{"id":11450,"date":"2011-06-08T08:51:00","date_gmt":"2011-06-08T10:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/06\/historia-outros-assuntos-sao-joao-a-mais-brasileira-das-festas\/"},"modified":"2011-06-08T08:51:00","modified_gmt":"2011-06-08T10:51:00","slug":"historia-outros-assuntos-sao-joao-a-mais-brasileira-das-festas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/06\/historia-outros-assuntos-sao-joao-a-mais-brasileira-das-festas\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria &amp; Outros Assuntos: &quot;S\u00e3o Jo\u00e3o: a mais brasileira das festas&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-PRVoIRHBHDI\/TejnwkSWblI\/AAAAAAAADlE\/g99lXEVdcCg\/s1600\/FestaJunina01.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/FestaJunina01.jpg\" width=\"400\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Nesta quarta feira em que respiro os ares do Nordeste- ok, melhor dizer que s\u00e3o os &#8220;ares condicionados&#8221; de uma sala de reuni\u00e3o, mas ainda assim no Nordeste &#8211; a coluna &#8220;Hist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos&#8221;, assinada pelo Mestre em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio Gomes, conta um pouco da origem de uma tradi\u00e7\u00e3o brasileir\u00edssima e, especialmente, nordestina: as festas juninas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>S\u00e3o Jo\u00e3o: a mais brasileira das festas<\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Antes de iniciar mais um artigo neste Ouro de Tolo, gostaria de mais uma vez parabenizar o idealizador e gestor do blog pela iniciativa de manter esse importante recurso de informa\u00e7\u00e3o e cultura. H\u00e1 dois anos, quando fui convidado para escrever neste espa\u00e7o, n\u00e3o imaginava o tamanho do sucesso que este empreendedorismo seria capaz de ter.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O blog cresceu e se transformou num ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o, com variadas opini\u00f5es sobre os mais diversos assuntos. Democracia \u00e9 isso a\u00ed: permitir que todos se manifestem e atrav\u00e9s do debate civilizado, proporcionar que novos temas sejam levantados, que novas id\u00e9ias e aprendizados aconte\u00e7am. Parab\u00e9ns ao Ouro de Tolo e ao Pedro Mig\u00e3o, seu criador.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Aproveitando que neste m\u00eas de junho ir\u00e3o ocorrer as tradicionais festas juninas nos quatro cantos do nosso pa\u00eds, que tal entendermos o surgimento dessa festividade e mais ainda: entender como ela veio parar no Brasil, se adaptar aos nossos costumes e se tornar uma das mais brasileiras das festas?<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>\u201cAcende a fogueira, Jo\u00e3o nasceu!\u201d<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para quem pensa que essa \u00e9 a ordem pra come\u00e7ar uma festa junina, trata-se apenas do comunicado feito por Isabel, na ocasi\u00e3o que seu filho Jo\u00e3o nasceu, em 24 de junho. Essa foi a forma que Isabel encontrou para avisar sua prima, Maria, do nascimento de seu filho: o fogo. Maria que, por sinal, tamb\u00e9m estava gr\u00e1vida e que, em seis meses, tamb\u00e9m daria a luz a um menino. Mas a\u00ed j\u00e1 \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Jo\u00e3o era primo de Jesus e o h\u00e1bito de batizar as pessoas nas \u00e1guas do Rio Jord\u00e3o adicionou a ele o nome \u201cBatista\u201d. Jo\u00e3o Batista.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Jo\u00e3o Batista ganhou rever\u00eancias no catolicismo, tanto que hoje, \u00e9 o \u00fanico santo a ser lembrado n\u00e3o por sua morte, mas por seu nascimento, compartilhando com Jesus essa primazia. Tanto que o calend\u00e1rio crist\u00e3o \u00e9 demarcado justamente pelo nascimento dos dois, exatamente no intervalo de seis meses: Jesus (dezembro-junho) e Jo\u00e3o Batista (junho-dezembro).\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas havia mais explica\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s dessa divis\u00e3o. A Igreja vinha se esfor\u00e7ando desde o s\u00e9culo XIV para doutrinar a popula\u00e7\u00e3o da Europa Ocidental, ainda muito acostumada a rituais pr\u00e9-crist\u00e3os, como os cultos solares e lunares associados \u00e0 vida agr\u00edcola. Na Europa, a diferen\u00e7a entre as esta\u00e7\u00f5es \u00e9 marcada por um contraponto: o solst\u00edcio de ver\u00e3o \u2013 dia com maior dura\u00e7\u00e3o da luminosidade do sol (21 de junho) \u2013, e seis meses depois, o solst\u00edcio de inverno \u2013 dia menos beneficiado pela luz solar (21 de dezembro).