{"id":11507,"date":"2011-04-26T08:49:00","date_gmt":"2011-04-26T10:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/04\/a-inflacao-aleija-mas-o-cambio-mata\/"},"modified":"2011-04-26T08:49:00","modified_gmt":"2011-04-26T10:49:00","slug":"a-inflacao-aleija-mas-o-cambio-mata","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/04\/a-inflacao-aleija-mas-o-cambio-mata\/","title":{"rendered":"A infla\u00e7\u00e3o aleija, mas o c\u00e2mbio mata"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-raEjj5ZoVn4\/TbXemJxRjAI\/AAAAAAAADgE\/hUXHYoa7JPA\/s1600\/mario-henrique-simonsen-ministro-da-fazenda-1976.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"270\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/mario-henrique-simonsen-ministro-da-fazenda-1976.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>N\u00e3o sou exatamente um f\u00e3 das teses defendidas pelo economista e ex-Ministro M\u00e1rio Henrique Simonsen (foto, quando Ministro em 1976). Mas tenho de admitir que dentro de sua linha te\u00f3rica e ideol\u00f3gica (com a qual decididamente n\u00e3o comungo) era um pensador e formulador brilhante.<\/p>\n<p>Uma de suas frases mais famosas ilustra exatamente o momento atual da economia brasileira: &#8220;a infla\u00e7\u00e3o aleija, mas o c\u00e2mbio mata&#8221;. Refiro-me \u00e0 tal assertiva ap\u00f3s mais uma eleva\u00e7\u00e3o de juros b\u00e1sicos &#8211; Taxa Selic &#8211; por parte do Banco Central na v\u00e9spera do \u00faltimo feriad\u00e3o, dia 20. Sob intensa press\u00e3o do mercado financeiro, mais uma vez preocupado em garantir seus b\u00f4nus de final de ano e remunerar a turma dos extratos mais altos a taxa foi elevada para 12% ao ano.<\/p>\n<p>Mais uma vez, a alega\u00e7\u00e3o foi de que haveriam novas &#8220;press\u00f5es inflacion\u00e1rias&#8221; que levariam a taxa anual para al\u00e9m do extremo da meta do \u00edndice. <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2011\/01\/taxa-selic-de-novo.html\">Escrevi aqui anteriormente<\/a> que tais press\u00f5es, por ex\u00f3genas, n\u00e3o s\u00e3o combatidas com a simples eleva\u00e7\u00e3o da Taxa Selic. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o Banco Central vem empreendendo uma s\u00e9rie de outras medidas para o controle da infla\u00e7\u00e3o, tais como o compuls\u00f3rio dos dep\u00f3sitos banc\u00e1rios e a eleva\u00e7\u00e3o do IOF (Imposto sobre Opera\u00e7\u00f5es Financeiras). A atividade econ\u00f4mica vem dando sinais de arrefecimento e os efeitos sazonais que propiciaram o repique inflacion\u00e1rio j\u00e1 come\u00e7am a refluir. Ou seja, uma eleva\u00e7\u00e3o dos juros era exatamente desnecess\u00e1ria: ao contr\u00e1rio, uma redu\u00e7\u00e3o poderia ser considerada haja visto que os fatores causadores do aumento dos pre\u00e7os, como escrevi anteriormente, n\u00e3o eram afetados pelo aumento da taxa de juros.<\/p>\n<p>Entretanto, sob intensa press\u00e3o do mercado financeiro e de setores da imprensa (a servi\u00e7o de outros interesses) houve esta eleva\u00e7\u00e3o de 0,25 ponto percentual. Tal eleva\u00e7\u00e3o n\u00e3o satisfez o mercado financeiro dentro de sua vis\u00e3o estreita e que ignora os setores da economia real, que exigiam ao menos meio ponto percentual, mas representa uma concess\u00e3o significativa aos interesses destes grupos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m como j\u00e1 expliquei aqui anteriormente, em mais de uma ocasi\u00e3o, tal eleva\u00e7\u00e3o torna ainda mais dram\u00e1tica a quest\u00e3o do c\u00e2mbio. Tal eleva\u00e7\u00e3o aumenta o diferencial entre as taxas de juros internas e externas e, por isso, aumenta a entrada de d\u00f3lares no mercado interno &#8211; o que aprecia o c\u00e2mbio, tornando mais valorizado ainda o real. Ou seja, o &#8220;pre\u00e7o&#8221; do d\u00f3lar cai ainda mais &#8211; bancos j\u00e1 falam em uma taxa de c\u00e2mbio de R$ 1,32 por d\u00f3lar, o que seria bem abaixo da j\u00e1 atual apreciada taxa de R$ 1,57 &#8211; e longe de uma taxa considerada equilibrada de R$ 2,15.