{"id":11423,"date":"2011-07-01T08:32:00","date_gmt":"2011-07-01T10:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/07\/cinecasulofilia-um-bravo-guerreiro\/"},"modified":"2011-07-01T08:32:00","modified_gmt":"2011-07-01T10:32:00","slug":"cinecasulofilia-um-bravo-guerreiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/07\/cinecasulofilia-um-bravo-guerreiro\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Um bravo guerreiro&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-1ga80ICHgLk\/TgoCKrmNazI\/AAAAAAAADpg\/B5BPv9WEGN0\/s1600\/27_MVG_dahl.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/27_MVG_dahl.jpg\" width=\"249\"><\/a><\/div>\n<div>Nesta sexta feira, temos mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, <b>assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e Professor de cinema Marcelo Ikeda<\/b>. O tema de hoje \u00e9 o cineasta e executivo Gustavo Dahl (foto), falecido na \u00faltima segunda feira.<\/p>\n<p>Como sempre, a coluna \u00e9 <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">publicada em parceria com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/p>\n<p><i><b>Um bravo guerreiro<\/b><\/i><\/p>\n<p>Na madrugada de hoje em Trancoso, veio a falecer, em decorr\u00eancia de um s\u00fabito ataque card\u00edaco, Gustavo Dahl. Quis o destino que supostamente Dahl tenha come\u00e7ado a se sentir mal ao assistir a um filme. <\/p>\n<p>Dahl foi montador de &#8216;A Grande Cidade&#8217; e um dos principais cr\u00edticos e articuladores do cinema novo, mas tamb\u00e9m foi realizador de primeira linha, especialmente com &#8216;O Bravo Guerreiro&#8217;, que considero um dos grandes filmes da hist\u00f3ria do cinema brasileiro, porque pode ser visto como um testamento prof\u00e9tico de toda a vida posterior do realizador e de sua posi\u00e7\u00e3o dentro das institui\u00e7\u00f5es do cinema brasileiro. <\/p>\n<p>Sim, porque Dahl acabou se tornando mais conhecido a partir de suas a\u00e7\u00f5es na pol\u00edtica institucional do cinema brasileiro, alavancando a distribuidora da Embrafilme, na criada SUCOM (Superintend\u00eancia de Comercializa\u00e7\u00e3o), quando o cinema brasileiro atingiu n\u00edvel recorde de 35% de participa\u00e7\u00e3o no mercado interno. Depois de passagem pelo CONCINE, Dahl foi um dos principais articuladores para a cria\u00e7\u00e3o da ANCINE, da qual se tornou o seu primeiro diretor-presidente. <\/p>\n<p>Sua importante participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica acabou deixando em segundo plano seu trabalho como realizador, e especialmente seus escritos, recheados de uma fina ironia e um n\u00edtido discurso cr\u00edtico, com certa voca\u00e7\u00e3o para a pol\u00eamica. Recentemente, essa \u00faltima veia retornou no restabelecimento da edi\u00e7\u00e3o da Filme Cultura, em que Gustavo, vez ou outra, nos brindava com textos como o sobre Rubem Bi\u00e1fora. Mesmo quando diretor-presidente da ANCINE, escrevia, ainda que raramente, alguns textos de impacto, como um artigo para a Revista Tela Viva em que dizia que \u201co Estado era uma concess\u00e3o da televis\u00e3o, e n\u00e3o a televis\u00e3o era uma concess\u00e3o do Estado\u201d. <\/p>\n<p>Tive um contato t\u00edmido com o Gustavo durante minha passagem na ANCINE, quando ele estabeleceu um estilo discreto e por demais defensivo, diante dos dif\u00edceis anos de transi\u00e7\u00e3o para o novo governo e da imin\u00eancia do fim da ag\u00eancia, o que acabou n\u00e3o se concretizando. Gustavo tinha um certo humor malicioso que me agradava. Agrade\u00e7o ao Gustavo por me manter na ANCINE, ap\u00f3s a sa\u00edda de minha diretora, mostrando habilidade ao me desviar do Fomento, que nunca quis minha presen\u00e7a, e me deixando