{"id":11658,"date":"2011-01-02T07:51:00","date_gmt":"2011-01-02T09:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/01\/sobretudo-feliz-ano-novo-peter\/"},"modified":"2011-01-02T07:51:00","modified_gmt":"2011-01-02T09:51:00","slug":"sobretudo-feliz-ano-novo-peter","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/01\/sobretudo-feliz-ano-novo-peter\/","title":{"rendered":"Sobretudo &#8211; &quot;Feliz Ano Novo, Peter&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TR0bJa4gdQI\/AAAAAAAADKo\/ltpWHwHnPzA\/s1600\/Leningrado-homenagem-aos-65-anos-do-fim-do-cerco-nazista.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/Leningrado-homenagem-aos-65-anos-do-fim-do-cerco-nazista.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>De volta ap\u00f3s pequeno intervalo, a coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, do publicit\u00e1rio Affonso Romero, inicia sua vers\u00e3o 2011 com um pedido muito especial de &#8220;Feliz Ano Novo&#8221;: contando uma boa hist\u00f3ria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O texto fala por si.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;<b><i>Sobretudo \u2013 Feliz Ano Novo, Peter.<\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Passei boa parte da primeira quinzena de dezembro lendo o excelente \u201cCidade de Ladr\u00f5es\u201d, de David Bennioff. Leitura entrecortada, feita um pouco a cada dia, sempre no trem entre minha casa e o trabalho. N\u00e3o obstante, li cada linha com aten\u00e7\u00e3o reverente, consciente de que estava na companhia de um dos melhores livros que eu j\u00e1 tive em m\u00e3os.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Terminada a leitura, emprestei meu exemplar de bolso para o pessoal do trabalho, com uma forte recomenda\u00e7\u00e3o. E comprei mais tr\u00eas exemplares: um para t\u00ea-lo sempre na estante, outros para presentear meu pai e minha esposa. Para que o amigo leitor veja o quanto o livro me impressionou positivamente.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No primeiro cap\u00edtulo o autor conta que, convidado a escrever algo sobre sua pr\u00f3pria vida, e por ach\u00e1-la mon\u00f3tona e desinteressante, acaba recorrendo ao av\u00f4, um fr\u00e1gil judeu russo de aspecto inofensivo que imigrou para os Estados Unidos ap\u00f3s a II Guerra Mundial. Mas sobre o qual havia uma lenda familiar de que, durante a guerra, teria matado dois alem\u00e3es a facadas antes de completar a maioridade. O livro \u00e9, da\u00ed em diante, o relato em primeira voz do ent\u00e3o adolescente Lev Beniov sobre sua aventura e desventuras na Leningrado sitiada do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1940. O autor nos alerta sobre as imprecis\u00f5es e lacunas de mem\u00f3ria reproduzindo o conselho do pr\u00f3prio av\u00f4 que viveu os fatos: \u201cDavid, voc\u00ea \u00e9 um escritor: invente.\u201d<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Portanto, n\u00e3o se pode saber o que se passou efetivamente com Lev, o que o velho russo acrescentou de hero\u00edsmo a si mesmo, e o que o neto admirado criou ou poetizou. Mas tem-se a certeza de que a obra, al\u00e9m de envolvente como boa aventura que \u00e9, tem precis\u00e3o hist\u00f3rica, bom humor (apesar das circunst\u00e2ncias), aquele qu\u00ea de non-sense que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel extrair da mais dura realidade, um profundo e sincero humanismo e um texto impec\u00e1vel. Como \u00e9 expresso nas linhas abaixo, apresentadas logo no in\u00edcio do livro:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>\u201cNunca t\u00ednhamos sentido tanta fome; nunca t\u00ednhamos sentido tanto frio. Quando dorm\u00edamos, se dorm\u00edamos, sonh\u00e1vamos com as del\u00edcias que t\u00ednhamos comido de maneira t\u00e3o descuidada sete meses antes \u2014 todo aquele p\u00e3o com manteiga, os bolinhos de batata, as salsichas \u2014 comidos com desaten\u00e7\u00e3o, engolindo sem sentir o gosto, deixando grandes sobras em nossos pratos, restos de gordura. Em junho de 1941, antes de os alem\u00e3es chegarem, ach\u00e1vamos que \u00e9ramos pobres. Mas junho ficou parecendo o para\u00edso quando veio o inverno.