{"id":11566,"date":"2011-03-13T09:27:00","date_gmt":"2011-03-13T11:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/03\/sobretudo-rodolfo-e-o-antimomo-em-pinheiros\/"},"modified":"2011-03-13T09:27:00","modified_gmt":"2011-03-13T11:27:00","slug":"sobretudo-rodolfo-e-o-antimomo-em-pinheiros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/03\/sobretudo-rodolfo-e-o-antimomo-em-pinheiros\/","title":{"rendered":"Sobretudo &#8211; &quot;Rodolfo e o Antimomo em Pinheiros&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/-rm16-EzurFw\/TXqUPX2QrXI\/AAAAAAAADZM\/dz9dfh3Goak\/s1600\/tango_san_telmo.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"261\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/tango_san_telmo.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Mais um domingo, p\u00f3s carnaval, e mais uma coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, de autoria do publicit\u00e1rio Affonso Romero.<\/p>\n<p><i><b>Rodolfo e o Antimomo em Pinheiros<\/b><\/i><\/p>\n<p>Dizem que o tango nasceu em San Telmo, antigo bairro bo\u00eamio de Buenos Aires. Os uruguaios, provocativos, dizem que o tango nasceu na outra margem do Rio da Prata e s\u00f3 se tornou argentino aos olhos do mundo porque foram os portenhos que deram fama \u00e0 m\u00fasica dan\u00e7ada nos cabar\u00e9s portu\u00e1rios por casais masculinos de marujos atracados em ambas os lados do grande rio.<\/p>\n<p>Seja como for, al\u00e9m da vers\u00e3o uruguaia &#8211; em que at\u00e9 Gardel teria nascido em Montevideo &#8211; h\u00e1 umas trezentas lendas argentinas para a g\u00eanese do tango. Muitas, provavelmente a maioria delas, apontam para o bairro de San Telmo e suas vielas, seu casario baixo e sua ilumina\u00e7\u00e3o fugidia.<\/p>\n<p>San Telmo tem a apar\u00eancia pouco mudada desde ent\u00e3o. Mesmo o colorido tur\u00edstico dos domingos de sol na feirinha de antiguidades da Plaza Dorego mal esconde a hist\u00f3ria s\u00e9pia que escorre dos becos do bairro.<\/p>\n<p>Sabe o que \u00e9 velho tango, amigo? O tango, aquele que est\u00e1 presente nos gastos ecos que cruzaram as d\u00e9cadas desde antes de Gardel, desde muito antes de ter atravessado o Atl\u00e2ntico at\u00e9 Paris e voltar triunfante a Baires; o tango sem letra, pura melodia tocada por poucos instrumentos r\u00fasticos; a can\u00e7oneta francesa do bandone\u00f3n criollo que se encontrou com o esp\u00edrito marcial e her\u00f3ico dos pampas, cruzando com o tr\u00e1gico, o melanc\u00f3lico e o fat\u00eddico hisp\u00e2nico; aquele que se encantou com as redondilhas e afrescos da heran\u00e7a moura e traduziu em si a alma de uma cidade, tem seu retrato perfeito nas sombras de San Telmo.<\/p>\n<p>E digo mais: o velho tango est\u00e1 impresso na poeira que se esconde entre os paralelep\u00edpedos das estreitas e abandonadas ruas que cruzam a Calle Defensa. Enquanto isso, Piazzolla e o neo-tango levitam na fuma\u00e7a dos carros que passam c\u00e9leres pela Nove de Julio, a avenida superlativa, s\u00edmbolo de uma Argentina que nem chegou a ser, e que rasgou em dois o antigo San Telmo, cruzando o Centro e arrastando at\u00e9 o Retiro o p\u00f3 do casario decadente da primeira metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a diferen\u00e7a do antigo para o novo em Buenos Aires, onde o novo tamb\u00e9m j\u00e1 virou passado e o p\u00f3s-moderno brota nos pared\u00f5es de vidro da nov\u00edssima arquitetura de Puerto Madero ao som do eletro-tango.<\/p>\n<p>A Argentina se reinventa h\u00e1 tempos, com maior ou menor fracasso, aceitando-se mal entre o antigo, o novo e o nov\u00edssimo e, no fim, \u00edmpar e \u00fanica aos olhos atentos de um forasteiro. Talvez mesmo por isso, foram sempre os estrangeiros que redescobriram a cultura portenha e a devolveram aos argentinos em forma de algo aceit\u00e1vel e referendado pelo \u201cbom gosto\u201d alheio. Conseguem ser, os argentinos, dubiamente, mais at\u00e1vicos, orgulhosos, megal\u00f4manos e&#8230; colonizados do que n\u00f3s, brasileiros. E tamb\u00e9m donos, apesar de tudo (ou, quem sabe, por conta disso) de uma cultura forte, farta, \u00fanica, bela e surpreendente. Como um tango: mais que um estilo musical, um estilo de vida, um sentimento, uma maneira particular de ser.