{"id":11654,"date":"2011-01-05T08:01:00","date_gmt":"2011-01-05T10:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/01\/historia-outros-assuntos-1822-resenha-critica\/"},"modified":"2011-01-05T08:01:00","modified_gmt":"2011-01-05T10:01:00","slug":"historia-outros-assuntos-1822-resenha-critica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/01\/historia-outros-assuntos-1822-resenha-critica\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria &amp; Outros Assuntos: &quot;1822: Resenha Cr\u00edtica&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TRuh44MB2UI\/AAAAAAAADKk\/HkEpAIoTOi4\/s1600\/1822.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/1822.jpg\" width=\"207\"><\/a><\/div>\n<div>De volta, de forma definitiva, temos a coluna &#8220;Hist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos&#8221;, assinada pelo historiador Fabr\u00edcio Gomes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O tema desta coluna de retorno \u00e9 uma resenha cr\u00edtica, sob o \u00e2ngulo do estudo hist\u00f3rico, de &#8220;1822&#8221;, obra de Laurentino Gomes &#8211; que, ali\u00e1s, eu tenho mas est\u00e1 na longa lista de livros que aguardam ansiosamente leitura.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando o fizer, estar\u00e1 devidamente resenhado aqui.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;<i><b>1822: Resenha Cr\u00edtica<\/b><\/i><\/p>\n<p>Assim como o ano de 1822 representou, para alguns, um divisor de \u00e1guas para os destinos do Brasil, para outros, at\u00e9 hoje, \u00e9 sinal de desimport\u00e2ncia &#8211; j\u00e1 que mesmo &#8220;independente&#8221; de Portugal, o Brasil continuava governado por um soberano portugu\u00eas e, mais do que isso, atrelava-se, com vol\u00fapia ainda maior, \u00e0 depend\u00eancia econ\u00f4mica da Inglaterra. \u00c9 portanto, tema capaz de despertar pol\u00eamica n\u00e3o somente entre pesquisadores que, dependendo da linha pol\u00edtica, ganha tons nebulosos.<\/p>\n<p>O mesmo pode-se dizer desta obra &#8220;<i>1822 &#8211; Como um homem s\u00e1bio, uma princesa triste e um escoc\u00eas louco por dinheiro ajudaram D.Pedro a criar o Brasil &#8211; um pa\u00eds que tinha tudo para dar errado&#8221;<\/i>, do jornalista Laurentino Gomes. <\/p>\n<p>O autor \u00e9 o mesmo de outra publica\u00e7\u00e3o voltada para a Hist\u00f3ria do Brasil. &#8220;1808&#8221; j\u00e1 tinha sido estrondoso sucesso e agora, ao repetir a dose acerca de uma data t\u00e3o significativa para nossa hist\u00f3ria, Laurentino Gomes refor\u00e7a sua inten\u00e7\u00e3o de contar a hist\u00f3ria de forma sutil, f\u00e1cil e din\u00e2mica aos olhos do leitor. O mais interessante \u00e9 que no meio historiografico, a discuss\u00e3o gira mais em torno da publica\u00e7\u00e3o da obra, em si, do que propriamente no conte\u00fado explorado pelo autor. Se &#8220;1808&#8221; j\u00e1 havia despertado rea\u00e7\u00f5es de rejei\u00e7\u00e3o pelo fato da obra trazer a hist\u00f3ria contada de forma n\u00e3o usual \u00e0quela que \u00e9 contada na Academia, &#8220;1822&#8221; refor\u00e7a a tese de que, para grande parte dos historiadores, resume-se a uma literatura factual, rasa e superficial \u00e0 hist\u00f3ria cl\u00e1ssica, que se aprofunda e desperta questionamentos e novas pesquisas na sociedade.<\/p>\n<p>Geralmente trata-se de uma vis\u00e3o marxista da hist\u00f3ria, que n\u00e3o cabe a n\u00f3s julgar. E torna-se percept\u00edvel aquilo que Pierre Bourdieu chamou de &#8220;conceito de habitus&#8221;: \u00a0uma matriz geradora de comportamentos, vis\u00f5es de mundo e sistemas de classifica\u00e7\u00e3o da realidade, que acaba sendo incorporada aos indiv\u00edduos, classificando e organizando nossos h\u00e1bitos. A representa\u00e7\u00e3o de uma literatura que \u00e9 incorporada de forma nociva e desmerecedora da Hist\u00f3ria, na vis\u00e3o daqueles.