{"id":11355,"date":"2011-08-21T08:50:00","date_gmt":"2011-08-21T10:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/08\/orun-aye-vai-comecar-de-novo-a-mae-de-todas-as-disputas\/"},"modified":"2011-08-21T08:50:00","modified_gmt":"2011-08-21T10:50:00","slug":"orun-aye-vai-comecar-de-novo-a-mae-de-todas-as-disputas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/08\/orun-aye-vai-comecar-de-novo-a-mae-de-todas-as-disputas\/","title":{"rendered":"Orun Ay\u00e9 &#8211; &quot;Vai come\u00e7ar de novo&#8230; A m\u00e3e de todas as disputas&quot;"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Neste domingo, temos <b>mais uma coluna &#8220;Orun Ay\u00e9&#8221;, assinada pelo publicit\u00e1rio e compositor Alo\u00edsio Villar<\/b>. O texto de hoje \u00e9 sobre um <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2009\/10\/samba-de-terca-fatumbi-ilha-de-todos-os.html\">samba que j\u00e1 foi tema da coluna &#8220;Samba de Ter\u00e7a&#8221;<\/a>: Fatumbi, Uni\u00e3o da Ilha 1998.<\/p>\n<p><i><b>Vai come\u00e7ar de novo&#8230; A m\u00e3e de todas as disputas<\/b><\/i><\/p>\n<p>Fechando a trilogia \u201cvai come\u00e7ar de novo\u201d, em que falei de minha carreira como compositor de samba-enredo, falarei com mais detalhes da primeira disputa de minha vida. <\/p>\n<p>O torcedor da Uni\u00e3o da Ilha, aquele que freq\u00fcenta\u00a0 as quadras, tem imenso carinho pelas disputas de samba da agremia\u00e7\u00e3o. A Uni\u00e3o da Ilha \u00e9 uma das escolas com ala de compositores mais forte e famosa e com sambas inesquec\u00edveis. Suas disputas sempre s\u00e3o de alto n\u00edvel, com muitas op\u00e7\u00f5es de sambas campe\u00f5es.<\/p>\n<p>E aquele ano foi um ano especial onde todos lembram com muito carinho. Compositores que participaram daquele concurso lembram-se dela at\u00e9 hoje e ela foi conhecida por uma grande virada. Falo da disputa para o carnaval de 1998 com o enredo \u201cFatumbi \u2013 A Ilha de todos os santos\u201d.<\/p>\n<p>Como eu disse em colunas anteriores, eu sempre gostei de carnaval, mas nunca tinha pisado em uma quadra de escolas de samba e vi na coluna de um jornal que tratava de sambas que a Uni\u00e3o da Ilha entregaria as sinopses sobre o enredo e a ala estava aberta. Eu nunca tinha visto aquele tipo de an\u00fancios em um jornal e nunca mais vi. Acho que foi destino, ainda mais com a parte que falava \u201cala aberta\u201d.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o sabe, antigamente o compositor tinha que prestar concurso para entrar em alas de compositores. Ele precisava fazer um samba sozinho e mostrar no palco para os compositores consagrados da agremia\u00e7\u00e3o com ele mesmo cantando. De dez, doze inscritos apenas tr\u00eas ou quatro eram admitidos.<\/p>\n<p>Hoje em dia n\u00e3o \u00e9 mais assim, o que permite que muita gente que nem saiba segurar uma caneta seja chamada de compositor &#8211; mas esse \u00e9 assunto pra uma coluna futura.<\/p>\n<p>Como eu disse antes fui l\u00e1 com a cara e a coragem, peguei a sinopse sem conhecer ningu\u00e9m, sem anotar nada e nervoso porque conhecia o carnavalesco Milton Cunha de nome. Era carnavalesco da Beija-Flor anteriormente e sua ida para Uni\u00e3o provocou uma grande surpresa. Era e ainda \u00e9 algo inimagin\u00e1vel carnavalesco da Beija-Flor deixar a escola e ir pra Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas ele foi e eu tamb\u00e9m. Peguei a sinopse e fui pra casa. L\u00e1 mostrei para minha av\u00f3 e minha m\u00e3e e me tranquei no quarto pra fazer o samba. Levei meia hora mais ou menos.