<\/p>\n<p>Buenos Aires tamb\u00e9m \u00e9 como um tango. Al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es \u00f3bvias, como a melancolia latente at\u00e9 no sorriso e no afeto, Baires \u00e9 hoje multifacetada, ainda que singular, como igualmente o tango enveredou por tantos caminhos, e continua a ser tango.<\/p>\n<p>Pensava nisso tudo na quinta-feita, antev\u00e9spera de Carnaval. Em S\u00e3o Paulo, precisamente, v\u00e9spera, porque aqui as Escolas de Samba chegaram depois, mas desfilam antes. Antimomo que sou, gosto dos dias em casa, do descanso, e sou incapaz de me imaginar de dedinhos levantados ao c\u00e9u, pulando, sambando ou desfilando. J\u00e1 contei isso aqui, e n\u00e3o vou estragar seu esp\u00edrito carnavalesco com argumentos t\u00e3o pessoais, afinal.<\/p>\n<p>Mas permita-me contar que, bem na v\u00e9spera do carnaval, pensava em tango, ouvia tango, sonhava acordado tangos e mais tangos, na companhia da minha esposa, de uma grande plat\u00e9ia brasileira, uma not\u00e1vel orquestra brasileira e um de meus m\u00fasicos favoritos, um \u00eddolo, um sujeito capaz de me revirar por dentro de emo\u00e7\u00e3o com sua arte: o bandeolonista Rodolfo Mederos.<\/p>\n<p>O concerto deu-se no teatro Paulo Autran, do SESC Pinheiros. A Orquestra Municipal de S\u00e3o Paulo, sob reg\u00eancia do maestro Marcelo Ghelfi, recebeu o m\u00fasico argentino para homenagear os 90 anos de nascimento de Astor Piazzolla com um programa inteiramente dedicado ao compositor e m\u00fasico falecido em 1992. <\/p>\n<p>Foi Piazzolla quem primeiro quebrou com o tradicionalismo do tango. M\u00fasico prod\u00edgio, estudou na Europa e, na volta, adicionou elementos da m\u00fasica erudita e do jazz ao seu trabalho, recebendo uma saraivada de cr\u00edticas em sua terra,\u00a0sendo popular demais para ser aceito entre os acad\u00eamicos e, ao mesmo tempo, sofisticado demais para ser aceito nas r\u00e1dios e casas noturnas. Sem espa\u00e7o, refugiou-se novamente no exterior, de onde seu retumbante sucesso repercutiu na cultura argentina. De certa forma, como j\u00e1 acontecera antes com Gardel e o tango-can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas Piazzolla foi mais longe na inova\u00e7\u00e3o e eu me permitiria a ousadia de dizer que a aceita\u00e7\u00e3o do tango como grande m\u00fasica, entre audi\u00f3filos e musicistas de todo o mundo, se d\u00e1 pelas suas m\u00e3os mais do que pela colabora\u00e7\u00e3o de qualquer outro tangueiro, tradicional ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, numa vis\u00e3o muito pessoal, Adi\u00f3s Nonino \u00e9 a partitura mais emocionante jamais escrita, e o que tem me ajudado a me curar da estranha mania de chorar a cada vez que eu a ou\u00e7o \u2013 n\u00e3o importando a ocasi\u00e3o ou lugar \u2013 \u00e9 a renova\u00e7\u00e3o emocional que sinto a cada vez que \u201cdescubro\u201d (na verdade, passo a dar aten\u00e7\u00e3o especial, sou tocado) uma \u201cnova\u201d can\u00e7\u00e3o do Piazzolla. J\u00e1 passei pelas fases do Invierno Porteno, da Balada do Loco e, agora, estou parado em Oblivion. Cada uma dessas m\u00fasicas, em determinada fase, ocupa o lugar de \u201csom-que-faz-o-Affonso-chorar-\u00e0-t\u00f4a-sem-aparente-raz\u00e3o\u201d em substitui\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria a Nonino.<\/p>\n<p>Rodolfo Mederos tocou com Piazzolla e cruzou com diversas sonoridades do tango at\u00e9 voltar \u00e0s origens do ritmo na fase atual de sua carreira. \u00c9 o maior m\u00fasico vivo do tango. Curiosamente, n\u00e3o \u00e9 um nome conhecido por qualquer popular nas ruas da Argentina. O tango, t\u00e3o recusado pela elite portenha num primeiro momento, a m\u00fasica portu\u00e1ria que as boas fam\u00edlias fingiam n\u00e3o ouvir, \u00e9 hoje uma m\u00fasica rara nas r\u00e1dios e televis\u00f5es, mas aclamada e louvada nas salas de concerto. V\u00e1 entender&#8230;<\/p>\n<p>Mederos \u00e9 uma esp\u00e9cie de s\u00edmbolo, um \u00faltimo basti\u00e3o do tango, e tem dedicado grande parte de seu tempo \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de novas gera\u00e7\u00f5es de m\u00fasicos, na gesta\u00e7\u00e3o de novas orquestras tradicionais e no estudo e divulga\u00e7\u00e3o da m\u00fasica portenha. Para quem o ouve, principalmente em apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo, ele \u00e9 uma estrela que pulsa emo\u00e7\u00e3o, lirismo e perfei\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Eu poderia dizer por mim mesmo, mas digo pela express\u00e3o estampada nos olhos das plat\u00e9ias: Rodolfo Mederos arrebata os cora\u00e7\u00f5es com sua m\u00fasica.