\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entre os mais importantes cultos solares, registrava-se por todo o continente a queima noturna de fogueiras no solst\u00edcio de ver\u00e3o, para festejar a vit\u00f3ria da luz e do calor sobre a escurid\u00e3o e o frio. A Igreja Cat\u00f3lica adotou esses marcos c\u00f3smicos, atribuindo aos primos Jo\u00e3o e Jesus dois momentos de honra para seus nascimentos: o primeiro, perto do solst\u00edcio de ver\u00e3o; o segundo, perto do solst\u00edcio de inverno. Era uma maneira de dar novo significado \u00e0s pr\u00e1ticas pag\u00e3s relativas ao fogo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por outro lado, havia resist\u00eancia \u00e0s fogueiras, que representavam a perdi\u00e7\u00e3o, al\u00e9m das festas serem consideradas como libertinagem sexual, sendo perseguidas pelos monges e bispos que desejavam acabar com os ritos pr\u00e9-crist\u00e3os. Estavam todos diante de um desafio: como transpor o simbolismo gerado pelo fogo e sua representatividade carnal?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Foi no Conc\u00edlio de Trento (1545-1563) que a Igreja chegou a uma solu\u00e7\u00e3o: as fogueiras do solst\u00edcio passaram a ser admitidas como \u201cfogos eclesi\u00e1sticos\u201d. Para isso, as supersti\u00e7\u00f5es foram eliminadas, e a fogueira, antes a encarna\u00e7\u00e3o do pecado, passou a ser sin\u00f4nimo de purifica\u00e7\u00e3o \u2013 e justamente por isso passou a ser usada nos rituais da inquisi\u00e7\u00e3o: queimava-se o pecador, acreditando que com isso, ele seria libertado do pecado e das impurezas da alma.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entretanto, a popula\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia n\u00e3o associava a festa do fogo e da luz a S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. Mas na Am\u00e9rica Portuguesa, essa associa\u00e7\u00e3o vingou, gra\u00e7as ao trabalho dos jesu\u00edtas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em 1584, Fern\u00e3o Cardim, em \u201cO Tradado da Gente e da Terra do Brasil\u201d, escreveu que\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>\u201c&#8230;Tr\u00eas festas celebram estes \u00edndios com grande alegria, aplauso e gosto particular. A primeira \u00e9 as fogueiras de S\u00e3o Jo\u00e3o, porque suas aldeias ardem em fogos, e para saltarem as fogueiras s\u00e3o os estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro\u201d<\/i>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os nativos ficavam em alvoro\u00e7o com as fogueiras, as luzes e os fogos de artif\u00edcio. E com isso, o fogo aproximava os \u00edndios aos religiosos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Segundo Frei Vicente de Salvador, em sua \u201cHist\u00f3ria do Brasil\u201d, escrita em 1627,<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>\u201c&#8230; (os \u00edndios) s\u00f3 acodem com muita vontade nas festas em que h\u00e1 alguma cerim\u00f4nia, porque s\u00e3o mui amigos de novidades, como no dia de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, por causa das fogueiras e capelas\u201d.<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O franc\u00eas Jean de L\u00e9ry conheceu os tupinamb\u00e1s no s\u00e9culo XVI e acompanhou uma festa na aldeia em que usavam<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>\u201cuma vara de madeira (&#8230;) em cuja extremidade ardia um chuma\u00e7o de petum (tabaco) e voltavam-na acesa para todos os lados soprando a fuma\u00e7a contra os selvagens (os cara\u00edbas)\u201d<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nas cidades, a festa de S\u00e3o Jo\u00e3o atuou como liga\u00e7\u00e3o dos principais eixos da vida social: as ruas e as igrejas. Nos dias santos, as cidades se iluminavam e o ch\u00e3o das ruas era decorado. Todos iam \u00e0s igrejas, para verem e serem vistos, e para conversar. A festa era palco de tens\u00f5es pol\u00edticas e sociais. Adivinha\u00e7\u00f5es, batismos e casamentos de fogueira desagradavam \u00e0s autoridades.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No final do s\u00e9culo XVII, o arcebispo da Bahia editou uma vers\u00e3o local das decis\u00f5es do Conc\u00edlio de Trento na qual recomendava \u201caos padres e outras pessoas que cuidam das igrejas\u201d que \u201celas sejam por ocasi\u00e3o destas noites bem iluminadas, e que eles sejam vigilantes para que no seu interior n\u00e3o haja motivo de esc\u00e2ndalo\u201d. Por precau\u00e7\u00e3o, as rezas, missas e vig\u00edlias de vel\u00f3rios foram suspensas \u00e0 noite. Tudo passou a ser estritamente vigiado de modo a n\u00e3o permitir excessos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os fogos de artif\u00edcio e as fogueiras estavam proibidos desde 1641, em ordem que seria constantemente renovada, atravessando