{"id":11726,"date":"2010-11-12T07:46:00","date_gmt":"2010-11-12T09:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/11\/cinecasulofilia-a-suprema-felicidade\/"},"modified":"2010-11-12T07:46:00","modified_gmt":"2010-11-12T09:46:00","slug":"cinecasulofilia-a-suprema-felicidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/11\/cinecasulofilia-a-suprema-felicidade\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;A Suprema Felicidade&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TNsE1JRnqLI\/AAAAAAAADBc\/Kr8HDCjS6Pc\/s1600\/A+Suprema+Felicidade+2.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/A+Suprema+Felicidade+2.jpg\" width=\"268\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Mais uma sexta feira, e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor da mat\u00e9ria Marcelo Ikeda. Hoje a coluna analisa o novo filme do cineasta &#8211; e analista pol\u00edtico dos mais toscos e reacion\u00e1rios &#8211; Arnaldo Jabor. S\u00e3o dois textos entrela\u00e7ados.<\/p>\n<p>Como sempre, publicada em parceria <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;<i><b>A Suprema Felicidade<\/b><\/i><\/p>\n<p>Pobre Jabor! A Suprema Felicidade \u00e9 um filme comovente. N\u00e3o que isso o fa\u00e7a excepcionalmente bom, n\u00e3o \u00e9 este o caso. Por outro lado tampouco \u00e9 o caso de esculhambar o filme pela participa\u00e7\u00e3o um tanto duvidosa de Jabor como cronista de O Globo, um pseudo-sucessor de Paulo Francis. Nem uma coisa nem outra. A quest\u00e3o \u00e9 que a melancolia do projeto de A Suprema Felicidade deve ser vista como um resqu\u00edcio de uma trajet\u00f3ria do pr\u00f3prio cinema brasileiro dos \u00faltimos vinte anos.<\/p>\n<p>Isso fica claro quando vemos as declara\u00e7\u00f5es do Jabor. Na coletiva de imprensa para o lan\u00e7amento do filme no Rio, Jabor falou aos jornalistas sobre o que estava em jogo com o filme. Tomo como base a interessante mat\u00e9ria de Pedro Martins Freire para o Di\u00e1rio do Nordeste (ver aqui). Pedro vai ao ponto em sua mat\u00e9ria sobre o filme quando diz \u201cJabor conversou com jornalistas sobre temas que iam al\u00e9m de seu mais recente longa-metragem. Sol\u00edcito e sorridente, o cineasta fez quest\u00e3o de dar aten\u00e7\u00e3o a todos, mas salientava sua satisfa\u00e7\u00e3o com as perguntas fora do &#8220;roteiro&#8221;.\u201d<\/p>\n<p>O que s\u00e3o as tais perguntas \u201cfora do roteiro\u201d? Qualquer oportunidade para falar do que est\u00e1 em jogo com o filme: uma esp\u00e9cie de carta de inten\u00e7\u00f5es, uma esp\u00e9cie de muro das lamenta\u00e7\u00f5es de n\u00e3o estar filmando h\u00e1 quase vinte anos, um certo pedido de desculpas, um certo receio de ser considerado traidor. Para Jabor, o cinema \u00e9 angustiante, o cinema mata, o cinema \u00e9 destruidor. Ele precisava viver, pagar as contas. Disse que o jornalismo \u00e9 fascinante pelo imediatismo, de ver realizado um produto final a cada dia, a cada semana, e n\u00e3o de quatro em quatro anos, quando muito, no caso de um filme. Ou seja, Jabor n\u00e3o queria falar propriamente sobre o filme em si, mas sobre suas inten\u00e7\u00f5es, sobre sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria pessoal.<\/p>\n<p>Mas Jabor se engana em rela\u00e7\u00e3o a um conjunto de pontos e a fragilidade do seu discurso \u00e9 muito clara. Ele se engana quando diz que o tema de seu filme N\u00c3O \u00e9 o passado, e se engana que o cinema mundial hoje est\u00e1 em crise, pois \u201cos cineastas n\u00e3o conhecem mais o mundo\u201d. Pobre Jabor! Ele que se engana! Se engana j\u00e1 que, se por um lado Jabor acompanhava atentamente o mais frondoso cinema dos anos sessenta (Fellini, Antonioni, Malle, Truffaut, etc.), ele, com uma declara\u00e7\u00e3o como essa, mostra, mostra estar completamente desantenado do que vem acontecendo no cinema no Brasil e no mundo. Mostra desconhecer o cinema de Jia Zhang-Ke, de Hou Hsiao-Hsien, de Lisandro Alonso, de Carlos Reygadas, de tantos outros. O \u201ccinema contempor\u00e2neo\u201d \u00e9 essencialmente um cinema que abra\u00e7a o mundo de hoje, um mundo em transforma\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de um cinema que v\u00ea a crise da express\u00e3o e da narrativa cl\u00e1ssica como um sinal de oportunidades, um cinema \u00e9tico que se coloca de frente para o mundo, com todas as dificuldades dessa op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com isso, quero dizer que as principais dificuldades de A Suprema Felicidade s\u00e3o todas de encena\u00e7\u00e3o, ou seja, de como encenar, de como dar forma a uma determinada ideia. De um lado, podemos pensar essa tend\u00eancia como uma certa ansiedade em filmar, no arroubo um tanto desordenado de cenas que se relacionam de uma forma pouco org\u00e2nica. De outro, uma enorme dificuldade em concentrar-se no presente, na cena em si. Jornalista, o Jabor de A Suprema Felicidade avan\u00e7a mais no campo das inten\u00e7\u00f5es do que no da realiza\u00e7\u00e3o. Preso \u00e0s refer\u00eancias do musical americano e do cinema de Fellini, Jabor se perde na n\u00e9voa do filme que poderia ter feito h\u00e1 vinte anos e se esquece da principal mat\u00e9ria-prima de um cinema que se prop\u00f5e a falar do presente: olhar para o mundo.