aos cuidados do Carlos Guimar\u00e3es, para cuidar dos relat\u00f3rios estat\u00edsticos e da superintend\u00eancia financeira. Recomendou-me certos passos que eu hesitei em tomar diante do processo de reestrutura\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia, hesita\u00e7\u00e3o que acabou por ser a primeira semente do processo de minha sa\u00edda. <\/p>\n<p>Lembro que, em seu \u00faltimo dia como presidente da ANCINE, tive a oportunidade de ser recebido em seu gabinete, quando, entre outras coisas, sugeri a ele que escrevesse um livro contando suas experi\u00eancias no cinema, que s\u00e3o riqu\u00edssimas. Ele, um pouco irritado, me retrucou dizendo que \u201cainda n\u00e3o era o tempo de ele contar as suas mem\u00f3rias\u201d, como se isso representasse o in\u00edcio do fim. Hoje acho essa minha suposta gafe meio engra\u00e7ada. Tempos depois, quando o encontrei no lan\u00e7amento do n\u00famero 50 da Revista Filme Cultura, logo ap\u00f3s eu ter deixado a ANCINE, ele bateu no meu ombro e apenas me disse \u201cvoc\u00ea parece estar mais bem disposto\u201d. Gostaria muito de ter feito uma entrevista com o Gustavo para a minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, mas a minha mudan\u00e7a para Fortaleza dificultou meus planos. <\/p>\n<p>Depois da minha \u201cgafe anterior\u201d, fiquei um pouco receoso em enviar a ele algo que considero um documento bastante importante: seu discurso \u201cde despedida\u201d ao deixar a ANCINE, entregando a presid\u00eancia da ANCINE a Manoel Rangel, em cerim\u00f4nia na Firjan, em janeiro de 2007. Fiquei com medo de ser mal interpretado. Deveria t\u00ea-lo feito. Neste importante documento, al\u00e9m de toda a t\u00edpica verve de Gustavo Dahl, \u00e9 n\u00edtida sua consci\u00eancia do que representava aquele momento: um ato simb\u00f3lico que coroava a \u201cpassagem da guarda\u201d para uma nova gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos do audiovisual. De uma forma muito bonita, citando Godard, um autor caro \u00e0 sua gera\u00e7\u00e3o, como ele pr\u00f3prio enfatizou, Gustavo dizia que ele, que sempre buscou ser um \u201chomem do agir\u201d, agora \u201cdeixava o campo da a\u00e7\u00e3o para ingressar no campo da reflex\u00e3o\u201d, e desejava boa sorte aos \u201cbravos guerreiros\u201d. Belo discurso. <\/p>\n<p>Em homenagem \u00e0 mem\u00f3ria do Gustavo, coloco aqui a IN\u00c9DITA transcri\u00e7\u00e3o deste discurso. Agrade\u00e7o \u00e0 Mariana Coli pelo aux\u00edlio t\u00e9cnico na transcri\u00e7\u00e3o. Procuramos transcrever o discurso na \u00edntegra, respeitando o estilo discursivo caracter\u00edstico do Gustavo.<\/p>\n<p><b>Discurso de Gustavo Dahl ao deixar a presid\u00eancia da ANCINE, passando o cargo para Manoel Rangel \u2013 Rio de Janeiro, audit\u00f3rio da FIRJAN, 10\/01\/2007.<\/b><\/p>\n<p>&#8220;A \u00faltima vez que eu estive aqui, quando iniciei o meu discurso, eu esqueci de cumprimentar as autoridades e iniciei meu discurso direto. Vou tentar n\u00e3o faz\u00ea-lo porque esta \u00e9 uma ocasi\u00e3o especialmente oficiosa e eu comentava com o Ministro dos Esportes agora h\u00e1 pouco que n\u00f3s brasileiros, ele dizia que n\u00f3s temos essa grande vantagem da informalidade e eu dizia que eu acho que n\u00f3s temos a vantagem, n\u00f3s brasileiros temos a vantagem de, como sempre, trabalhar em duas frentes, lutar com as duas pernas. N\u00f3s conseguimos ser informais, mas conseguimos ser formais tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o come\u00e7o saudando os donos da casa, o Ministro da Cultura Gilberto Gil e o presidente da FIRJAN. Sa\u00fado tamb\u00e9m os ministros presentes, os deputados, os presidentes de ag\u00eancias reguladoras, os representantes