{"id":11350,"date":"2011-08-25T08:42:00","date_gmt":"2011-08-25T10:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/08\/historia-outros-assuntos-guia-politicamente-incorreto-da-america-latina\/"},"modified":"2011-08-25T08:42:00","modified_gmt":"2011-08-25T10:42:00","slug":"historia-outros-assuntos-guia-politicamente-incorreto-da-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/08\/historia-outros-assuntos-guia-politicamente-incorreto-da-america-latina\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria &amp; Outros Assuntos: &quot;Guia Politicamente Incorreto da Am\u00e9rica Latina&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-mLyajP9Zymc\/TlUAig9qI7I\/AAAAAAAADw8\/P8m_IXRH3Sk\/s1600\/Guia.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Guia.jpg\" width=\"320\"><\/a>Excepcionalmente fora da quarta feira habitual, temos <b>mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Hist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos&#8221;, assinada pelo Mestre em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio Gomes.<\/b> O tema de hoje \u00e9 uma resenha cr\u00edtica do livro &#8220;Guia Politicamente Incorreto da Am\u00e9rica latina&#8221;, que sucede o &#8220;Guia&#8221; da hist\u00f3ria do Brasil &#8211; cuja resenha que assinei aqui me rendeu alguns coment\u00e1rios me &#8220;homenageando&#8221; por parte de reacion\u00e1rios de direita.<\/p>\n<p>N\u00e3o li o livro, apenas o folheei na livraria, mas me parece &#8211; e a resenha do colunista me refor\u00e7a esta impress\u00e3o &#8211; que este livro repete a f\u00f3rmula &#8220;neocon&#8221; do anterior: torcer e distorcer os fatos e as pesquisas para se chegar a conclus\u00f5es pr\u00e9-estabelecidas de forma ideol\u00f3gica. Conclus\u00f5es estas que apenas glorificam a dourina ultra-conservadora de direita t\u00e3o em voga nestes dias &#8211; basta lembrar que Marco Antonio Villa \u00e9 historiador claramente identificado com as teses de movimentos como o &#8220;Tea Party&#8221; americano e semelhantes.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, aos trolls gorilas da internet: o que escrevo acima \u00e9 a minha opini\u00e3o, n\u00e3o a do colunista. Xinguem a pessoa certa (risos).<\/p>\n<p>Ironias minhas \u00e0 parte, vamos ao como de h\u00e1bito excelente texto:<\/p>\n<p><i><b>Resenha Cr\u00edtica &#8211; &#8220;Guia Politicamente Incorreto da Am\u00e9rica Latina&#8221;<\/b><\/i><\/p>\n<p>Na tentativa de repetir a f\u00f3rmula de estrondoso sucesso que foi o livro &#8220;Guia politicamente incorreto da Hist\u00f3ria do Brasil&#8221;, o jornalista Leandro Narloch preparou um novo livro utilizando o mesmo recurso da dessacraliza\u00e7\u00e3o de mitos enraizados em nossa hist\u00f3ria &#8211; agora transposta para a Hist\u00f3ria das Am\u00e9ricas. <\/p>\n<p>O <i>&#8220;Guia Politicamente Incorreto da Am\u00e9rica Latina&#8221;<\/i> (Editora Leya, 336 p\u00e1ginas), que al\u00e9m de Narloch tem o jornalista Duda Teixeira como co-autor, segue o mesmo caminho da &#8220;vers\u00e3o tupiniquim&#8221;, abordando personagens que povoam desde livros escolares, como tamb\u00e9m v\u00eam frequentando o not\u00edciario da atualidade, seja com descobertas recentes ou com o legado que proporcionam \u00e0 latinidade.<\/p>\n<p>Os personagens escolhidos que comp\u00f5em este guia politicamente incorreto de nuestra america foram bem escolhidos, inclusive porque suas biografias acabam inserindo personagens que hoje s\u00e3o politicamente atuantes. <\/p>\n<p>Ao falar de Sim\u00f3n Bolivar \u00e9 inevit\u00e1vel que se mencione o presidente venezuelano Hugo Ch\u00e1vez. O bolivarismo est\u00e1 presente em todos os instantes nos discursos de Ch\u00e1vez, servindo como mola propulsora para a discuss\u00e3o da pol\u00edtica externa daquele pa\u00eds, por exemplo. Outro personagem citado \u00e9 Che Guevara, m\u00e9dico argentino que virou guerrilheiro e acabou por se tornar um dos principais ide\u00f3logos da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Ao morrer, &#8220;Che&#8221; se transformou num \u00edcone, ganhando o mundo em imagens. <\/p>\n<p>Eva e Juan Per\u00f3n &#8211; o casal