<\/p>\n<p>A grande chave de elucida\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de Jabor \u00e9 o personagem de Nanini, n\u00e3o \u00e0 toa o mais encantador de todo o filme. Uma esp\u00e9cie de bon vivant que vive sem culpas as alegrias do presente, ainda que sempre tempor\u00e1rias. \u201cEstar alegre, nunca feliz\u201d. A Suprema Felicidade \u00e9 uma tentativa de expia\u00e7\u00e3o do passado recente de Jabor, de sua carreira de cineasta abortada por op\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, ou \u2013 se quiserem assim acreditar \u2013 pelas dificuldades do pr\u00f3prio Brasil. Jabor diz que deixou o cinema para n\u00e3o enlouquecer, mas v\u00e1rios de seus personagens s\u00e3o loucos, b\u00eabados ou variantes de um certo estado de sonambulismo.<\/p>\n<p>Ao final, h\u00e1 a s\u00edntese de toda esta carta de inten\u00e7\u00e3o, uma despedida melanc\u00f3lica e comovente. Nanini, quase como um ritual de morte, dan\u00e7a \u00e0 beira do mar, imaginando como se estivesse num show de gafieira. Imagina o show de gafieira como um musical de Hollywood visto pelas chanchadas brasileiras, s\u00f3 que agora numa produ\u00e7\u00e3o de R$10 milh\u00f5es, com apoio da Globo Filmes. No fundo, dan\u00e7a s\u00f3, na noite escura, de costas para o presente. Imagina seu mundo passado e n\u00e3o tenta conhecer as casas noturnas do presente, os jovens do presente. N\u00e3o tenta falar com seu neto, mas apenas que \u201cele tamb\u00e9m j\u00e1 amou\u201d, e a lhe contar sobre seu passado. \u201cEstar alegre, nunca feliz\u201d. \u00c9 com esse ritual de passagem para a morte, uma \u201cchanchada f\u00fanebre\u201d que Jabor encerra o seu comovente filme. Pobre Jabor!<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TNsE7hMwfZI\/AAAAAAAADBg\/59krWWUl_LE\/s1600\/A+Suprema+Felicidade+1.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"230\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/A+Suprema+Felicidade+1.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><b>mais sobre Jabor<\/b><\/i><\/p>\n<p>Eu entendo perfeitamente quanto Jabor diz que fez seu filme n\u00e3o interessado no passado, mas no presente. Mas \u00e9 como se Jabor n\u00e3o estivesse interessado no \u201cpresente\u201d, mas apenas no \u201cpresente dele\u201d, isto \u00e9, A Suprema Felicidade n\u00e3o \u00e9 um filme jovem, \u00e9 um filme velho. Ela olha para o presente de uma perspectiva pouco alinhada com o presente, mas com o passado. Ele olha para o presente com um olhar passadista.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 uma mera quest\u00e3o de idade (Zhang-Ke tem trinta e poucos anos; Jabor, sessenta e tantos). Penso por exemplo no filme de Nolot: um velho (ele pr\u00f3prio) que olha para o presente com melancolia e se lembra do passado. Acontece que Nolot n\u00e3o tem um olhar passadista, pela forma como ele olha para o seu presente, ou seja, pelas suas solu\u00e7\u00f5es de ENCENA\u00c7\u00c3O. Tudo no filme de Nolot se reflete numa forma \u00c9TICA de encenar (de se \u201cautoencenar\u201d) DE FRENTE.<\/p>\n<p>Em suma: enquanto Jabor encerra seu filme com seu personagem dan\u00e7ando numa gafieira imaginada, de costas para o presente, Nolot prefere fazer seu personagem (no caso, ele mesmo, ator-autor-personagem) entrar no Pigalle travestido de mulher, ou seja, uma \u201cgafieira do presente\u201d, REAL, que ele nunca teve coragem de entrar (o \u201cbar dos negros\u201d de Clube dos Cafajestes&#8230;). Nolot abra\u00e7a esse presente, consciente de toda a dificuldade dessa op\u00e7\u00e3o, de toda a fragilidade, a precariedade, e de sua pr\u00f3pria decad\u00eancia f\u00edsica, psicol\u00f3gica, emocional. Abra\u00e7a seu desejo (m\u00f3rbido, doentio, pervertido, libertador, esperan\u00e7oso, redentor) DE FORMA \u00c9TICA E DE FRENTE, sem se esquivar de si mesmo, mesmo que doa.<\/p>\n<p>Jabor prefere que n\u00e3o doa. N\u00e3o quer mais sentir dor voluntariamente. Prefere o imediatismo do jornalismo e viver com mais conforto. Entendo perfeitamente, e isso fala n\u00e3o s\u00f3 de si pr\u00f3prio mas (o que me interessa propriamente) DE UMA TRAJET\u00d3RIA DE UM BRASIL E DE UM CINEMA BRASILEIRO.<\/p>\n<p>Acontece que d\u00f3i do mesmo jeito. Viver o tempo todo sob o efeito da morfina. Talvez doa at\u00e9 mais. Eu s\u00f3 sei que EU (moleque jovem) \u2013 at\u00e9 mesmo pelas decis\u00f5es recentes que tomei em minha vida \u2013 prefiro tentar entrar no Pigalle.&#8221;<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma sexta feira, e mais uma coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor da mat\u00e9ria Marcelo Ikeda. 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