do corpo diplom\u00e1tico, representantes do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, membros, dirigentes do Minist\u00e9rio da Cultura, em especial o Secret\u00e1rio do Audiovisual, Orlando Senna, os presidentes das entidades cinematogr\u00e1ficas, dos sindicatos, das associa\u00e7\u00f5es de classe, devo ter esquecido alguns, mas sa\u00fado tamb\u00e9m, sobretudo, os meus colegas e as minhas colegas do cinema e do audiovisual brasileiro. <\/p>\n<p>Quando eu fui apresentado como diretor-presidente da Ancine de 2001 a 2006, eu tive um repente de surpresa: estou dizendo, n\u00e3o, eu n\u00e3o fui diretor-presidente, eu fui aquele que teve a ideia. A hist\u00f3ria vem de antes e \u00e9 principalmente com este t\u00edtulo que eu me apresento aqui. De formulador e implantador da Ag\u00eancia Nacional do Cinema. \u00c9 evidente, para mim, esta cerim\u00f4nia tem uma carga simb\u00f3lica muito grande. Ela evidentemente \u00e9 uma passagem da guarda. \u00c9 alguma coisa que quem acredita em evolu\u00e7\u00e3o, em desenvolvimento, quem acredita em progresso, em avan\u00e7o, sabe perfeitamente que um dos rituais mais valorizados e importantes da vida \u00e9 esta passagem da guarda. Ai de quem n\u00e3o souber fazer a passagem da guarda. Eu, por exemplo, me considero, se me permitem uma refer\u00eancia pessoal, um exemplo t\u00edpico dessa passagem de guarda. <\/p>\n<p>Eu tinha 20 anos de idade, quando Paulo Em\u00edlio Salles Gomes me convidou para escrever um artigo na coluna dele no prestigioso suplemento liter\u00e1rio do jornal O Estado de S\u00e3o Paulo. A minha gera\u00e7\u00e3o, a gera\u00e7\u00e3o que fez o cinema novo \u2013 o presidente da FIRJAN se referiu ao Luiz Carlos Barreto, Cac\u00e1 Diegues, que est\u00e1 aqui \u2013 n\u00f3s tamb\u00e9m sentimos isso, n\u00f3s fomos uma repassagem da guarda. Da guarda de Paulo Em\u00edlio, da guarda de Alex Viany aqui no Rio de Janeiro, da guarda de Walter da Silveira na Bahia. N\u00f3s fomos tipicamente uma gera\u00e7\u00e3o que chegou e encontrou seu espa\u00e7o e que foi acolhida. H\u00e1 outras passagens de guarda que s\u00e3o memor\u00e1veis e isto estou me referindo a esta primeira do ano de 1958. J\u00e1 no ano de 68, ano em que se produziu Terra em transe e O Bravo guerreiro, se produziu tamb\u00e9m O bandido da luz vermelha e O Anjo nasceu de Rog\u00e9rio Sganzerla e J\u00falio Bressane. E produziu tamb\u00e9m um fen\u00f4meno do tropicalismo do qual o cinema brasileiro participou intensamente. <\/p>\n<p>Dez anos depois, na Embrafilme, na Superintend\u00eancia de Comercializa\u00e7\u00e3o, a famosa distribuidora da Embrafilme, que foi quando n\u00f3s tivemos aqueles 35% a que se referiu o presidente aqui de presen\u00e7a do mercado, tamb\u00e9m houve uma repassagem de guarda. Houve uma repassagem de guarda para os ent\u00e3o jovens Marco Aur\u00e9lio Marcondes e Rodrigo Saturnino Braga. Devo dizer que eu tinha na \u00e9poca 38 anos de idade. Em 88, in\u00edcio dos 90, h\u00e1 a crise do modelo Embrafilme, mas logo em seguida n\u00f3s vemos a retomada do cinema brasileiro com Carla Camurati, F\u00e1bio Barreto, \u00e9 tamb\u00e9m uma passagem da guarda.<\/p>\n<p>Em 98 n\u00f3s vemos aparecer cinemas regionais, S\u00e3o Paulo, Rio Grande, nordeste, e vemos tamb\u00e9m aparecer a produ\u00e7\u00e3o de diretores vindo da publicidade, a O2, a Conspira\u00e7\u00e3o, a Videofilmes. E se v\u00ea tamb\u00e9m, come\u00e7a-se a criar o ambiente para realiza\u00e7\u00e3o do III Congresso Brasileiro de Cinema, que \u00e9 um marco hist\u00f3rico, mas que come\u00e7ou, eu repito, j\u00e1 disse isso aqui da outra vez, come\u00e7ou com um semin\u00e1rio organizado por Nilson Rodrigues em Bras\u00edlia exatamente nesta data.