mais famoso de todos os tempos na Argentina &#8211; tamb\u00e9m s\u00e3o lembrados, inclusive tendo papel important\u00edssimo na constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente do Peronismo mas tamb\u00e9m como l\u00edderes trabalhistas e fundadores do Justicialismo &#8211; tendo como lemas, &#8220;Paz, Amor e Justi\u00e7a Social&#8221;. O Peronismo virou religi\u00e3o na Argentina, a ponto de at\u00e9 hoje em dia possuir seguidores apaixonados. <\/p>\n<p>Comp\u00f5em ainda o livro as figuras do mexicano Pancho Villa, os astecas, os incas, os maias, o presidente chileno Salvador Allende &#8211; que tentou revolucionar o Chile pela via pac\u00edfica do socialismo e terminou por se suicidar no Pal\u00e1cio La Moneda, em Santiago, em meio aos bombardeios das For\u00e7as Armadas comandadas pelo general Augusto Pinochet. Al\u00e9m de figuras populares existentes no Haiti pr\u00e9-independente e escravocrata, como Jean-Fran\u00e7ois, Julien Raimond, Jean Kina, Toussaint L\u00b4Ouverture, Henri Christophe, entre outros l\u00edderes, origin\u00e1rios das massas populares, que se auto-determinaram oficiais militares e exerceram papel importante na conquista da independ\u00eancia do Haiti e de S\u00e3o Domingos.<\/p>\n<p>Prestou aten\u00e7\u00e3o ao par\u00e1grafo anterior? <\/p>\n<p>Muito bem: procure esquecer pelo menos metade de tudo que contaram a voc\u00ea, at\u00e9 hoje, sobre o hero\u00edsmo das personagens acima. Esse \u00e9 o prop\u00f3sito do livro: dessacralizar, desmistificar, pormenorizar certos feitos, jogar luz a fatos que ficaram obscuros e que atenderam interesses particulares, a quem interessava um hist\u00f3ria direcionada para um determinado fim, que acabou por se transformar numa hist\u00f3ria oficial. A todo instante os autores se lan\u00e7am a desconstruir os mitos. N\u00e3o \u00e9 prop\u00f3sito desta cr\u00edtica avaliar se determinado mito realmente merece ser questionado, mas \u00e9 importante ressaltar que os autores tiveram como base de apoio uma lista de fontes variadas. A revis\u00e3o t\u00e9cnica da obra \u00e9 do historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos.<\/p>\n<p>Entretanto, o que incomoda na obra \u00e9 justamente perceber que o prop\u00f3sito \u00e9 desconstruir &#8211; e n\u00e3o agregar esclarecimentos. <\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 revisar conceitos, id\u00e9ias e personagens hist\u00f3ricos. Fazer isso, com o sentimento de desd\u00e9m, do tipo <i>&#8220;Fulano n\u00e3o foi ningu\u00e9m&#8221; ou &#8220;Cicrano na verdade era bandido&#8221;<\/i>, j\u00e1 \u00e9 outra coisa &#8211; e a\u00ed n\u00e3o reside mais o ato de historiciza\u00e7\u00e3o. \u00c9 cal\u00fania mesmo. E isso fica bem claro quando o livro aborda Che Guevara, Salvador Allende e o casal Per\u00f3n.<\/div>\n<div><span><\/span><span><\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-3vLBkJFIKXE\/TlUCdeZIdHI\/AAAAAAAADxE\/rUGN8Zi7tBM\/s1600\/allende.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"502\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/allende.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<div>\u00c9 importante lembrar que os dois jornalistas trabalham no Grupo Abril (ambos trabalham na revista Veja e Narloch j\u00e1 comandou a &#8216;Superinteressante&#8217; e a &#8216;Aventuras na Hist\u00f3ria&#8217;). Foi justamente essa a sensa\u00e7\u00e3o que tive ap\u00f3s ler o livro (em exatos cinco dias): a de ter acabado de ler a Veja da semana, tendo Allende\u00a0 (acima) sido massacrado &#8211; ser\u00e1 que se ainda fosse vivo, seria convocado para alguma CPI no Senado? <\/p>\n<p>Lembro mais uma vez que isso n\u00e3o quer dizer que os autores n\u00e3o tenham escrito verdades sobre as personagens &#8211; em grande parte escreveram sim coisas reais &#8211; mas a forma como fizeram as sucessivas desconstru\u00e7\u00f5es incomoda e muito. As \u00fanicas partes onde ocorreu uma brisa de independ\u00eancia de id\u00e9ias foram nas abordagens dos astecas, maias e incas, e nas revoltas no Haiti. <\/p>\n<p>Nos personagens mais contempor\u00e2neos a m\u00e1-vontade dos autores foi extrapolada a olhos vistos.