{"id":11786,"date":"2010-10-03T19:40:00","date_gmt":"2010-10-03T21:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/10\/elite-da-tropa-2-previa\/"},"modified":"2010-10-03T19:40:00","modified_gmt":"2010-10-03T21:40:00","slug":"elite-da-tropa-2-previa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/10\/elite-da-tropa-2-previa\/","title":{"rendered":"Elite da Tropa 2 &#8211; Pr\u00e9via"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TKZHQSN9IqI\/AAAAAAAAC8U\/Zk6nAWwNu4E\/s1600\/elite+da+tropa+2.jpeg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"400\" px=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/elite+da+tropa+21.jpeg\" width=\"370\"><\/a><\/div>\n<div>Domingo, dia de elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas a vida segue e republico aqui o primeiro cap\u00edtulo do lan\u00e7amento liter\u00e1rio mais esperado nos \u00faltimos tempos: o segundo livro &#8220;Elite da Tropa&#8221; &#8211; <a href=\"http:\/\/www.livrariasaraiva.com.br\/produto\/3078576\/elite-da-tropa-2\/?ID=C90772817DA0A010E15061036\">j\u00e1 em pr\u00e9-venda<\/a> e com lan\u00e7amento marcado para a pr\u00f3xima sexta feira.<\/p>\n<p>O primeiro livro da s\u00e9rie inspirou os dois filmes &#8220;Tropa de Elite&#8221;, o segundo com lan\u00e7amento previsto para o mesmo dia 08.<\/p>\n<p>Reproduzo aqui o primeiro cap\u00edtulo do livro, originalmente postado no <a href=\"http:\/\/www.luizeduardosoares.blogspot.com\/\">blog de Luiz Eduardo Soares<\/a>, um dos autores &#8211; e que recomenda a resenha de &#8220;Esp\u00edrito Santo&#8221; que humildemente publiquei aqui.<\/p>\n<p>&#8220;Cap\u00edtulo do livro Elite da Tropa 2, de Luiz Eduardo Soares, Cl\u00e1udio Ferraz, Andr\u00e9 Batista e Rodrigo Pimentel, que estar\u00e1 nas livrarias a partir do dia 8 de outubro, editado pela Nova Fronteira. Os nomes dos personagens foram mudados, mas a hist\u00f3ria \u00e9 estritamente verdadeira.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><i>Mist\u00e9rios<\/i><\/p>\n<p>Alguns fen\u00f4menos s\u00e3o misteriosos e permanecem enigm\u00e1ticos ao longo dos anos. Quanto mais pensamos neles, menos os compreendemos. No mundo policial, em particular no campo de batalha e no universo do BOPE, n\u00e3o \u00e9 diferente. \u00c9 o caso de Lamartine Feitosa, cabo da PM, ex-companheiro, homem de valor, valente e leal, que se converteu e pediu afastamento do BOPE. Preferiu retornar a unidades convencionais, nas quais, tamb\u00e9m por op\u00e7\u00e3o, t\u00eam se empenhado em tarefas administrativas.<\/p>\n<p>Outro dia visitei o Queiroz, subcomandante de um batalh\u00e3o da zona norte, velho amigo. No meio da conversa apareceu o Feitosa. Bateu na porta, entrou cauteloso, sorriso sereno. Fiz uma festa quando o saudei. Ele parecia emocionado com o reencontro. Modesto, n\u00e3o se estendeu. Perguntou se podia providenciar um cafezinho, uma \u00e1gua, e passou ao subcomandante a papelada burocr\u00e1tica do dia.<\/p>\n<p>\u2014 Com licen\u00e7a. Foi um prazer rever o senhor, capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Prestou contin\u00eancia e saiu como o vento pela fresta da porta.<\/p>\n<p>Queiroz confirmou que Feitosa agia sempre assim, desde que chegou ao batalh\u00e3o. Furtivo, poucas palavras, educado, gentil, prestativo ao extremo, sem ambi\u00e7\u00f5es aparentes, atencioso com todo mundo, mas evasivo. Fazia tudo para manter-se longe de a\u00e7\u00f5es externas, sobretudo da rotina de incurs\u00f5es e enfrentamentos.