\u201d<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u201cCidade de Ladr\u00f5es\u201d n\u00e3o \u00e9 um livro sobre o reveillon de 1942. Seria mais correto afirmar que \u00e9 um livro sobre a aus\u00eancia de qualquer festa ou esperan\u00e7a durante aquele inverno especialmente duro. Apesar disso, e de forma surpreendente, o livro relata epis\u00f3dios de festa e esperan\u00e7a. E, sem ser tamb\u00e9m um livro sobre sexo, amor, terror, fam\u00edlia, pol\u00edtica, \u00a0canibalismo, galinhas, supera\u00e7\u00e3o, adolesc\u00eancia e esportes de inverno, tem uma boa parcela disso tudo. \u00c9 ineg\u00e1vel que o livro tenha uma linha condutora assentada na constru\u00e7\u00e3o da amizade entre Lev e Kolya, o encontro entre dois jovens bastante distintos unidos pelas circunst\u00e2ncias da guerra, o que seria um lugar-comum, n\u00e3o fosse um livro \u00fanico.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em tudo, o autor \u00e9 cuidadoso e especial, usando todo seu talento e t\u00e9cnica em benef\u00edcio do leitor. Cenas absurdas de t\u00e3o grotescas e desumanas s\u00e3o descritas sem que pare\u00e7am chocar, mas sem perder em realismo. O humor por vezes ir\u00f4nico do narrador e de seus companheiros de trag\u00e9dia em nenhum momento desrespeita \u00e0queles que viveram os horrores da invas\u00e3o nazista, ao contr\u00e1rio, envolvem mais e mais o leitor na trag\u00e9dia humana, como uma armadilha na qual se entra por livre iniciativa e n\u00e3o se quer sair, nem ao final da hist\u00f3ria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao frio, \u00e0 fome e \u00e0 fadiga somam-se as situa\u00e7\u00f5es-limite de uma aventura que igualmente tira o f\u00f4lego do leitor. E, ao mesmo tempo, a obra \u00e9 muito mais do que uma aventura adolescente em ritmo cinematogr\u00e1fico, ainda que tamb\u00e9m seja isso e jamais pare\u00e7a pretensiosa. Enfim, um grande livro, um futuro cl\u00e1ssico.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O caro leitor talvez j\u00e1 saiba do meu interesse pela Segunda Guerra. J\u00e1 abordamos o tema aqui na Sobretudo em duas ocasi\u00f5es, <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2010\/01\/sobretudo_09.html\">uma delas sobre o cerco a Stalingrado<\/a>. Enquanto a cidade situada ao sul da R\u00fassia \u2013 menor e em local de frio menos intenso &#8211; foi disputada casa a casa entre o Ex\u00e9rcito Vermelho e as tropas de Hitler, com a progressiva evacua\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o civil para a margem oposta do Rio Volga; em Leningrado \u2013 cidade mais populosa, extensa e fria, \u00e0 beira do Mar B\u00e1ltico &#8211; a m\u00e1quina de guerra nazista evitou o custo de confronto direto, preferindo bombardear e sitiar a cidade at\u00e9 que o \u00faltimo dos seus habitantes morresse de frio e fome.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 nesse terr\u00edvel cen\u00e1rio que o destino une Lev e Kolya na improv\u00e1vel miss\u00e3o de conseguir uma d\u00fazia de ovos. Leningrado era o nome dado pelos comunistas \u00e0 antiga capital do imp\u00e9rio czarista, S\u00e3o Petersburgo. A cidade, bela, imponente e hist\u00f3rica, continuou a ser chamada por seus habitantes pelo nome original (o que poderia causar a pris\u00e3o ou a morte, ali\u00e1s) ou, de uma maneira informal e carinhosa, simplesmente de \u201cPeter\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A hist\u00f3ria come\u00e7a em Peter, na virada de 1941 para 1942 e n\u00e3o h\u00e1 nada para se comemorar. Tudo se passa em apenas uma semana. Ao final, sabe-se que 1942 foi um ano dif\u00edcil, que obviamente nem todos foram felizes para sempre, mas lembre-se que tudo foi contado por um velho judeu russo que sobreviveu a isso tudo. Afinal, alguma esperan\u00e7a sempre h\u00e1.