{"id":11682,"date":"2010-12-16T16:40:00","date_gmt":"2010-12-16T18:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/12\/cinecasulofilia-cinema-arte-perecivel\/"},"modified":"2010-12-16T16:40:00","modified_gmt":"2010-12-16T18:40:00","slug":"cinecasulofilia-cinema-arte-perecivel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/12\/cinecasulofilia-cinema-arte-perecivel\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;cinema, arte perec\u00edvel&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TQZosdRTCbI\/AAAAAAAADHI\/V8p-a64lOr0\/s1600\/castelo_de_areia.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/castelo_de_areia.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<div>Bom, em novo dia &#8211; quinta feira, mas tamb\u00e9m ser\u00e1 flutuante &#8211; a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor de cinema Marcelo Ikeda. Hoje, uma reflex\u00e3o sobre o ato de filmar e os &#8220;castelos de areia&#8221; envolvidos.<\/p>\n<p>Como sempre, coluna publicada em <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">parceria com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;<i><b>cinema, arte perec\u00edvel<\/b><\/i><\/p>\n<p>o cinema em geral \u00e9 uma arte feita para durar. Os negativos precisam ser preservados. Dos negativos s\u00e3o feitas c\u00f3pias em base de acetato, material mais resistente que o papel ou que a cer\u00e2mica. Um vaso pode ser uma bela obra de arte, mas \u00e9 delicada e fr\u00e1gil: ao cair, se esfacela. Mas o filme n\u00e3o: \u00e9 uma arte feita para durar. Pobre cinema!<\/p>\n<p>Algumas vezes tenho a oportunidade de ver lindas cr\u00edticas de filmes em jornais antigos, e que passaram a servir de embalagem para peixe. O que admiro nas cr\u00edticas em jornal \u00e9 seu paradoxo: a necessidade de dar conta em tempo imediato de algo urgente e pulsante, mas que no dia seguinte n\u00e3o tem mais valor. O jornal s\u00f3 \u00e9 lido no dia; no dia seguinte, vira lixo. O cr\u00edtico deve dar conta de todo um sentimento de verdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra, ainda que saiba que seu esfor\u00e7o no dia seguinte vai para a lata do lixo e que provavelmente ningu\u00e9m mais se lembrar\u00e1. S\u00e3o filmes e filmes e filmes; textos e textos e textos. O seu \u00e9 apenas mais um. Mas o \u00e9, e isso \u00e9 belo.<\/p>\n<p>Gostaria de fazer um filme perec\u00edvel. Um filme feito num suporte autoinflam\u00e1vel que, ao ser exibido, ele pr\u00f3prio se desfizesse, tal como os downloads de filmes dos netflicks da vida que, ap\u00f3s 24 horas, o arquivo \u00e9 automaticamente deletado do seu computador. Num momento em que Tropa de Elite 2 bate todos os recordes como filme nacional mais visto dos \u00faltimos trinta anos, a partir de uma distribui\u00e7\u00e3o massiva, em que foi lan\u00e7ado em setecentas c\u00f3pias em todo o pa\u00eds, eu gostaria de fazer um filme exibido em uma \u00fanica sess\u00e3o, cuja c\u00f3pia \u00fanica se desfizesse ao final dela. Ao final, os que restassem na sala de proje\u00e7\u00e3o \u2013 provavelmente tr\u00eas ou quatro amigos \u2013 cantar\u00edamos juntos para celebrar a beleza desse ato fugidio, que nesse exato momento, j\u00e1 faria parte do passado.<\/p>\n<p>\u00c9 como os espet\u00e1culos de jazz ou como os recitais de poesia, que acontecem num breve momento e se desfazem ali mesmo. Acontece que a maior parte deles \u00e9 baseado no improviso e no contato com o p\u00fablico. Como uma festa, \u00e9 algo que se faz ali no calor do momento, e que n\u00e3o pode ser repetido. Ou que na pr\u00f3pria tentativa de repeti\u00e7\u00e3o passa a ser necessariamente outro. N\u00e3o \u00e9 o caso da minha proposta. Nada me d\u00e1 mais calafrios do que \u201cimproviso\u201d e \u201ccontato com o p\u00fablico\u201d. N\u00e3o se trata disso.\u00a0<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Gostaria de apresentar algo que n\u00e3o se fizesse ali, naquele momento, mas que precisasse de muito tempo para ficar pronto, talvez um ou dois anos \u2013 tempo suficiente. Mas que, ainda assim, se desfizesse nessa \u00fanica sess\u00e3o. Gostaria que as pessoas soubessem que se demandou um bom esfor\u00e7o, um longo tempo de matura\u00e7\u00e3o para que essa obra ficasse pronta, ou ainda, que ela n\u00e3o \u00e9 conclu\u00edda e destru\u00edda instantaneamente, mas ao contr\u00e1rio: se ela \u00e9 destru\u00edda logo, para que fique pronta, ela precisa de um longo tempo at\u00e9 que possa decantar. Pois n\u00e3o \u00e9 assim com a nossa vida?<\/p>\n<p>Quanto mais se discutem os canais do cinema independente, e quanto mais vivemos a necessidade da canoniza\u00e7\u00e3o desse novo jovem cinema, cada vez mais tenho a necessidade de me dedicar muito, arduamente, a fazer castelos de areia. N\u00e3o por pirra\u00e7a, por ser \u201cdo contra\u201d, mas \u00e9 porque sinto que \u00e9 a \u00fanica coisa que posso fazer: ser coerente comigo mesmo. Gostaria de come\u00e7ar agora, agora mesmo, nesse minuto.\u00a0<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas n\u00e3o posso. Tenho que fechar o semestre, comprar um novo computador, passar o final do ano com a fam\u00edlia e amigos, tenho que escrever uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, etc, etc. Espero faz\u00ea-lo. Se o for, ser\u00e1 algo sobre a minha chegada em Fortaleza e meus dias por aqui. Mais um di\u00e1rio de viagem; mais uma carta ao Cear\u00e1; mais um filme caseiro; mais um filme sobre mim.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Afinal, sobre o que mais filmar? Sobre o outro? Que pretens\u00e3o! Se mal sei quem sou e o que fa\u00e7o! Gostaria de fazer um filme perec\u00edvel, que subitamente se desfizesse, como a vida. O fato de ser perec\u00edvel n\u00e3o o faz v\u00e3o, ou in\u00fatil. Longe disso. Creio que existe uma beleza nesse desaparecimento.<\/p>\n<p>(este texto perec\u00edvel ser\u00e1 deletado deste blog em sete dias)&#8221;<\/p>\n<p><i>[N.doE.: mas sobreviver\u00e1, resgatado, aqui&#8230;]<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bom, em novo dia &#8211; quinta feira, mas tamb\u00e9m ser\u00e1 flutuante &#8211; a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor de cinema Marcelo Ikeda.Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[13,12,11],"class_list":["post-11682","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinecasulofilia","tag-cinema","tag-cultura","tag-marcelo-ikeda"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11682\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}