palavras. As pessoas \u2013 e nisso incluo os pr\u00f3prios estudos de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 ainda n\u00e3o conseguem perceber que para o texto ser rigoroso ele n\u00e3o precisa ser necessariamente acad\u00eamico. H\u00e1 uma defesa por uma \u201cmilitariza\u00e7\u00e3o da escrita\u201d, por um \u201cbom gosto\u201d da escrita, que na verdade \u00e9 o mesmo bom gosto academicista que recusou os quadros dos impressionistas e dos modernistas, por exemplo. \u00c9 t\u00e3o absurdo como se se dissesse que o cinema de Wiseman n\u00e3o \u00e9 rigoroso porque sua c\u00e2mera \u00e9 tr\u00f4pega. H\u00e1 pessoas que escrevem sobre o cinema de James Benning como se estivessem escrevendo sobre o s\u00e9timo filme de Elia Kazan (e nem mesmo o s\u00e9timo filme de Kazan merece que se escreva desse jeito). O rigor do texto parte do olhar de quem o escreve, e n\u00e3o pela \u201cmilitariza\u00e7\u00e3o da escrita\u201d. Como se pode defender um cinema antibelicista se se utiliza uma escrita militar? Como pensar o papel do cr\u00edtico? <\/p>\n<p>N\u00e3o me interessa o cr\u00edtico que vomite verdades para o leitor, me interessa a cr\u00edtica que \u201ctira o ch\u00e3o\u201d do espectador, que o faz repensar o que \u00e9 o filme, e n\u00e3o o que \u201co ensina o que ele deveria ter visto\u201d. N\u00e3o me interessa a cr\u00edtica que \u201coriente\u201d, \u201cinforme\u201d o leitor, mas sim aquela que o \u201cdesoriente\u201d, \u201cdesnorteie\u201d, aquela que fa\u00e7a o espectador n\u00e3o mais saber o que \u00e9 o filme que ele pensou ter visto. Uma cr\u00edtica que espalhe incertezas, d\u00favidas. E acredito que isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel de uma forma: a de que o leitor seja um c\u00famplice do escritor. A cr\u00edtica como um barco \u00e0 deriva, \u201ctotalmente\u201d ao l\u00e9u (\u201ctotalmente\u201d em termos). Escrever passa a ser lan\u00e7ar-se a uma aventura na folha de papel em branco, guiada pelos sentimentos que o filme trouxe mas como ponto de partida, e n\u00e3o como destino de chegada. N\u00e3o me interessa a cr\u00edtica como um porto seguro, e sim como um barco \u00e0 deriva. O cr\u00edtico escreve sobre o filme, que ele no fundo n\u00e3o sabe bem como \u00e9. Ele escreve para tentar decifrar. Ele ent\u00e3o divide com o leitor as suas d\u00favidas, as suas ang\u00fastias. Ele no fundo escreve sobre si. Ele no fundo escreve para si. Ele escreve para tentar entender, mas n\u00e3o consegue, fracassa. \u201cDecifra-me ou te devoro\u201d, e o cr\u00edtico \u00e9 sempre devorado pela esfinge f\u00edlmica. A boa cr\u00edtica \u00e9 aquela preenchida pelo fracasso, consumida pelo sentimento do cr\u00edtico de n\u00e3o conseguir dar conta do que \u00e9 o filme. Como isso \u00e9 poss\u00edvel? Atrav\u00e9s de uma escrita tr\u00f4pega, e n\u00e3o cartesiana, retil\u00ednea, apol\u00ednea, academicista, militar. Toda a cr\u00edtica \u00e9 subjetiva, n\u00e3o existe um car\u00e1ter cient\u00edfico, n\u00e3o existe m\u00e9todo. Ou melhor, o \u00fanico m\u00e9todo v\u00e1lido para a cr\u00edtica \u00e9 a sinceridade, a honestidade, a franqueza. Espero que esteja claro que o que proponho para a cr\u00edtica tem um sentido positivo, e n\u00e3o meramente niilista. Ou seja, o que venho falando evidentemente n\u00e3o significa que se pode escrever qualquer coisa, que se atire pelo papel em branco as palavras soltas, sem encadeamento. <\/p>\n<p>Evidentemente n\u00e3o \u00e9 isso o que quero defender. Mas sim a possibilidade da cr\u00edtica ser algo menos ran\u00e7oso, que ela n\u00e3o deixa de ser rigorosa s\u00f3 porque fugiu do \u201cvov\u00f4 viu a uva\u201d. O cr\u00edtico deve descer do seu pedestal de \u201cespecialista\u201d e se embrenhar na mata fechada que \u00e9 o universo do filme. Deve ver o filme sentado na mesma poltrona dos espectadores, e n\u00e3o no camarote, convidado pelos pr\u00edncipes palacianos. A cr\u00edtica n\u00e3o deve ser usada como palanque de interesses al\u00e9m do filme, isto \u00e9, discursos politiqueiros (vejam bem, \u201cpolitiqueiros\u201d, e n\u00e3o pol\u00edticos), brigas eleitoreiras, picuinhas acad\u00eamicas, conchavos interesseiros, floreios parnasianos, etc. A cr\u00edtica deve ser \u201cdesinteresseira\u201d, e n\u00e3o \u201cdesinteressada\u201d. <\/p>\n<p>Ou seja, a cr\u00edtica n\u00e3o pode ser instrumento de exerc\u00edcio de poder (como \u201cquem tem a raz\u00e3o?