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 mais interessante nessa nova onda de publica\u00e7\u00f5es sobre Hist\u00f3ria \u00e9 que chama a aten\u00e7\u00e3o para um novo comportamento: a democratiza\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria. Laurentino Gomes faz Hist\u00f3ria Pol\u00edtica &#8211; ao seu modo, jornalisticamente falando, mas faz. E, coincidencia ou n\u00e3o, uma Hist\u00f3ria Pol\u00edtica que em grande parte do s\u00e9culo XX padeceu no obscurantismo, renegada principalmente a partir dos anos 30 e 40, numa historiografia predominentemente francesa comandada por Marc Bloch e Lucien Febvre (que inauguraram a Escola dos Annales), passando por economistas como Ernest Labrousse, marxistas como Pierre Villar, ou no fundamento de la longue dure\u00e9 das estruturas de Fernand Braudel. <\/p>\n<p>E que tamb\u00e9m sofreu um novo golpe quando, em 1948, foi criada a &#8216;VI Se\u00e7\u00e3o da \u00c9cole Pratique des Hautes \u00c9tudes&#8217;, pelo mesmo Lucien Febvre. A hegemonia da Hist\u00f3ria Pol\u00edtica dava lugar \u00e0 ascens\u00e3o da Hist\u00f3ria dita &#8220;total&#8221;, de longa dura\u00e7\u00e3o, de estruturas movedi\u00e7as, onde os comportamentos coletivos tinham mais importancia do que as individualidades. Ou seja: o importante n\u00e3o era mais a &#8220;espuma da onda&#8221; e sim a onda, em sua totalidade, as profundezas de um oceano inexplorado pelos historiadores.<\/p>\n<p>Por ser confundida com a Hist\u00f3ria das Biografias, dos grandes reis e estadistas, presa na linha do tempo. Uma historia que os franceses confundiram com a histoire \u00e9v\u00e9nementielle ou historie bataille. Nos anos 60, com a aproxima\u00e7\u00e3o dessa linha de pensamento com o marxismo que ganhava for\u00e7a na Fran\u00e7a, a Hist\u00f3ria Pol\u00edtica, at\u00e9 mesmo como forma de protesto contra o Estado institu\u00eddo, passou a ser mais recha\u00e7ada ainda nos meios acad\u00eamicos.\u00a0Somente nos idos dos anos 80 come\u00e7ou a ser reabilitada por historiadores como Rene\u00e9 Remond, que inclusive soube bem expressar o sentimento pelo qual passava a Hist\u00f3ria Pol\u00edtica:<\/p>\n<p><i>&#8216;A realidade social \u00e9 mais rica, mais variada, complexa, do que se prop\u00f5em todos os sistemas de explica\u00e7\u00e3o.&#8217;<\/i><\/p>\n<p>Fatores ex\u00f3genos como a reabilita\u00e7\u00e3o do papel do Estado como interventor nas economias &#8211; principalmente ap\u00f3s o insucesso de algumas economias liberais, nos anos 80, aliados a uma repagina\u00e7\u00e3o da propria Hist\u00f3ria Pol\u00edtica, somada \u00e0 pluridisciplinaridade envolvendo esta a outros campos das ci\u00eancias (ci\u00eancia pol\u00edtica, sociologia, antropologia, lingu\u00edstica etc), fez com que uma renovada Hist\u00f3ria Pol\u00edtica surgisse.<\/p>\n<p>Justamente a falta de rigor no aprofundamento de quest\u00f5es, bem como a excessiva preocupa\u00e7\u00e3o com narrativas lineares, com a biografia de grandes estadistas e o inc\u00f4modo causado com a perspectiva da utiliza\u00e7\u00e3o de fontes superficiais, apontadas no decorrer do s\u00e9culo XX, podem ser tamb\u00e9m apontadas, para grande parte dos historiadores marxistas e ainda atrelados \u00e0 Hist\u00f3ria Social e Econ\u00f4mica, ao tipo de literatura que Laurentino Gomes torna a produzir.