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Meu \u00fanico problema ao ler \u201cCidade de Ladr\u00f5es\u201d foi fazer permanentemente ao longo de cada um dos cap\u00edtulos uma analogia entre Peter e o mundo atual. Provavelmente, esta jamais tenha sido a inten\u00e7\u00e3o do autor, eu que devo estar numa fase um pouco pessimista. Mas, se voc\u00ea para e pensa um pouco, talvez tamb\u00e9m encontre as semelhan\u00e7as que eu vi entre a Leningrado sitiada do in\u00edcio dos anos 1940 e o mundo onde vive.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Afinal, os recursos n\u00e3o est\u00e3o se esgotando numa velocidade perigosa? H\u00e1 alguma forma de transpor o \u201ccerco\u201d no qual o Planeta foi sitiado? O clima passou a ser motivo de preocupa\u00e7\u00e3o? H\u00e1 alguma guerra l\u00e1 fora? E quantas vezes, s\u00f3 no \u00faltima m\u00eas, algu\u00e9m j\u00e1 lhe pediu para ir pegar \u201cuma d\u00fazia imposs\u00edvel de ovos\u201d, um pedido que, nas circunst\u00e3ncias em que foi feito, n\u00e3o faz sentido algum? O pior dos mundos \u00e9 aquele em que todas as mazelas come\u00e7am a parecer bons argumentos para as a\u00e7\u00f5es mais p\u00e9rfidas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Bem, no final, o av\u00f4 de David Bennioff p\u00f4de sentar-se na varanda e contar sua hist\u00f3ria. Feliz 1942, Peter! Feliz Ano Novo, mundo!\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como o David Bennioff \u00e9 tamb\u00e9m um conhecido roteirista e argumentista em Hollywood (Tr\u00f3ia, X-Men etc.), e j\u00e1 teve um sucesso liter\u00e1rio anterior adaptado para a tela (The 25th Hour, com Edward Norton, por Spike Lee), \u201cCidade&#8230;\u201d certamente ter\u00e1, em breve, a vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica que merece. Enquanto isso n\u00e3o acontece, verei em video o relativamente recente \u201cLeningrado\u201d, com Gabriel Byrne, que est\u00e1 no meu pacote da locadora para este final de semana. Ser\u00e1 comentado em breve nesta coluna.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para fechar a coluna de hoje (e o ano que acabou de se encerrar) de uma forma mais otimista, deixo mais duas sugest\u00f5es ao amigo leitor:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; O livro \u201cClube do Filme\u201d, do canadense David Gilmour. Relato autobiogr\u00e1fico de um cr\u00edtico de cinema numa fase de entresafra profissional cujo filho adolescente tinha s\u00e9rios problemas na escola. Ambos selam um acordo e passam a assistir semanalmente a cl\u00e1ssicos (e alguns lixos) do cinema. Gostei muito e dei de presente para meu filho adolescente. Leitura mais leve, com alguns momentos um pouco piegas. Recomendo com entusiasmo menor do que tive por \u201cCidade de Ladr\u00f5es\u201d, mas, ainda assim, \u00e9 uma obra imperd\u00edvel para quem gosta da s\u00e9tima arte e tem filhos fazendo a transi\u00e7\u00e3o para a idade adulta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u2013 <a href=\"http:\/\/bosquesonoro.blogspot.com\/\">O blog AfroCubanLatinJazz<\/a>, um verdadeiro para\u00edso hisp\u00e2nico para quem curte os grooves das diversas vertentes do jazz cubano e latinoamericano. Links desde discos hist\u00f3ricos at\u00e9 lan\u00e7amentos do ano que se encerra.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Feliz 2011 e um grande abra\u00e7o.&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De volta ap\u00f3s pequeno intervalo, a coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, do publicit\u00e1rio Affonso Romero, inicia sua vers\u00e3o 2011 com um pedido muito especial de &#8220;Feliz Ano Novo&#8221;:Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[289,100],"tags":[35,73],"class_list":["post-11658","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pedro-migao","category-sobretudo","tag-historia","tag-livros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11658","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11658"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11658\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11658"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}