\u00a0 <\/p>\n<p>Abaixo a letra do primeiro samba-enredo da minha vida:<\/p>\n<p><i>&#8220;Ilha, Ilha de todos os santos<br \/>Mostra hoje seus encantos<br \/>Aqui na Sapuca\u00ed<br \/>Franc\u00eas lutou pela igualdade<br \/>Exemplo de liberdade<br \/>Que saudades de ti Fatumbi<br \/>Navio negreiro chegou ao Brasil<br \/>Com um povo varonil<br \/>Nascia o afro brasileiro<br \/>Corpo acorrentado<br \/>Mas na alma n\u00e3o tem algemas<br \/>Miscigena\u00e7\u00e3o \u00e9 o nosso lema<br \/>A \u00c1frica o seduziu, Jubiab\u00e1 o encantou<br \/>Na Bahia ele aportou<\/p>\n<p><b>Viveu na \u00e1frica, se apaixonou pela Bahia<br \/>Filho de M\u00e3e Senhora, devoto de M\u00e3e Menininha<br \/>Filho de If\u00e1, filho do destino<br \/>Percorreu um sublime caminho<br \/>Lutou por um sonho divino<\/b><\/p>\n<p>Fez uma ponte cruzando todo Atl\u00e2ntico<br \/>Aprendeu todos os c\u00e2nticos<br \/>Virou Oju Ob\u00e1 no candombl\u00e9<br \/>Fotografou, a beleza, a riqueza ele mostrou<br \/>Me conta o segredo meu babala\u00f4<br \/>O mundo vamos mudar com a nossa f\u00e9<br \/>Pierre Verger a Ilha desfila pra voc\u00ea<br \/>O Sol para todos nasceu<br \/>Sangue negro em sua veia correu<br \/>\u00c1frica na alma, Bahia no cora\u00e7\u00e3o<br \/>Vamos todos celebrar nossa uni\u00e3o<\/p>\n<p><b>Canta meu amor, \u00e9 dia de folia<br \/>Abre ala avenida, pra escola simpatia<\/b>&#8220;<\/i><\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse anteriormente, meu pai tentou a contrata\u00e7\u00e3o do Cadinho &#8211; que j\u00e1 cantaria um samba; ent\u00e3o contratamos D\u00e3ozinho e Ricardo. Eram cinquenta e tr\u00eas sambas na disputa, ca\u00edram vinte de cara &#8211; entre eles o meu. Ali naquela disputa foi s\u00f3 o come\u00e7o da minha caminhada. <\/p>\n<p>Ela prosseguiu como voc\u00eas j\u00e1 viram, mas como a coluna de hoje \u00e9 sobre esse concurso pelo menos a minha parte na hist\u00f3ria como compositor se encerra aqui &#8211; continuando s\u00f3 a de espectador. Como compositor em Fatumbi fui coadjuvante, quase figurante.<\/p>\n<p>Aquela foi uma disputa especial. O Imp\u00e9rio Serrano havia ca\u00eddo para o grupo de acesso do carnaval, ent\u00e3o seus compositores ficaram \u201csem casa\u201d no Grupo Especial. Alguns como o meu xar\u00e1, o brilhante Aluizio Machado concorreram na agremia\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o foi muito longe nem chegando entre os dez. <\/p>\n<p>Outro que se aventurou no concurso foi o cantor de funk Buchecha. Estava na crista da onda, fazendo sucesso nacional, mas tamb\u00e9m n\u00e3o foi longe.\u00a0 <\/p>\n<p>Mas do Imp\u00e9rio Serrano veio uma parceria forte comandada pelo compositor \u201cMais Velho\u201d e com samba interpretado pelo na \u00e9poca Rixxa (sei que hoje o nome dele n\u00e3o se escreve mais assim, mas n\u00e3o ouso tentar escrever). Rixxa tem apelido de \u201cPavarotti do samba\u201d devido \u00e0 sua voz poderosa. \u00c9 considerado um dos grandes do nosso carnaval.