<\/p>\n<p>O livro reabilita personagens hist\u00f3ricos como D.Pedro I, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, a imperatriz Leopoldina, Marquesa de Santos e uma personagem at\u00e9 hoje desconhecida para grande parte dos brasileiros: o escoc\u00eas Lord Cochrane, almirante da Coroa Brit\u00e2nica que posteriormente virou mestre dos mares, mercen\u00e1rio e cors\u00e1rio &#8211; ate hoje odiado no Maranh\u00e3o por ter saqueado S\u00e3o Lu\u00eds. <\/p>\n<p>N\u00e3o reabilita no sentido extenso da palavra, mas sim joga novas luzes sobre essas personagens, trazendo-as para perto do leitor. Num efeito de compara\u00e7\u00e3o, \u00e9 interessante perceber o tratamento dado a D.Pedro I na produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica &#8220;Independ\u00eancia ou Morte&#8221; (1972) &#8211; auge do per\u00edodo militar no Brasil &#8211; mostrando um D.Pedro I sisudo, interpretado pelo ator Tarc\u00edsio Meira; e o D.Pedro I mulherengo, farrista (e fanfarr\u00e3o), da miniss\u00e9rie global &#8220;O quinto dos infernos&#8221;, j\u00e1 nos primeiros anos do s\u00e9culo XXI. <\/p>\n<p>O personagem de D.Pedro \u00e9 retratado de forma simples, por\u00e9m mais humanizada &#8211; acompanhando recentes trabalhos sobre o imperador, como &#8220;D.Pedro I, her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter&#8221;, de Isabel Lustosa, por exemplo. E reafirma tamb\u00e9m o resgate de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio que, fugindo de uma vis\u00e3o reducionista da hist\u00f3ria, como &#8220;Patrono da Independencia&#8221;, era inteligente e estrategista, indo beber na fonte da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa no per\u00edodo em que esteve estudando Mineralogia na Europa. A Imperatriz Leopoldina, da linhagem refinada dos Habsburgos austr\u00edacos, pode tambem ser considerada a &#8220;Matriarca da Independ\u00eancia&#8221;, j\u00e1 que partiu dela a carta lida por D. Pedro, em S\u00e3o Paulo, conclamando o ent\u00e3o pr\u00edncipe que fizesse a separa\u00e7\u00e3o entre Brasil e Portugal.<\/p>\n<p>O que mais se destaca em &#8220;1822&#8221; \u00e9 a forma f\u00e1cil e din\u00e2mica, n\u00e3o fixando apenas no assunto &#8220;Independ\u00eancia&#8221;, mas, fazendo-se uso de temas perif\u00e9ricos, conseguir levar ao leitor um panorama dos diversos fatores que motivaram o epis\u00f3dio da separa\u00e7\u00e3o entre Brasil e Portugal. E tamb\u00e9m o desenrolar dos acontecimentos, com \u00a0as revoltas e rebeli\u00f5es populares no p\u00f3s-independ\u00eancia. O leitor poder\u00e1 saber, por exemplo, que para os baianos, o sete de setembro n\u00e3o teve grande import\u00e2ncia e que somente a data de dois de julho de 1823, quando as tropas portuguesas foram expulsas de Salvador, corresponde, de fato, a independ\u00eancia do Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;1822&#8221; tem m\u00e9ritos ainda por poder proporcionar a uma vasta parcela da popula\u00e7\u00e3o brasileira, contato com uma cultura que infelizmente ainda passa ao largo de sua realidade. Num pa\u00eds que vota em Tiririca &#8211; e se orgulha em participar do &#8220;espet\u00e1culo das urnas&#8221; banalizando dessa forma o voto, mesmo que no final acabe n\u00e3o tendo consci\u00eancia de que \u00e9 o pr\u00f3prio palha\u00e7o, talvez &#8220;1822&#8221; seja o primeiro passo para o resgate de uma volta \u00e0s origens de nossa hist\u00f3ria para, quem sabe, saber lidar com o futuro e aprimorar o sentimento de cidadania.&#8221;<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De volta, de forma definitiva, temos a coluna &#8220;Hist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos&#8221;, assinada pelo historiador Fabr\u00edcio Gomes. 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