<\/p>\n<p>Isso sem falar em sua gentileza, sua eleg\u00e2ncia e na gra\u00e7a de suas hist\u00f3rias e gags pessoais, como a avers\u00e3o a beber \u00e1gua (\u201cisso oxida navios, o que far\u00e1 com meu est\u00f4mago\u201d), a vers\u00e3o para o que sua m\u00e3e falou dos novos arranjos para velhos tangos (\u201ccomo asi, estaban desarranglados?&#8221;) ou sua motiva\u00e7\u00e3o para dedicar-se ao bandone\u00f3n desde os 5 anos de idade (\u201cn\u00e3o foram os arpejos, escalas e exerc\u00edcios que me trouxeram at\u00e9 aqui, foram aqueles tangos que eu ouvia no r\u00e1dio, e que tentava reproduzir de uma forma selvagem\u201d).<\/p>\n<p>Aos 70 anos de idade (\u00e0s v\u00e9speras de completar 71), Mederos tem o mesmo brilho nos olhos que devia ter aos 5 e, por isso mesmo, faz brilhar os cora\u00e7\u00f5es daqueles que o escutam. Sua m\u00fasica \u00e9 visual, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o ver nele cada paisagem de Buenos Aires. E foi em meio disso tudo que eu me peguei pensando em tudo aquilo que escrevi nos primeiros par\u00e1grafos desta coluna. N\u00e3o porque me fugisse a aten\u00e7\u00e3o, mas porque cada nota de cada obra me mergulhava mais e mais nestes sentimentos caleidosc\u00f3picos que s\u00f3 mais tarde, na volta para casa, eu pude racionalizar.<\/p>\n<p>O programa teve Fuga y Misterio, Oblivion, Luz y Sombra, Milonga del Angel, Concerto Aconcagua para Bandoneon e Orquestra (inteiro, em 3 movimentos), Adios Nonino e Revirado (duo de piano e bandoneon nestas duas \u00faltimas). No bis, Por Uma Cabeza (a \u00fanica da noite n\u00e3o composta por Piazzolla) e, mais uma vez, Oblivion e o terceiro movimento do Aconcagua. A noite n\u00e3o acabou sem uma terceira interpreta\u00e7\u00e3o de Oblivion.<\/p>\n<p>No breve intervalo entre a primeira parte da apresenta\u00e7\u00e3o e o bis, Marcelo Ghelfi se viu obrigado a explicar a atual situa\u00e7\u00e3o da Orquestra Municipal de S\u00e3o Paulo, da qual ele se despedia naquela noite. Uma calamidade regada a descaso com a cultura, incompet\u00eancia administrativa, falta de vis\u00e3o art\u00edstica, politicagem e desrespeito aos m\u00fasicos, ao p\u00fablico, aos contribuintes e\u00a0\u00e0 hist\u00f3ria da Orquestra e do Teatro Municipal, a casa que\u00a0a hospeda. Seria uma nota triste, n\u00e3o fosse tamb\u00e9m a rar\u00edssima oportunidade de ouvir um maestro, em cena aberta, na corajosa defesa da cultura e dos m\u00fasicos sob seu comando. Bravo, Marcelo!<\/p>\n<p>Para coroar a grande noite, Mederos autografou no foyer do teatro os CDs que estavam ali \u00e0 venda. Comprei \u201cEterno Buenos Aires\u201d (com conjunto tradicional, de 1999) e \u201cTangos\u201d (duo de bandoneon com o viol\u00e3o de Nicolas Brizuela, de 2000) que eu voltei ouvindo no carro, e \u00e9 excelente.<\/p>\n<p>Carnaval? Bem, o mesmo SESC Pinheiros promoveu uma s\u00e9rie de shows de jazz durante estes dias. Mas eu preferi descansar em minha cama. Quem sabe, escrever outras colunas, para ter uma sobra e deixar menos furos com o Mig\u00e3o e com o amigo leitor <i>[N.doE.: continuo esperando]<\/i>. E voltei \u00e0 toda na quinta-feira \u201cde cinzas\u201d, que \u00e9 o primeiro dia de uma s\u00e9rie de quatro shows at\u00e9 hoje para os quais eu j\u00e1 tinha ingressos, e que devo comentar aqui logo em seguida. At\u00e9 l\u00e1.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um domingo, p\u00f3s carnaval, e mais uma coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, de autoria do publicit\u00e1rio Affonso Romero. 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