<\/p>\n<p>Chegamos a 2007, no qual vimos isso que eu me referia que \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o da Ancine. O processo de cria\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o publico \u00e9 sempre mais trabalhoso do que parece no in\u00edcio. Mas, al\u00e9m da implanta\u00e7\u00e3o da Ancine, e da Ancine, digamos assim, num certo sentido, estar pronta, ela coincide tamb\u00e9m com a aprova\u00e7\u00e3o da lei que reformula alguns incentivos fiscais, que permite a entrada da televis\u00e3o, esta lei que foi aprovada agora e foi intensamente e competentemente trabalhada por Manoel Rangel. Eu estou dizendo que o que h\u00e1 sete anos atr\u00e1s em Porto Alegre era definido como uma necessidade de repolitiza\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro est\u00e1 dando seus frutos. <\/p>\n<p>Eu quero dizer tamb\u00e9m da import\u00e2ncia que eu acredito que tenha a Ancine e as ag\u00eancias de regula\u00e7\u00e3o de uma maneira geral. Acho que o mundo vive, depois de ter vivido a crise do modelo socialista, n\u00f3s estamos vivendo a crise do modelo capitalista. Embora todos saibam, digamos assim, do meu comprometimento com a no\u00e7\u00e3o de mercado, comprometimento que vem de trinta anos atr\u00e1s que foi quando comecei a trabalhar em distribui\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o impede tamb\u00e9m de constatar hoje como esta no\u00e7\u00e3o, a ilus\u00e3o de que o mercado fosse resolver os problemas do mundo, ela hoje \u00e9 questionada a cada momento.\u00a0<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Alguns exemplos r\u00e1pidos, porque acho que cai direto na quest\u00e3o da regula\u00e7\u00e3o, por exemplo, quando Henri Ford montou a linha de montagem, quando imaginou a linha de montagem, e fez o modelo \u201cFord-T\u201d para vender para seus oper\u00e1rios um carro barato, era um carro barato, mas que desperdi\u00e7ava no m\u00ednimo a metade de seu espa\u00e7o e fazia com que ele fosse movido a gasolina, j\u00e1 estava come\u00e7ando o processo de aquecimento mundial, que hoje \u00e9 irrevers\u00edvel. A China e \u00cdndia est\u00e3o trabalhando agora na cria\u00e7\u00e3o de um modelo de autom\u00f3vel de US$ 2 mil. Imagino o que ser\u00e1 quando a China e a \u00cdndia come\u00e7arem a rodar de autom\u00f3vel gastando petr\u00f3leo. <\/p>\n<p>H\u00e1 um outro exemplo dram\u00e1tico de imposi\u00e7\u00e3o de mercado que s\u00e3o as cadeias de fast food e da ind\u00fastria de alimenta\u00e7\u00e3o de maneira geral. Alguns quarenta, cinquenta anos depois, ela produziu uma epidemia mundial de obesidade que realmente \u00e9 uma das amea\u00e7as que pesa sobre n\u00f3s. A pr\u00f3pria balan\u00e7a comercial brasileira feita a partir do aumento das exporta\u00e7\u00f5es, quando a gente pensa que se est\u00e1 desmatando a floresta amaz\u00f4nica para plantar soja, \u00e9 preciso ver qual \u00e9 o pre\u00e7o que o pa\u00eds est\u00e1 pagando exatamente por esse saldo comercial.<\/p>\n<p>H\u00e1 um exemplo mais dram\u00e1tico da distor\u00e7\u00e3o de mercado: \u00e9 a invas\u00e3o do Iraque que, embora tenha sido dito, em absoluto era a quest\u00e3o do petr\u00f3leo que movia este movimento, mas n\u00f3s vemos \u2013 imagina, o Iraque tem s\u00f3 10% das reservas mundiais! \u2013 mas n\u00f3s vemos j\u00e1 que neste momento h\u00e1 uma desnacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo no Iraque para permitir parcerias pol\u00edtico-privadas \u2013 o cronista Mauro Santayana \u00e9 que se refere a isso \u2013 parcerias p\u00fablico-privadas a qual, \u00e0 parte o lucro iraquiano, servir\u00e1 para pagar as empresas americanas que far\u00e3o a reconstru\u00e7\u00e3o do Iraque. Tudo na mais perfeita ordem.