\u201d, \u201cquem tem o discurso dominante sobre tal filme?, ou sobre \u201cas tend\u00eancias do momento\u201d). Da mesma forma que quando digo que o cr\u00edtico no fundo fala de si \u2013 ou ainda, que escreve para si \u2013 com isso de modo algum quero dizer que se faz cr\u00edtica por autoan\u00e1lise, por mero exerc\u00edcio narcisista. Entender dessa forma \u00e9 t\u00e3o absurdo quanto algu\u00e9m dizer que os filmes-di\u00e1rios de Jonas Mekas s\u00e3o meros exerc\u00edcios exibicionistas, que n\u00e3o interessam a ningu\u00e9m a n\u00e3o ser o seu c\u00edrculo de amigos. Ao contr\u00e1rio, o cr\u00edtico escreve para ser lido, mas que essa leitura torne o leitor mais ativo, e n\u00e3o meramente passivo, ou meramente apre(e)ndendo os \u201censinamentos do cr\u00edtico-especialista\u201d. Essa sim \u00e9 que \u00e9 uma forma narcisista e ego\u00edsta de escrita. A que proponho, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma forma livre, cuja leitura seja um ponto de partida para o leitor, que, a partir dela, formule o seu pr\u00f3prio filme. A cr\u00edtica deve ser vista como um exerc\u00edcio imposs\u00edvel. Jornais, revistas, livros, sites, blogs, etc.: o meio de circula\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica \u00e9 cada vez mais variado mas, se atentarmos bem, sua forma continua rigidamente cristalina: de um lado, a cr\u00edtica como \u201centretenimento\u201d ou \u201cinforma\u00e7\u00e3o\u201d; de outro, a cr\u00edtica como \u201cci\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o\u201d (a cr\u00edtica acad\u00eamico-escolar, de car\u00e1ter apostolar e episcopal, formando \u201cseitas\u201d e \u201cs\u00faditos\u201d que devem se digladiar defendendo ou denegrindo o pr\u00f3ximo filme do diretor beltrano, mesmo que ele ainda sequer tenha sido filmado). <\/p>\n<p>J\u00e1 imagino que, a partir deste texto, as pessoas do meio j\u00e1 digam que estou acusando \u201cbeltrano, ciclano e fulano\u201d, mas aqui n\u00e3o se trata de dar \u201cnomes aos bois\u201d. N\u00e3o quero denegrir o trabalho de ningu\u00e9m, mas apenas expressar minha insatisfa\u00e7\u00e3o com o que leio sobre cinema. E n\u00e3o s\u00f3 no Brasil mas no mundo, j\u00e1 que muito do que se escreve no Brasil \u00e9 copiado de um estilo de cr\u00edtica que vem de fora, seja qual for o lado da moeda (\u00e9 como os realizadores brasileiros que ou copiam hollywood ou copiam apichatpong). Se eu rotular, classificar, categorizar os ve\u00edculos e os cr\u00edticos em \u201cA, \u201cB\u201d ou \u201cC\u201d, estarei fazendo exatamente aquilo que eu tento combater nesse texto. N\u00e3o quero ensinar ningu\u00e9m a escrever (esse texto n\u00e3o pretende inaugurar um curso de \u201cm\u00e9todos como fazer uma escrita tr\u00f4pega\u201d, etc). Mas, ao contr\u00e1rio, esse texto pretende espalhar d\u00favidas, incertezas, dividi-las com o leitor. E n\u00e3o afirmar verdades sobre a cr\u00edtica, ensinar \u00e0s pessoas como se deve escrever. O m\u00e1ximo que esse texto pode ser \u00e9 um ponto de partida, que leve a um questionamento de qual \u00e9 o papel da cr\u00edtica e do cr\u00edtico. Se ele fizer isso, ter\u00e1 cumprido o seu papel.&#8221;<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma sexta feira e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor de cinema Marcelo Ikeda &#8211; dono do blog de mesmoTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[13,12,11],"class_list":["post-11814","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinecasulofilia","tag-cinema","tag-cultura","tag-marcelo-ikeda"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11814"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11814\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}