{"id":11345,"date":"2011-08-28T09:19:00","date_gmt":"2011-08-28T11:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/08\/orun-aye-samba-enredo-s-a\/"},"modified":"2014-07-24T17:21:00","modified_gmt":"2014-07-24T20:21:00","slug":"orun-aye-samba-enredo-s-a","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/08\/orun-aye-samba-enredo-s-a\/","title":{"rendered":"Orun Ay\u00e9 &#8211; &#8220;Samba Enredo S.A&#8221;"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>Neste domingo, temos <b>mais uma coluna &#8220;Orun Ay\u00e9&#8221;, assinada pelo compositor Alo\u00edsio Villar<\/b>. O tema de hoje, em sensacional texto, \u00e9 uma das maiores distor\u00e7\u00f5es do mundo do samba de hoje: a disputa para escolha do samba de enredo e a quest\u00e3o dos &#8220;escrit\u00f3rios&#8221;.<\/div>\n<p>Ali\u00e1s, tenho alguma amizade com um dos l\u00edderes destes &#8220;escrit\u00f3rios&#8221;, compositor talentos\u00edssimo diga-se de passagem. Em off ele me afirmou v\u00e1rios sambas que s\u00e3o dele e que ningu\u00e9m desconfia que sejam &#8211; inclusive em escolas como a Portela e a Mangueira. Mas em &#8220;on&#8221; ele nega que escreva sambas para outras escolas &#8211; embora todo mundo saiba que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>Vamos ao texto.<\/p>\n<p><i><b>Samba Enredo S.A.\u00a0 <\/b><\/i><\/p>\n<p>J\u00e1 que as pessoas est\u00e3o gostando do assunto samba-enredo farei mais uma coluna sobre o assunto. Como prometi alguns meses atr\u00e1s contarei um pouco como \u00e9 uma disputa de samba-enredo.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o sabe antes mesmo do desfile das escolas de sambas as agremia\u00e7\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o pensando no desfile do ano seguinte. Muitas vezes com um enredo j\u00e1 em processo final de defini\u00e7\u00e3o. Existem v\u00e1rios tipos de enredo que podem ir pra avenida: falar de uma localidade, de uma lenda, uma personalidade ou at\u00e9 mesmo de empresas ou produtos. Enfim contar uma hist\u00f3ria e nos dias de hoje se essa hist\u00f3ria trouxer dinheiro para a agremia\u00e7\u00e3o melhor ainda.<\/p>\n<p>Desse enredo \u00e9 feita uma sinopse. A sinopse \u00e9 um livreto com aquilo que a escola contar\u00e1 na avenida, com seus setores, carros aleg\u00f3ricos, alas e o resumo da hist\u00f3ria que servir\u00e1 como base pra fazer um samba-enredo.<\/p>\n<p>O samba-enredo nos tempos atuais \u00e9 uma coisa fant\u00e1stica. Acredito eu ser a \u00fanica especializa\u00e7\u00e3o em arte que voc\u00ea n\u00e3o precisa ser artista pra executar. Resumindo, no samba de hoje para voc\u00ea ser um compositor precisa nem mesmo saber ler e escrever &#8211; n\u00e3o \u00e9 uma coisa fant\u00e1stica?<\/p>\n<p>Basicamente hoje em dia pra voc\u00ea concorrer em uma escola de samba do Grupo Especial nem adianta tentar fazer sozinho o samba, mesmo que voc\u00ea seja uma pessoa talentosa. A n\u00e3o ser que voc\u00ea seja o Eike Batista &#8211; neste caso s\u00f3 posso lhe desejar boa sorte.<\/p>\n<p>Uma disputa no Especial rende valores expressivos em direitos para a parceria campe\u00e3 &#8211; algo em torno de 300 a 350 mil reais brutos &#8211; e evidente que tendo um pr\u00eamio desses tamb\u00e9m tr\u00e1s muitos gastos. Dificilmente voc\u00ea far\u00e1 parte de um samba campe\u00e3o na elite carioca se sua parceria tiver menos de cinquenta mil reais pra investir.<\/p>\n<p>Faz como ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Geralmente, hoje as escolas permitem que quatro ou cinco pessoas assinem um samba. Nesse grupo de compositores \u00e9 essencial que tenha o integrante que forne\u00e7a o suporte financeiro: pode ser um cara que tenha esse dinheiro ou saiba como arrumar. Tem que ter o \u201ccara da pol\u00edtica\u201d, aquele que \u00e9 bem relacionado dentro da escola, que todos gostem. Geralmente ele participa das atividades sociais dela.<\/p>\n<p>Tem o \u201ccara da torcida\u201d. Ah, esse \u00e9 muito importante porque voc\u00ea pode concorrer com um hino nacional que se n\u00e3o botar torcedor voc\u00ea perde pra um \u201catirei o pau no gato\u201d que tenha torcida. Uma pessoa dessas geralmente \u00e9 de alguma comunidade (jeito mais politicamente correto de chamar &#8216;favelas&#8217;) e tr\u00e1s o povo para torcer por seu samba.<\/p>\n<p>Mas eles n\u00e3o v\u00eam apenas porque voc\u00ea \u00e9 um cara bonito n\u00e3o. Para botar torcida em uma quadra tem que ter \u00f4nibus pra busc\u00e1-los. Um samba campe\u00e3o nem precisa de muitos \u00f4nibus: \u201cbastam\u201d uns quinze a vinte por noite de eliminat\u00f3rias. Tem que bancar bebida da galera, churrasco, geralmente d\u00e3o camisas tamb\u00e9m e evidentemente os ingressos. A parceria tamb\u00e9m costuma usar uniforme lembrando os bons momentos de escola &#8211; a diferen\u00e7a \u00e9 que se voc\u00ea \u201ctirar 10\u201d na prova ela passar\u00e1 na Globo.