<\/p>\n<p>O samba despontou logo como favorito. Era uma composi\u00e7\u00e3o maravilhosa: bonita, melodiosa, letra linda que tinha um refr\u00e3o forte:<\/p>\n<p><i>\u201cAl\u00f4 voc\u00ea, sou a Ilha<br \/>Sou o Sol da liberdade na folia<br \/>Luz que ilumina o meu viver<br \/>Sou Uni\u00e3o Fatumbi Verger\u201d<\/i> <\/p>\n<p>Como dizem as g\u00edrias do samba de hoje, o samba era uma \u201cporrada\u201d, uma \u201cpatada de elefante\u201d e dava mostras de ser campe\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a ala de compositores da Ilha n\u00e3o \u00e9 de bobeira, al\u00e9m de talentosa sabe fazer pol\u00edtica interna como ningu\u00e9m e quase todos os compositores principais da agremia\u00e7\u00e3o estavam no concurso. Buj\u00e3o estava na Grande Rio, J.Brito na Mocidade e Franco n\u00e3o concorreu, mas Marquinhus do Banjo, Carlinhos Fuzil (campe\u00e3o no ano anterior), Bicudo, Djalma Falc\u00e3o, Dito, Jota Erre estavam no concurso.<\/p>\n<p>Mauricio 100, Almir da Ilha e Marcio Andr\u00e9 tamb\u00e9m, mas deles falo depois.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o faltei a nenhuma semana da disputa e logo fui cooptado pelo meu amigo Paulo Travassos para entrar na torcida do samba de Dito e Jota Erre, interpretado pelo Wander Pires e por meu hoje amigo e parceiro Roger Linhares. Era samba muito forte tamb\u00e9m, com refr\u00e3o poderoso:<\/p>\n<p><i>\u201cAos orix\u00e1s eu pe\u00e7o a f\u00e9<br \/>Pro meu povo ax\u00e9<br \/>Na minha festa tem batuque e candombl\u00e9\u201d\u00a0\u00a0\u00a0 <\/i><\/p>\n<p>Fui caminhando com esse samba at\u00e9 o fim, participando de seus churrascos no morro do Guarabu e depois pegando bandeira para torcer nas eliminat\u00f3rias. Na final aconteceu um fato curioso.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos l\u00e1 no morro eu, minha m\u00e3e e minha av\u00f3. Em determinado momento passa um rapaz com uma \u201ccoisinha\u201d na m\u00e3o e minha av\u00f3 aponta e ri dizendo \u201colha, ele usando arma de pl\u00e1stico\u201d. Minha m\u00e3e vira para ela e diz \u201cfala baixo que \u00e9 de pl\u00e1stico n\u00e3o, \u00e9 de verdade\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Esse foi um dos fatos engra\u00e7ados que guardo do concurso. Outro foi na noite que a Lady Di morreu. Cheguei \u00e0 quadra, aquele clima de como\u00e7\u00e3o todo e Milton Cunha que era o mestre de cerim\u00f4nias da escola pega o microfone e diz: \u201cgenteeeee, princesa n\u00e3o morre n\u00e3o, \u00e9 igual bicha &#8211; vira purpurina\u201d.<\/p>\n<p>Voltando ao concurso. Curtia aquele samba, era bonito, pegava bandeiras e cantava no meio da quadra. Contudo, n\u00e3o era meu favorito.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m n\u00e3o era meu favorito o samba de Djalma Falc\u00e3o e Bicudo que era um samba lindo, po\u00e9tico, melodioso. Samba &#8216;estilo Djalma Falc\u00e3o&#8217;. consagrado nos anos seguintes na escola, mas que tinha um refr\u00e3o que hoje podemos dizer que era um mico, o refr\u00e3o \u201ctrash\u201d do ano:<\/p>\n<p><i>\u201cTira o p\u00e9 do ch\u00e3o, vem sacudir<br \/>Batendo palmas para Fatumbi\u201d<\/i><\/p>\n<p>Outro dia encontrei o Djalma e j\u00e1 tendo certa intimidade com ele tive que brincar com esse refr\u00e3o e ele reconheceu que era ruim demais. O samba caiu entre os sete.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m n\u00e3o era meu favorito o samba de Carlinhos Fuzil e Marquinhus do Banjo. N\u00e3o lembro o refr\u00e3o desse samba, mas lembro de uma apresenta\u00e7\u00e3o apote\u00f3tica dele. No dia que o som acabou e Marquinhus levou o samba sem microfone mesmo, na garganta e com o p\u00fablico todo acompanhando. Uma grande apresenta\u00e7\u00e3o na semifinal &#8211; justo no dia que caiu&#8230;<\/p>\n<p>Semifinal que foi realizada em um s\u00e1bado com a final sendo domingo. Quando foram anunciados os finalistas Milton Cunha disse no microfone que o campe\u00e3o seria escolhido por palmas. Decis\u00e3o controversa e evidente que foi \u201cjogada pra galera\u201d: nenhuma escola decide assim, como nenhuma escola decide samba em final (com exce\u00e7\u00f5es que confirmam a regra). A Uni\u00e3o da Ilha j\u00e1 tinha seu samba e eu tamb\u00e9m. <\/p>\n<p>Mas afinal, para qual samba eu torcia?