{"id":11407,"date":"2011-07-14T08:43:00","date_gmt":"2011-07-14T10:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/07\/cinecasulofilia-meia-noite-em-paris\/"},"modified":"2011-07-14T08:43:00","modified_gmt":"2011-07-14T10:43:00","slug":"cinecasulofilia-meia-noite-em-paris","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/07\/cinecasulofilia-meia-noite-em-paris\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Meia-Noite em Paris&quot;"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Excepcionalmente na quinta feira, temos mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, a<b>ssinada pelo cineasta, professor e cr\u00edtico de cinema Marcelo Ikeda<\/b>. O terma de hoje \u00e9 o elogiado filme do diretor americano Woody Allen: &#8220;Meia-Noite em Paris&#8221;.<\/p>\n<p>Como sempre, coluna publicada <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">em parceria com o blog &#8220;Cinecasulofilia&#8221;<\/a>.<\/p>\n<p><i><b>Meia-Noite em Paris<\/b><\/i><br \/><i>de Woody Allen<\/i><\/p>\n<p>Talvez seja dif\u00edcil de explicar com precis\u00e3o mas achei o novo filme do Woody Allen uma experi\u00eancia extremamente comovente. Repetir, repetir, repetir; mudar, mudar, mudar. Woody Allen sempre quis fazer filmes que se comunicassem com o p\u00fablico. Acontece que ele sempre achou que isso era poss\u00edvel sem ser vulgar, e ao mesmo tempo, confessando sua inaptid\u00e3o para os devaneios intelectuais, para o pante\u00e3o do \u201ccinema de arte\u201d.<\/p>\n<p>Qual a solu\u00e7\u00e3o? Trabalhar, ser honesto, ser fiel a si mesmo, descobrir-se trabalhando, conformar-se com seus limites, e tentar fazer algo a partir disso. E, claro, amar! Cineasta maduro, com um ritmo de produ\u00e7\u00e3o alucinante, Allen quer reinventar-se repetindo. Repetindo para confirmar, repetindo para transformar. Prova disso \u00e9 a extraordin\u00e1ria sequ\u00eancia de abertura do filme. O que dizer diante dela?<\/p>\n<p>De um lado, Meia-Noite em Paris \u00e9 o filme de maior bilheteria dos \u00faltimos filmes de Woody Allen, maior mesmo do que Vicky Cristina Barcelona, que inaugurou recente verve do diretor em subverter cart\u00f5es-postais. A comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, curiosamente a partir de um filme que dialoga com uma Paris dos anos vinte \u2013 e n\u00e3o uma Paris atual de cart\u00e3o-postal \u2013 n\u00e3o significa abrir m\u00e3o de um olhar coerente com sua filmografia recente.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o trabalho, \u00e9 ser honesto, e \u00e9 tamb\u00e9m o amor. Filme did\u00e1tico, como o velho cinema americano. Filme subversivo. Me lembro de como critiquei aqui o \u00faltimo filme do Arnaldo Jabor por ach\u00e1-lo passadista, por como Jabor valoriza as belezas do passado e se limita a, de forma nost\u00e1lgica, dar as costas para o mundo. O filme de Allen \u00e9 o oposto: Owen Wilson \u00e9 um escritor que mergulha numa Paris dos anos vinte. Se \u00e9 alucina\u00e7\u00e3o, sonho, efeito da bebida ou recurso surrealista, n\u00e3o importa. Tudo \u00e9 resolvido com um corte seco, com uma entrada e sa\u00edda de quadro. Uma esp\u00e9cie de \u201ccarro\u00e7a fantasma\u201d bergmanosjostromiana que, ao inv\u00e9s de levar para a morte, leva o personagem para o passado, ou ainda, o leva de encontro para si mesmo.<\/p>\n<p>A cidade de ontem era fant\u00e1stica, mas o passado s\u00f3 serve para reinstalar o personagem de encontro aos seus desafios do presente, o passado funciona como forma de faz\u00ea-lo ver o presente melhor. Ver as obras dos artistas versus viver da arte, ou ainda, con-viver. Criar \u00e9 poder respirar um clima de cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 poder conversar, dividir as ang\u00fastias, \u00e9 amar, uma aventura do viver. <\/p>\n<p>Meia-Noite em Paris pode ser visto como um document\u00e1rio sobre o cinema de Fortaleza em 2011. Solit\u00e1rio, Owen Wilson encontra seus amigos num mundo de ontem, mas a partir desse di\u00e1logo improv\u00e1vel, ele consegue ver seus desafios de hoje, consegue reinstalar-se no mundo, e n\u00e3o fugir dele. Como se fosse o pr\u00f3prio Allen, uma ilha diante do cinema de hoje. A solu\u00e7\u00e3o: trabalhar, ser verdadeiro, amar. Encontrar-se com o mundo, tentar ser generoso, menos derrotista, como diz a ele Gertrud Stein. Criar \u00e9 abra\u00e7ar-se ao mundo. Wilson ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 escapista, mas est\u00e1 sendo fiel a si mesmo. \u00c9 poss\u00edvel abra\u00e7ar-se ao mundo mesmo fazendo uma arte que n\u00e3o seja um elogio ao mundo que vivemos. (Ou ainda,\u00a0 &#8211; na pior das hip\u00f3teses &#8211; \u00e9 poss\u00edvel criar sozinho, mesmo que seja inventando amigos imagin\u00e1rios &#8211; nesse caso, seria um filme sobre a solid\u00e3o.)<\/p>\n<p>H\u00e1 um momento em que Hemingway pergunta a Wilson se ele sempre tem medo da morte. Pergunta se h\u00e1 um momento que ele a esquece. Wilson fala que n\u00e3o. Hemingway insinua que provavelmente ele nunca amou uma mulher de verdade. Pois nesse momento, diz ele, nos esquecemos da morte. \u00c9 lindo. Num outro momento, Hemingway diz que a obra ser\u00e1 boa se for verdadeira e honesta. E sugere que ele n\u00e3o siga conselhos de outros escritores, invejosos se o romance for de fato bom.<\/p>\n<p>Allen n\u00e3o poderia ter dado melhores conselhos para os aspirantes a cineastas. N\u00e3o seguir conselhos, e sim&#8230; amar, trabalhar, ser honesto. Tarefa imposs\u00edvel nos dias de hoje, dominados seja pelo pedantismo acad\u00eamico ou pelas patricinhas do dinheiro e do poder.\u00a0<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A eleg\u00e2ncia, a simplicidade de Meia-Noite em Paris, seu tom rom\u00e2ntico, ligeiramente ing\u00eanuo, comprovam a maturidade de Allen, que n\u00e3o quer mais provar nada para ningu\u00e9m, apenas ser honesto, ser coerente com o que vem insistentemente tentando criar at\u00e9 aqui. Meia-Noite em Paris \u00e9 um filme sobre a cria\u00e7\u00e3o, sobre a necessidade de fazer escolhas, e como o passado pode nos orientar para o presente, desde que saibamos que o nosso lugar e o nosso tempo \u00e9 hoje. A aposta por uma inesperada atualidade \u00e9 o que faz deste filme para mim uma experi\u00eancia extremamente comovente.<\/div>\n<p><\/p>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Excepcionalmente na quinta feira, temos mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, professor e cr\u00edtico de cinema Marcelo Ikeda. 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