\u00a0<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu acredito que boa parte do choque de civiliza\u00e7\u00e3o que n\u00f3s vivemos, de civiliza\u00e7\u00f5es do mundo ocidental quanto no mundo \u00e1rabe, est\u00e1 ligado a essa quest\u00e3o do petr\u00f3leo e a essa quest\u00e3o do mercado, e de nossa parte a gente pode dizer, ali\u00e1s no mundo inteiro, se o modelo socialista revelou as suas limita\u00e7\u00f5es, a gente sente agora as limita\u00e7\u00f5es do modelo capitalista na sua incapacidade de resolver a concentra\u00e7\u00e3o de riquezas e a civiliza\u00e7\u00e3o feita atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o do consumo. <\/p>\n<p>O cinema como sempre \u00e9 um pren\u00fancio, \u00e9 um pren\u00fancio das coisas que acontecem. A elitiza\u00e7\u00e3o das salas, o refluxo dos espectadores, a destrui\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo, a destrui\u00e7\u00e3o da linguagem pela linguagem da televis\u00e3o, e n\u00e3o h\u00e1 aqui nada nost\u00e1lgico, simplesmente dizer que a linguagem da televis\u00e3o praticamente se d\u00e1 atrav\u00e9s da filmagem exclusiva de di\u00e1logos; ela tem um impacto sobre a linguagem cinematogr\u00e1fica muito forte e a linguagem cinematogr\u00e1fica \u00e9 um campo de opera\u00e7\u00f5es, \u00e9 um terreno de batalha. Quem conhece o audiovisual n\u00e3o tem nenhuma ilus\u00e3o de que a guerra, a disputa pelo espectador, ela se d\u00e1, entre outras coisas, mas sobretudo, na disputa pela decifra\u00e7\u00e3o de um c\u00f3digo de linguagem. Nesse sentido, n\u00f3s aqui no Brasil precisamos tamb\u00e9m formar espectadores que estejam afinados, sintonizados com a linguagem, com o c\u00f3digo do cinema brasileiro. <\/p>\n<p>N\u00e3o basta fazer os filmes como n\u00e3o basta escrever e editar os livros, \u00e9 preciso o leitor, \u00e9 preciso o espectador. Ainda n\u00f3s no cinema novo sab\u00edamos disso. N\u00f3s, al\u00e9m de fazer os filmes e produzi-los, n\u00f3s exerc\u00edamos a cr\u00edtica, d\u00e1vamos entrevistas, como diz o Ivan Lessa que acaba de ser reeditado, se botar o ouvido no peito de cada diretor de cinema ouvir\u00e1 uma entrevista. Bons tempos. E tamb\u00e9m o cineclubista, fomos todos cineclubistas. Ou seja, a intera\u00e7\u00e3o com a sociedade se dava de uma maneira muito forte.\u00a0<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas esta crise ela abre, ela como sempre tem uma perspectiva que \u00e9 aberta pela revolu\u00e7\u00e3o digital. Basta acompanhar os esc\u00e2ndalos da internet, do Youtube, ou a not\u00edcia hoje do Steve Jobs, da Apple, lan\u00e7ando o iPhone, o telefone que \u00e9 ao mesmo tempo iPod, telefone, iPod, televis\u00e3o, pra perceber que estamos nitidamente perto de uma revolu\u00e7\u00e3o do consumo. \u00c9 evidente que, e n\u00f3s temos tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o do cinema nigeriano, o qual a partir de uma produ\u00e7\u00e3o digital e de uma edi\u00e7\u00e3o e de uma impress\u00e3o digital fora do com\u00e9rcio, chegamos \u00e0 possibilidade de um cinema nacional que na Nig\u00e9ria movimenta anualmente US$ 1 bilh\u00e3o. Esta \u00e9 uma ruptura de paradigma e \u00e9 nesta ruptura de paradigmas que eu acho que n\u00f3s temos que avan\u00e7ar atrav\u00e9s do financiamento do consumo e da forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico. <\/p>\n<p>\u00c9 evidente que isso nos leva \u00e0 a\u00e7\u00e3o de Estado. Acho que o grande desafio do Estado e do Governo neste momento \u00e9 instalar a meritocracia nos mecanismos de incentivos fiscais. Eu n\u00e3o vou entrar nos detalhes, o ponto de vista \u00e9 pol\u00eamico, mas \u00e9 para ser pol\u00eamico mesmo. Num momento em que tamb\u00e9m o