<\/p>\n<p>Eu torcia para aquele que atropelou na reta final. Quando todos pensavam que o samba de Mais Velho venceria ele come\u00e7ou a crescer, a arregimentar f\u00e3s, sua torcida aumentar e teve como pe\u00e7a importante dessa virada o fato de Rixxa ter sido contratado pela Uni\u00e3o da Ilha para ser o int\u00e9rprete na avenida &#8211; e assim abandonar o concurso.<\/p>\n<p>Foi a senha para a virada deste samba, que tinha no refr\u00e3o:<\/p>\n<p><i>\u201cVem ver, vem ver<br \/>A bateria arrepiar<br \/>Xir\u00ea, Sapuca\u00ed vai tremer<br \/>Pra Fatumbi Oju Ob\u00e1\u201d<\/i> <\/p>\n<p>Era o samba de Almir da Ilha, Mauricio 100 e Marcio Andr\u00e9. Magistralmente defendido pelo Mauricio 100 e que conseguiu no fim da disputa virar o jogo. Uma virada com a cara de Marcio Andr\u00e9, que \u00e9 considerado por todos na Ilha do Governador como uma das maiores \u201craposas\u201d em mat\u00e9ria de concurso de samba-enredo.<\/p>\n<p>O samba chegou absoluto na final e n\u00e3o deixou d\u00favidas que seria o vencedor. <\/p>\n<p>Na hora do resultado Paulo Travassos foi para fora da quadra com medo de confus\u00e3o e falou pra eu ir tamb\u00e9m. Mas eu fiquei. Fiquei do lado do palco e vi assim ser anunciado pela primeira vez um samba campe\u00e3o. Vi a explos\u00e3o na quadra e a emo\u00e7\u00e3o dos compositores vencedores.<\/p>\n<p>Os compositores que concorreram foram convidados a subir no palco pra confraternizar. Tentei, mas fui barrado pelo seguran\u00e7a que n\u00e3o me conhecia. Paulinho Rocha &#8211; campe\u00e3o do ano anterior &#8211; viu a cena e mandou que me liberassem e subi com o pensamento prometendo que ainda subiria ali campe\u00e3o da escola.<\/p>\n<p>E foi uma grande emo\u00e7\u00e3o, uma grande confraterniza\u00e7\u00e3o. De grandes compositores que fizeram obras maravilhosas para aquela que acho a \u201cm\u00e3e de todas as disputas\u201d. Vi e participei de muitas disputas depois, mas essa pra mim \u00e9 inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Alguns compositores deixaram de concorrer, outros morreram. Mas a hist\u00f3ria de Pierre Verger, que eu n\u00e3o conhecia, come\u00e7ou a fazer parte da minha vida. Fiquei com Jubiab\u00e1 na mem\u00f3ria e mudei minha trajet\u00f3ria. Nascia ali o compositor de samba-enredo e o sonho de subir naquele palco como compositor campe\u00e3o n\u00e3o morreu, s\u00f3 aumenta a cada dia.<\/p>\n<p>Porque como disse no meu samba, alma n\u00e3o tem algemas, ela \u00e9 livre pra sonhar e dela vem nossa for\u00e7a. Vem de l\u00e1, o dom divino&#8230;.<\/p>\n<p>Orun Ay\u00e9!<\/p>\n<p><i>P.S. &#8211; Essa coluna \u00e9 em homenagem a Mauricio 100, um dos meus \u00eddolos no samba<\/i><br \/>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/div>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste domingo, temos mais uma coluna &#8220;Orun Ay\u00e9&#8221;, assinada pelo publicit\u00e1rio e compositor Alo\u00edsio Villar. 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