{"id":11634,"date":"2011-01-21T08:19:00","date_gmt":"2011-01-21T10:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/01\/cinecasulofilia-hereafter\/"},"modified":"2011-01-21T08:19:00","modified_gmt":"2011-01-21T10:19:00","slug":"cinecasulofilia-hereafter","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/01\/cinecasulofilia-hereafter\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Hereafter&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_KYflagr2MuI\/TTSkVNiYB5I\/AAAAAAAADNo\/XVaIYgv3x_s\/s1600\/hereafter-clint-eastwood.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"351\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/hereafter-clint-eastwood.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>De volta ap\u00f3s intervalo, a &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, nossa coluna sobre cinema, <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">publicada em parceria com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/p>\n<p>Hoje o tema \u00e9 o novo filme do cineasta Clint Eastwood. Como sempre, texto de autoria do cineasta, cr\u00edtico, professor de cinema e torcedor da Acad\u00eamicos de Santa Cruz Marcelo Ikeda.<\/p>\n<p><b>Al\u00e9m da Vida<\/b><br \/><span><i>de Clint Eastwood<\/i><\/span><\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 algo bonito sob a superf\u00edcie do projeto deste irregular Al\u00e9m da Vida. \u00c9 curioso como Clint Eastwood faz, em seguida, dois filmes mais brasileiros que os feitos no Brasil (ou ainda, filmes sobre o brasil): se Invictus era a melhor an\u00e1lise j\u00e1 feita sobre o Governo Lula, Al\u00e9m da Vida \u00e9 um filme n\u00e3o apenas sobre o movimento do espiritualismo no cinema brasileiro mas tamb\u00e9m sobre a insist\u00eancia de alguns diretores na narrativa paralela. Al\u00e9m da Vida \u00e9 \u2013 claramente, notadamente \u2013 um filme de concess\u00f5es: repleto de merchandisings (google, apple, servi\u00e7os de correio, etc.) e com concess\u00f5es ao espet\u00e1culo (a c\u00e9lere cena do tsunami, a produ\u00e7\u00e3o executiva de Steven Spielberg). Mas para al\u00e9m de tudo isso, o filme \u00e9, acima de tudo, um projeto de continuidade na filmografia desse mestre do cinema americano atual (numa certa medida, Al\u00e9m da Vida pode ser comparado com o novo filme do Woody Allen, mas n\u00e3o vou entrar nisso aqui).<\/p>\n<p>Mas como estava dizendo, e quero ir direto ao assunto, h\u00e1 algo bonito sob a superf\u00edcie do projeto deste irregular Al\u00e9m da Vida. \u00c9 muito curioso perceber que esse carrancudo diretor e ator de westerns tem se tornado cada vez mais um rom\u00e2ntico diretor de melodramas, ainda que seus filmes tenham a austeridade e a secura de um certo cinema americano. H\u00e1 um coment\u00e1rio sobre o papel de Eastwood quando Matt Damon tem uma admira\u00e7\u00e3o por Charles Dickens. Dickens, escritor popular, pouco avesso a arroubos de inova\u00e7\u00e3o de linguagem, mas um grande observador de sua \u00e9poca e fino prosador, pode ser visto como um dos \u00edcones de uma linguagem cl\u00e1ssica \u2013 h\u00e1 um belo texto do Eisenstein sobre isso, chamado \u201cDickens, Griffith e n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u201cp\u00e1ra-institucional do espiritismo\u201d se transforma nas m\u00e3os de Eastwood num filme de continuidade, com algumas cenas memor\u00e1veis. Uma delas \u00e9 quando, de olhos fechados, Dammon conhece melhor Bryce Dallas Howard, combinando confid\u00eancias, cegueira e paladar. Ver al\u00e9m, ou ainda, n\u00e3o querer ver \u2013 um belo tema para um filme. H\u00e1 um campo-contracampo estranho, progressivamente cada vez mais fechado, com diversas quebras de eixo.\u00a0<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Lembrei da linda cena de Marcas do Destino quando o menino deformado tenta mostrar para a mo\u00e7a cega o que s\u00e3o as cores atrav\u00e9s de coisas com temperaturas diferentes. Fazer cinema: encontrar circunst\u00e2ncias para encenar as coisas que v\u00e3o al\u00e9m dos di\u00e1logos. Al\u00e9m da Vida possui uma fotografia estranha, geralmente sombria, deixando os personagens na penumbra, mas indo al\u00e9m das conven\u00e7\u00f5es do sombrio como sobrenatural. Exemplo disso \u00e9 a melhor cena do filme, quando Dammon mostra a Dallas Howard seus poderes de vid\u00eancia. H\u00e1 algo de obsceno em ver demais. O cineasta \u00e9 amaldi\u00e7oado com esse dom, por meio do qual os oportunistas (seu irm\u00e3o) podem ganhar dinheiro. Mas Eastwood n\u00e3o quer \u201cver al\u00e9m\u201d, ele quer apenas encontrar o seu lugar no mundo, e isso me parece extremamente comovente.<\/p>\n<p>Mas estou me perdendo um pouco. O que quero dizer \u00e9 que, para al\u00e9m dos itens de institucional do espiritismo, do ve\u00edculo para alguns atores, do cinema-espet\u00e1culo, do mershandising discarado, Al\u00e9m da Vida d\u00e1 continudade ao cinema recente de Clint Eastwood porque \u00e9 essencialmente um filme sobre a import\u00e2ncia do encontro. O encontro: este tamb\u00e9m era o grande tema de Invictus. As melhores cenas de Invictus n\u00e3o s\u00e3o as do jogo (o espect\u00e1culo) mas sim quando os personagens se encontram (Morgan Freeman se encontrando com sua equipe e os demais funcion\u00e1rios logo ap\u00f3s assume o cargo, e especialmente o primeiro encontro entre Dammon e Freeman, filmado num elegante campo-contracampo de tirar o f\u00f4lego). O que mais o cinema pode querer filmar, \u201cdickenseanamente\u201d, a n\u00e3o ser duas pessoas que se encontram?<\/p>\n<p>Com oitenta anos completados, mais perto da morte do que da vida, Eastwood se interessa muito pouco pelo que h\u00e1 \u201cal\u00e9m da vida\u201d, e sim no que h\u00e1 agora, \u201cnesta vida\u201d. Como Manoel de Oliveira, Eastwood olha para o futuro, muito mais do que para o passado. Um dom ou uma maldi\u00e7\u00e3o? O que h\u00e1 de belo em Al\u00e9m da Vida \u00e9 como Eastwood se interessa muito mais pela vida e pelo futuro do que pela morte e pelo passado. Esse projeto afirmativo \u00e9 apresentado aqui num filme com poucas possibilidades, muito mais irregular que seus filmes anteriores, mas a sobriedade das op\u00e7\u00f5es de Eastwood, vide o belo final em que h\u00e1 um flashforward (ou apenas um desejo) \u2013, o que me lembrou de leve do final de N\u00e3o Amar\u00e1s \u2013 garante o interesse de Hereafter.<\/p>\n<p>Outra forma de ver a filmografia de Eastwood \u00e9 pensar como ele vem deixando de lado ser um cineasta do corpo para se tornar um m\u00fasico.&#8221;<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De volta ap\u00f3s intervalo, a &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, nossa coluna sobre cinema, publicada em parceria com o blog de mesmo nome. 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