<\/p>\n<p>Os autores tra\u00e7am um panorama sensacional sobre a Argentina antes da chegada de Per\u00f3n ao poder. E acusam o presidente argentino de ser o \u00fanico culpado da derrocada do pa\u00eds nos anos que se seguiram ap\u00f3s assumir a presid\u00eancia. <i>&#8220;\u00c9 s\u00f3 Per\u00f3n aparecer para a Argentina come\u00e7ar a apontar para baixo&#8221;<\/i>, escrevem em certa altura do texto. <\/p>\n<p>Trata-se, sem d\u00favida, de um erro crasso. Seria a mesma coisa que dizer que Vargas foi o grande culpado pelo fim do Estado Novo, ou ent\u00e3o que Castello Branco foi o \u00fanico respons\u00e1vel pelo golpe civil-militar de 1964 no Brasil. Ou ainda que a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica s\u00f3 aconteceu porque Marechal Deodoro da Fonseca, em um ato her\u00f3ico (?), ergueu sua espada e p\u00f4s fim \u00e0 monarquia. Esse tipo de pensamento pormenorizante, baseado numa hist\u00f3ria factual, \u00e9 raso, superficial e tosco. <\/p>\n<p>\u00c9 condi\u00e7\u00e3o sine qua non para qualquer historiador (ou pesquisador de qualquer \u00e1rea) entender que um acontecimento tem por tr\u00e1s uma s\u00e9rie de fatores, uma din\u00e2mica de for\u00e7as, rela\u00e7\u00f5es, conflitos&#8230; um processo que desencadeia enfim, uma transforma\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria. O pr\u00f3prio trabalho de investiga\u00e7\u00e3o que o historiador faz leva a conhecer os caminhos e descaminhos que se traduzem, no fim das contas, nos acontecimentos.<\/p>\n<p>O leitor mais atento e acostumado com a Hist\u00f3ria saber\u00e1 certamente fazer a distin\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 Hist\u00f3ria e o que \u00e9 jornalismo hist\u00f3rico. Mas \u00e9 justamente a\u00ed que reside o perigo: o livro claramente n\u00e3o \u00e9 voltado para historiadores. <\/p>\n<p>O p\u00fablico-alvo abrange desde estudantes e profissionais que nada t\u00eam a ver com Hist\u00f3ria e que aproveitando essa nova onda de obras de teor hist\u00f3rico publicadas por jornalistas (&#8220;1808 e 1822&#8221;, de Laurentino Gomes, e livros de Eduardo Bueno, entre outros). Pessoas que v\u00e3o a uma Megastore qualquer, v\u00eaem o livro e pensam: &#8220;finalmente um livro de &#8216;Hist\u00f3ria&#8217; descomplicado, sem linguagem dif\u00edcil e com diagrama\u00e7\u00e3o f\u00e1cil de ler!&#8221;. <\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que reside o perigo: da apropria\u00e7\u00e3o (indevida) que jornalistas fazem da Hist\u00f3ria, transformando-a em um produto que atenda a interesses de terceiros (grupos editoriais, por exemplo), colocando o conte\u00fado que produzem num patamar onde passem a ser refer\u00eancias no assunto <i>[N.doE.: para mim parece claro tamb\u00e9m que h\u00e1 quest\u00f5es ideol\u00f3gicas influindo de maneira dominante em certos destes livros]<\/i>.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por outro lado, \u00e9 percept\u00edvel que existe tamb\u00e9m um certo preconceito por essa populariza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Prefiro acreditar que o preconceito ocorra justamente pela preocupa\u00e7\u00e3o que expressei acima. J\u00e1 que, enquanto historiadores ou interessados no constante aprendizado devemos sempre estar atentos a tudo que \u00e9 escrito e publicado &#8211; inclusive porque, para criticarmos ou argumentarmos, precisamos primeiro ler as obras.<\/p>\n<p>Popularizar a Hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 errado, muito pelo contr\u00e1rio: \u00e9 preciso transpor os muros que separam a Academia da grande massa de leitores \u00e1vidos por aprender hist\u00f3ria. S\u00f3 que para fazer isso \u00e9 importante fazer com responsabilidade, clareza e independ\u00eancia editorial.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Excepcionalmente fora da quarta feira habitual, temos mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Hist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos&#8221;, assinada pelo Mestre em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio Gomes. 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