at\u00e9 mesmo o s\u00e9culo XX. E constantemente desrespeitada. Mas volta e meia era tudo desrespeitado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em 1769, o Santo Of\u00edcio condenou uma mulher \u00e0 morte por predizer casamentos, em noite de S\u00e3o Jo\u00e3o, s\u00f3 por olhar contornos do desenho feito pela clara de um ovo quebrado, dentro do copo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em 1808, com a chegada da Fam\u00edlia Real portuguesa, a festa ganhou novos contornos e um elemento adicional foi trazido: a dan\u00e7a de quadrilha. A Corte trouxe de Portugal h\u00e1bitos festivos, dan\u00e7as e celebra\u00e7\u00f5es urbanas e religiosas. A quadrilha junina foi institucionalizada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas quem pensa que essa se restringia apenas ao m\u00eas de junho, est\u00e1 enganado. A quadrilha animava tamb\u00e9m os carnavais e era apreciada nos c\u00edrculos sociais da monarquia. D.Pedro II era um habitu\u00e9e dessa dan\u00e7a.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica em 1889, a quadrilha deixou de ser vista nos centros urbanos. E com o crescimento da industrializa\u00e7\u00e3o e das migra\u00e7\u00f5es em massa do interior, nos anos 1950 e 1960, essa dan\u00e7a festiva retornou \u00e0s cidades.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas vejam s\u00f3 que ironia do destino: ao inv\u00e9s dos nobres de outrora, agora eram os matutos e os caipiras que dan\u00e7avam! Novos atores sociais povoariam daquela \u00e9poca em diante, o folclore popular da festa. O s\u00edmbolo do homem do interior, com seus tra\u00e7os, suas roupas e seus trejeitos, assumiu lugar central na festa de S\u00e3o Jo\u00e3o, mas rotulada pelo olhar das cidades, seguindo uma tradi\u00e7\u00e3o que vem desde o Jeca Tatu de Monteiro Lobato,  esbo\u00e7ada no livro Urup\u00eas (1918) e consolidada na propaganda do Biot\u00f4nico Fontoura.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outros personagens refor\u00e7ariam essa imagem, como o Jeca Tatu dos filmes de Mazzaropi e o Chico Bento, criado em 1961 pelo cartunista Maur\u00edcio de Souza. Caracterizado com tra\u00e7os positivos de ingenuidade e o bom cora\u00e7\u00e3o, o homem do interior \u00e9 considerado \u201cmais puro\u201d que o da capital. Ele representa a nostalgia e a idealiza\u00e7\u00e3o do passado dos migrantes que hoje vivem nas cidades.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entretanto, a homenagem n\u00e3o chega a alterar sua posi\u00e7\u00e3o na estrutura social: depois da festa, ningu\u00e9m deseja assumir aquela caricatura. \u00c9 como se a idolatria da caricatura durasse apenas o per\u00edodo junino: no m\u00eas de junho, \u00e9 \u201cda moda\u201d se vestir de caipira, mas passados os trinta dias, reassume a figura urbana e o caipira \u00e9 novamente confundido com o &#8220;atraso&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Bibliografia recomendada:<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>CARDIM, Fern\u00e3o. Tratados da Gente e da Terra do Brasil. Belo Horizonte\/S\u00e3o Paulo: Itatiaia\/ Edusp, 1980.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>CASCUDO, Lu\u00eds da C\u00e2mara. Dicion\u00e1rio do Folclore Brasileiro. Belo Horizonte\/S\u00e3o Paulo: Itatiaia\/Edusp, 1988.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>CHANCA, Luciana. A festa do interior. Natal: EDUFRN, 2006.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>_______________. \u201cPula a fogueira, Jo\u00e3o!\u201d. Revista de Hist\u00f3ria da Biblioteca Nacional. 1.06.2009.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>DEL PRIORE, Mary. Festas e utopias no Brasil Colonial. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1994.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>MELO MORAES FILHO, Alexandre Jos\u00e9 de. Festas e Tradi\u00e7\u00f5es Populares no Brasil. Belo Horizonte\/S\u00e3o Paulo: Itatiaia\/Edusp, 1979.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta quarta feira em que respiro os ares do Nordeste- ok, melhor dizer que s\u00e3o os &#8220;ares condicionados&#8221; de uma sala de reuni\u00e3o, mas aindaTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[35],"class_list":["post-11450","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cacique-de-ramos","tag-historia"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11450","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11450"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11450\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11450"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11450"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11450"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}