ex\u00e9rcito americano contrata antrop\u00f3logos e soci\u00f3logos para que expliquem para as tropas e para os generais, para que decifrem para as tropas e para os generais um sentido da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e1rabe-iraquiana, compreender o pa\u00eds em que n\u00f3s estamos \u00e9 alguma coisa fundamental. N\u00e3o \u00e9 a ideia de propor solu\u00e7\u00f5es, como se dizia antigamente, de um cinema moderno\/antigo, que se queria cr\u00edtico. \u00c9 a no\u00e7\u00e3o de contribuir para o processo. Me lembro tamb\u00e9m, para citar um exemplo, durante a II Guerra Mundial, o Departamento de Estado contratou a antrop\u00f3loga Ruth Benedict para examinar a cultura japonesa, de onde saiu um cl\u00e1ssico, O cris\u00e2ntemo e a espada. <\/p>\n<p>N\u00f3s no Brasil temos alguns desafios. N\u00f3s estamos a\u00ed com a crise de seguran\u00e7a. O Brasil n\u00e3o est\u00e1 entendendo o porqu\u00ea. Quem diria que depois de cem anos depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura ia ter-se essa situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 evidente que todo mundo sabe. N\u00e3o teve reforma agr\u00e1ria, n\u00e3o teve educa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 cem anos atr\u00e1s, agora estamos a\u00ed com aquecimento global. Ser\u00e1 que \u00e9 revers\u00edvel? \u00c9 bom come\u00e7ar a pensar nisso. Acredito que o cinema brasileiro e o audiovisual brasileiro tenham sua contribui\u00e7\u00e3o a dar nesta reflex\u00e3o, neste deciframento do pa\u00eds. O pa\u00eds tem tamb\u00e9m um problema de estagna\u00e7\u00e3o, de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica no m\u00ednimo de 25 anos, somos a 12\u00aa economia do mundo, somos l\u00e1 pelo \u201ccinq\u00fcentaeseis\u00e9simo\u201d, \u201csessent\u00e9simo\u201d em \u00edndice de desenvolvimento humano, e temos 1% do com\u00e9rcio mundial. Este \u00e9 o mist\u00e9rio. \u00c9 preciso decifrar. \u00c9 preciso que a produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica ajude a compreender o processo. <\/p>\n<p>Devo, encaminhando, como pen\u00faltimo item aqui do meu discurso, eu quero falar um pouco sobre a constru\u00e7\u00e3o da Ancine e dizer que \u00e9 um discurso que evidente que a guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, para citar Clausewitz, mas que uma vez vencida a guerra h\u00e1 que ocupar o territ\u00f3rio e h\u00e1 que administr\u00e1-lo, h\u00e1 que geri-lo. Toda gest\u00e3o institucional \u00e9 um ato pol\u00edtico. A Ancine, sobretudo ao longo desses anos, e esse foi meu esfor\u00e7o, se constituiu como ferramenta. E a ferramenta \u00e9 important\u00edssima. A hist\u00f3ria do homem \u00e9 a hist\u00f3ria das ferramentas que ele inventou. \u00c9 a hist\u00f3ria da pedra que ele pegou para quebrar a primeira semente, do bra\u00e7o que ele estendeu para pegar o fruto que se perdia no rio. E olhe que n\u00e3o estou falando de instrumentos mais sofisticados, como o machado de pedra, tudo isso, estou me referindo praticamente ao n\u00edvel mam\u00edfero. Imaginem que a cultura foi inventada pelos animais. N\u00f3s, atualmente, e \u00e9 uma ferramenta importante na constru\u00e7\u00e3o do mundo atual. Voltando \u00e0 leitura dos jornais, acho que era ontem que o Bill Gates apresentava a casa informatizada, a futura casa conectada, com as paredes todas transformadas numa tela, e, al\u00e9m disso, dizia que o mundo inteiro vai ser conectado, que o ponto de \u00f4nibus vai ser conectado. \u00c9 evidente que a Ancine tem a voca\u00e7\u00e3o de preparar este futuro. <\/p>\n<p>Eu devo dizer tamb\u00e9m, aqui voltando ao n\u00edvel pessoal, que quando a pr\u00e1tica vem de cinq\u00fcenta anos atr\u00e1s, eu escrevia, eu