<\/p>\n<p>E por que a frase do t\u00edtulo?<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno inflacion\u00e1rio \u00e9 algo bastante danoso \u00e0 economia se for descontrolado, contudo n\u00e3o impacta diretamente na estrutura produtiva do pa\u00eds. \u00c9 mais uma esp\u00e9cie de &#8220;imposto regressivo&#8221; que concentra renda e desarticula a estrutura de pre\u00e7os relativos e de investimentos do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, uma taxa de infla\u00e7\u00e3o de 6% ao ano \u00e9 perfeitamente administr\u00e1vel. Ou seja, a infla\u00e7\u00e3o pode aleijar uma economia, mas n\u00e3o a destr\u00f3i.<\/p>\n<p>Todavia, tal racioc\u00ednio n\u00e3o pode se aplicar ao c\u00e2mbio. Uma certa aprecia\u00e7\u00e3o da moeda \u00e9 utilizada muitas vezes no combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, utilizando-se da competitividade ganha pelos produtos importados para servir como uma esp\u00e9cie de &#8220;controle indireto&#8221; de pre\u00e7os. O problema \u00e9 que, apreciado da forma em que est\u00e1, come\u00e7a a haver um fen\u00f4meno claro de &#8220;desindustrializa\u00e7\u00e3o&#8221; da economia nacional: as empresas deixam de fabricar aqui no pa\u00eds para importar e, muitas vezes, colocar apenas sua marca. Em v\u00e1rios setores da economia brasileira este fen\u00f4meno j\u00e1 ocorre, em especial naqueles que sofrem concorr\u00eancia mais acirrada dos produtos chineses. <\/p>\n<p>Ainda com algumas tarifas aduaneiras a fim de equilibrar a concorr\u00eancia com o produto nacional os chineses se beneficiam, al\u00e9m de nosso c\u00e2mbio valorizado, do yuan (moeda chinesa) desvalorizado e de um regime trabalhista muitas vezes semi-escravo. Por outro lado, as empresas brasileiras recebem menos d\u00f3lares por seus produtos para exporta\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo seus custos de produ\u00e7\u00e3o na moeda norte-americana se tornam mais altos que o das concorrentes externas.<\/p>\n<p>A se continuar a aprecia\u00e7\u00e3o do real, o quadro extremo &#8211; mas poss\u00edvel &#8211; \u00e9 de desindustrializa\u00e7\u00e3o, com o fechamento de milhares de empresas e um quadro correspondente e consequente de desemprego e recess\u00e3o. Toda uma evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de aproximadamente oitenta anos pode ir por \u00e1gua abaixo em poucos anos, voltando-se no caso extremo ao patamar de exportador de produtos prim\u00e1rios e importador de manufaturas. Tal situa\u00e7\u00e3o seria absolutamente catastr\u00f3fica \u00e0 economia brasileira.<\/p>\n<p>O risco existe e \u00e9 real. Urge medidas de redu\u00e7\u00e3o do diferencial entre as taxas de juros externas e internas a fim de reduzir a valoriza\u00e7\u00e3o do real e impedir consequ\u00eancias como desindustrializa\u00e7\u00e3o, desemprego e recess\u00e3o. As medidas de conten\u00e7\u00e3o adotadas at\u00e9 agora revelaram-se t\u00edmidas, pois a lucratividade de nossas taxas internas supera as penaliza\u00e7\u00f5es adotadas.<\/p>\n<p>Por isso que, como dizia o economista, &#8220;a infla\u00e7\u00e3o aleija, mas o c\u00e2mbio mata&#8221;. A primeira desorganiza a economia mas n\u00e3o leva \u00e0 extin\u00e7\u00e3o de setores internos. A segunda arrasa com setores inteiros da estrutura, e olha que n\u00e3o estou falando das consequ\u00eancias sobre o balan\u00e7o de pagamentos.<\/p>\n<p>Voltarei ao tema.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou exatamente um f\u00e3 das teses defendidas pelo economista e ex-Ministro M\u00e1rio Henrique Simonsen (foto, quando Ministro em 1976). 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