<\/p>\n<p>\u2014 Na dele, sempre \u2014 disse Queiroz.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a tropa o respeitava como guerreiro. Afinal, tinha passado pelo BOPE e saiu porque quis. Seu conceito nunca havia sido questionado. O prest\u00edgio entre os caveiras estava intacto.<\/p>\n<p>Queiroz completou:<br \/>\u2014 N\u00e3o fala do passado no BOPE. N\u00e3o gosta. Quando a gente pergunta sobre alguma a\u00e7\u00e3o de que participou, desconversa. Quando os colegas contam alguma hist\u00f3ria dos confrontos, se afasta. Disfar\u00e7a e se afasta.<\/p>\n<p>***<br \/>Eis o que aconteceu \u2014 e que n\u00e3o explica a mudan\u00e7a, mas a antecede.<\/p>\n<p>Acostumado \u00e0 rotina do BOPE \u2014 guerra \u00e0 noite, descanso de dia, deslocamentos via transporte p\u00fablico \u2014, Feitosa cochilava, no \u00f4nibus, voltando para casa, quando dois rapazes anunciaram um assalto. Armado e portando documento de identidade policial, sabia que era matar ou morrer. Instintivamente, sacou a pistola, ergueu-se no banco e atirou nos ladr\u00f5es, que reagiram tarde demais e sem precis\u00e3o. Os dois bandidos morreram, mas, felizmente, ningu\u00e9m mais se feriu. A t\u00e9cnica o salvou, ele disse muitas vezes nos dias e nas semanas seguintes. O treinamento do BOPE o salvou. Agiu como guerreiro eficiente, veloz e preciso, gra\u00e7as \u00e0 experi\u00eancia. Feitosa repetia o que n\u00f3s todos gost\u00e1vamos de sublinhar: nenhuma outra tropa urbana do mundo tinha o privil\u00e9gio de praticar, como n\u00f3s, diariamente, as t\u00e1ticas de combate antiguerrilha. Por isso, \u00e9ramos os melhores. Por isso, at\u00e9 os israelenses vinham aprender conosco.<\/p>\n<p>At\u00e9 a\u00ed, nada de novo. Nada excepcional. O epis\u00f3dio apenas demonstrava a per\u00edcia de nosso companheiro. Mas n\u00e3o foi assim que ele vivenciou a situa\u00e7\u00e3o. Por algum motivo, a cena mudou sua vida. Mudou sua maneira de ver a profiss\u00e3o, seu jeito de falar, sua atitude. Se isso tivesse acontecido com qualquer pessoa, eu entenderia. Matar pode transformar muita coisa na cabe\u00e7a de um indiv\u00edduo. No entanto, para Feitosa, matar era parte de seu of\u00edcio. Era parte de seu cotidiano. Por que aquelas mortes foram t\u00e3o especiais?<\/p>\n<p>Saindo do gabinete do Queiroz fui tomar um caf\u00e9 com Feitosa. Senti que ele estava desconfort\u00e1vel, talvez porque eu arrastasse comigo um passado do qual ele participara, que era tamb\u00e9m seu e que ele preferia esquecer. Por isso, escolhi temas neutros. Falei de minha fam\u00edlia, futebol, coisas assim. Ele foi se desarmando. Se eu bebesse, o convidaria para um chope. Ele teria me dito que tinha parado de beber. A religi\u00e3o proibia. Feitosa tinha se convertido. Era evang\u00e9lico. Isso eu j\u00e1 sabia. Como est\u00e1vamos sozinhos e a conversa nos aproximou, mostrei curiosidade por sua convers\u00e3o. Quis saber como ele tinha descoberto a f\u00e9. Ele n\u00e3o se furtou a me falar de suas cren\u00e7as. Por essa via, encontrei uma brecha para mencionar o epis\u00f3dio e lhe perguntei se o caso tinha sido decisivo ou tinha pelo menos contribu\u00eddo para sua transforma\u00e7\u00e3o espiritual.