trabalhava na Cinemateca, eu j\u00e1 tinha ang\u00fastia de n\u00e3o querer ser um intelectual, e querer ser um homem de a\u00e7\u00e3o. Um \u201chomem de agir\u201d \u2013 um \u201chomem de a\u00e7\u00e3o\u201d parece muito. De transformar as ideias em a\u00e7\u00e3o. E o final do meu filme O bravo guerreiro, no qual um deputado p\u00f5e um rev\u00f3lver na boca, \u00e9 a vontade de parar de falar e agir. Eram os gloriosos tempos que precederam \u00e0 luta armada. <\/p>\n<p>Devo dizer que as empreitadas por onde andei, como o cinema novo, a Embrafilme, o Conselho Nacional do Cinema, o ex\u00edlio auto-imposto depois da extin\u00e7\u00e3o do Concine e da Embrafilme e da distribuidora da Embrafilme, \u00f3rg\u00e3os aos quais eu tinha dedicado, eu e alguns amigos que trabalharam comigo, tinha dedicado um grande esfor\u00e7o, e tamb\u00e9m, mas depois, essa necessidade de voltar \u00e0 a\u00e7\u00e3o, ela se imp\u00f5e, ela me traz de volta \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do III Congresso, me traz de volta \u00e0 relatoria do Grupo Executivo de Desenvolvimento da Ind\u00fastria Cinematogr\u00e1fica, e me traz de volta, sobretudo, \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o da Ancine. Devo dizer que nesta biografia r\u00e1pida h\u00e1 dois \u00f3rg\u00e3os que foram descontinuados: o Conselho Nacional de Cinema, que era um \u00f3rg\u00e3o regulador \u00e0 \u00e9poca, estou falando de 20 anos atr\u00e1s, e a distribuidora da Embrafilme, criando um v\u00e1cuo que at\u00e9 hoje n\u00e3o foi preenchido dentro do cinema brasileiro. A quest\u00e3o da continuidade institucional se coloca para o pa\u00eds, mas se coloca tamb\u00e9m, e muito, para as institui\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, e por que n\u00e3o dizer, para o pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Cultura. <\/p>\n<p>Eu quero dizer que acredito que a gente sofra uma evolu\u00e7\u00e3o ao longo da vida, que a consci\u00eancia ao longo do processo sofre uma evolu\u00e7\u00e3o, que a gente come\u00e7a tendo a consci\u00eancia social, depois tem uma consci\u00eancia pol\u00edtica, depois tem uma consci\u00eancia institucional e por fim, simplifique tudo, e tenha uma consci\u00eancia operacional. Ou seja, se todo mundo, se as coisas foram feitas direito, este neg\u00f3cio chamado o mundo termina entrando nos eixos. \u00c9 uma mistura de humildade e megalomania, ou seja, basta trabalhar bem. Ou, como dizia o meu mestre, imaginar certo. <\/p>\n<p>Eu quero dizer tamb\u00e9m que \u00e9 poss\u00edvel, como dizia um autor caro \u00e0 minha gera\u00e7\u00e3o, Jean-Luc Godard, no seu segundo filme, que o tempo da a\u00e7\u00e3o tenha passado e seja chegado o tempo da reflex\u00e3o. Quero me referir tamb\u00e9m \u00e0s pessoas, os amigos Manoel Rangel e Leopoldo Nunes, que eu tive ocasi\u00e3o de conhecer antes, at\u00e9 antes de eles entrarem para a estrutura de gest\u00e3o institucional, m\u00e9rito que n\u00e3o pode ser tirado do secret\u00e1rio Orlando Senna, e dizer que acredito que tanto um quanto o outro s\u00e3o capazes de transformar ideias em a\u00e7\u00f5es e ideias em articula\u00e7\u00f5es. Quando, h\u00e1 uns seis anos atr\u00e1s, exatamente quando terminava o discurso inaugural do III Congresso, eu terminei dizendo, e com um sorriso nos l\u00e1bios, podemos dizer que a luta continua. Eu quero terminar este discurso dizendo aos novos e velhos companheiros que n\u00f3s estamos apenas come\u00e7ando, e dar boas vindas aos bravos guerreiros.&#8221;<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta feira, temos mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e Professor de cinema Marcelo Ikeda. 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