<\/p>\n<p>A resposta de Feitosa n\u00e3o saciou minha curiosidade. Na verdade, me deixou angustiado. Fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o de que o campo vasto de minha ignor\u00e2ncia ia se ampliado na medida em que as palavras do velho camarada pareciam fazer sentido.<\/p>\n<p>Ele disse mais ou menos o seguinte:<\/p>\n<p>\u2014 Quando atirei nos homens dentro do \u00f4nibus, eu estava l\u00e1 e eles estavam l\u00e1. Havia mais gente, gritos, medo. Mas n\u00f3s tr\u00eas est\u00e1vamos l\u00e1. Um diante do outro. Fui eu que atirei no primeiro, capit\u00e3o. Eu, Lamartine, o homem, a pessoa. Fui eu que atirei no segundo. Entendeu? O primeiro caiu pra tr\u00e1s. Morreu na hora. O segundo tombou de lado, emborcou, e sangrou muito antes de morrer. Duas vidas, capit\u00e3o. Eram dois jovens. Olharam pra mim. Eu olhei pra eles. N\u00f3s nos olhamos.<br \/>\u2014 Voc\u00ea morreria se n\u00e3o atirasse, Feitosa. Tem d\u00favida de que eles teriam matado voc\u00ea?<br \/>\u2014 Teriam matado, sim. Mas n\u00e3o foi o que aconteceu, porque atirei primeiro. Quem matou fui eu.<br \/>\u2014 Ainda bem, Feitosa. Ou voc\u00ea est\u00e1 arrependido? Acha que errou? N\u00e3o deveria ter atirado?<br \/>\u2014 N\u00e3o errei, n\u00e3o.<br \/>\u2014 Pois \u00e9, leg\u00edtima defesa.<br \/>\u2014 Eu sei.<br \/>\u2014 Ent\u00e3o, por que isso perturba tanto voc\u00ea?<br \/>\u2014 Porque est\u00e1 errado fazer a coisa certa.<\/p>\n<p>Acho que ele notou que fiquei pasmo. Tanto que retomou a palavra:<br \/>\u2014 Capit\u00e3o, ouve. Presta aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Feitosa repetiu o que tinha dito, com as mesmas palavras. Que os tr\u00eas estavam no \u00f4nibus, etc.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me calei. Desisti de entender, mas intu\u00ed que havia alguma coisa no que ele dizia, alguma coisa que tocava a verdade. E logo o press\u00e1gio de que essa verdade se revelaria desapareceu sem deixar rastro. Voltei a me sentir perdido nesse emaranhado.<\/p>\n<p>Um tempo depois, em que cozinhamos o sil\u00eancio em fogo baixo, ele acrescentou:<\/p>\n<p>\u2014 Nas incurs\u00f5es, capit\u00e3o, vest\u00edamos uniforme.<\/p>\n<p>E da\u00ed? pensei. Que diferen\u00e7a isso faz?<\/p>\n<p>Feitosa prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2014 Nos confrontos, \u00e9ramos partes de uma engrenagem.<\/p>\n<p>OK, eu pensei. Tudo bem. E da\u00ed? Sem organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel combater. Somos uma m\u00e1quina. M\u00e1quina de guerra. Um mecanismo do Estado armado para matar. Qual a diferen\u00e7a? Uma pistola municiada funciona do mesmo jeito. O proj\u00e9til disparado mata da mesma forma. A guerra e a leg\u00edtima defesa s\u00e3o raz\u00f5es suficientes para justificar o tiro fatal. As situa\u00e7\u00f5es se equivalem? Onde est\u00e1 a diferen\u00e7a?<\/p>\n<p>O velho companheiro concluiu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o est\u00e1vamos sozinhos, capit\u00e3o, mesmo que, fisicamente, em algum momento da a\u00e7\u00e3o, cada um de n\u00f3s estivesse sozinho. Quem agia era a equipe. A vontade que a gente encarnava era da corpora\u00e7\u00e3o. O cabo Feitosa participou de muitas opera\u00e7\u00f5es e matou em combate. Eu nunca estive em nenhuma opera\u00e7\u00e3o. Eu, Lamartine, nunca tinha matado ningu\u00e9m.&#8221;<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Domingo, dia de elei\u00e7\u00f5es. 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