<\/p>\n<p>N\u00e3o esque\u00e7a que voc\u00ea tem que contratar cantores, cantores do grupo especial claro &#8211; j\u00e1 que voc\u00ea quer ser um compositor vencedor. Barato contratar um desses, com \u201capenas\u201d 700 reais por apresenta\u00e7\u00e3o (que muitas vezes dura cinco minutos) voc\u00ea contrata um. Evidente que o gasto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com ele: voc\u00ea tem que contratar pelo menos mais um tr\u00eas cantores como base dele at\u00e9 porque muitas vezes o seu cantor do especial n\u00e3o aparecer\u00e1 &#8211; porque ele fechou com mais tr\u00eas escolas do Rio e duas de S\u00e3o Paulo no mesmo dia.<\/p>\n<p>Tem que contratar cavaco: dois cavaquinistas, um para a base e outro para a &#8216;firula&#8217;. Tem que contratar viol\u00e3o e h\u00e1 parcerias em algumas escolas que colocam sax, flauta, teclado &#8211; parece uma grande orquestra. Qualquer dia ouviremos em um palco guitarra, tri\u00e2ngulo e at\u00e9, pasmem, um tamborim!!<\/p>\n<p>Mas evidente que isso n\u00e3o basta. Para chegar l\u00e1 voc\u00ea gravou um cd que deve ter custado mais de mil reais a grava\u00e7\u00e3o e fez mais de mil c\u00f3pias dele com prospecto de primeira qualidade. Na quadra, em sua apresenta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de tudo que citei \u00e9 bom colocar umas faixas com versos do samba, uma maior do lado do palco com a letra inteira, m\u00e1quina de papel picado, gelo seco, raio laser, tel\u00e3o com imagens da vaidosa parceria e a letra do samba, al\u00e9m de queima de fogos.<\/p>\n<p>Cada apresenta\u00e7\u00e3o sua tem que ser uma mistura de virada de ano em Copacabana e abertura de jogos ol\u00edmpicos.<\/p>\n<p>E muita, muita gente carregando bandeiras de seu samba, pulando na quadra, cantando sua obra. N\u00e3o precisa necessariamente ser pessoas da \u00e1rea, sua torcida n\u00e3o precisa nunca mais pisar na quadra &#8211; o que importa \u00e9 aquele momento. A diretoria feliz ao ver a quadra cheia.<\/p>\n<p>Bem, t\u00e1 tudo a\u00ed para voc\u00ea ter um samba campe\u00e3o, acho que precisa de nada.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o que estou esquecendo algo&#8230;<\/p>\n<p>..ah sim, tem que fazer o samba tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 o de menos.<\/p>\n<p>Como eu j\u00e1 disse cada parceria deve ter no m\u00e1ximo cinco pessoas assinando, mas tem que ter o cara da grana, da pol\u00edtica, da torcida, de repente cantor pra amenizar gastos&#8230; O cara que escreve pode \u201cbotar por fora\u201d, isso \u00e9, n\u00e3o assinar o samba. Afinal no Samba Enredo S.A. ele \u00e9 o menos importante: geralmente o cara que escreve \u00e9 o pobre, n\u00e3o sabe cantar, n\u00e3o tem pol\u00edtica, n\u00e3o tem torcida e a \u00fanica coisa que tem a seu favor \u00e9 que faz a letra e a melodia e, convenhamos, um compositor saber escrever o samba \u00e9 muito pouco.<\/p>\n<p>Bota esse pobre coitado por fora e se o samba ganhar d\u00e1 uma grana para ele depois. Ele ainda tem que agradecer: afinal n\u00e3o adiantaria nada ele com todo seu talento botar samba numa escola do Especial apenas porque sabe escrever, sem as outras condi\u00e7\u00f5es que eu disse para vencer uma disputa. Provavelmente cairia na primeira eliminat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Para dizer a verdade, se precisa esse cara que escreve. Deixa-o para l\u00e1 fazendo seus sambinhas, gravando em fundo de quintal e caindo de cara.<\/p>\n<p>Para fazer o samba tem grandes conglomerados art\u00edsticos que chamamos carinhosamente de \u201cescrit\u00f3rios\u201d. Eles s\u00e3o formados por grupos de compositores que fazem sambas para muitas escolas e colocam pessoas dessas escolas para assinar. Esses sambas t\u00eam o singelo nome de \u201cpombo\u201d. Os caras escrevem os sambas, mandam e geralmente essas parcerias acabam tendo uma estrutura monstruosa &#8211; quase sempre vencem seus concursos.<\/p>\n<p>Com esse fen\u00f4meno natural de revoada dos pombos para o hemisf\u00e9rio carnavalesco, que ocorre todos os meses de julho e agosto no Rio de Janeiro, ocorrem duas situa\u00e7\u00f5es fascinantes. A primeira \u00e9 que t\u00eam muitos compositores consagrados, alguns considerados talentos\u00edssimos, que n\u00e3o escrevem uma \u00fanica linha; outra que em vez de falarmos ao ouvir algum samba que esse samba \u00e9 da \u201cescola A\u201d ou \u201cescola b\u201d s\u00f3 pelo tipo de samba feito hoje falamos que tal samba \u00e9 de \u201ccompositor A\u201d ou \u201ccompositor B\u201d.<\/p>\n<p>Essas situa\u00e7\u00f5es que citei na coluna, somadas com os enredos patrocinados que muitas vezes obrigam os compositores a criar em cima de enredos que n\u00e3o d\u00e3o o m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es, e as sinopses de samba-enredo hoje que em sua maioria s\u00e3o engessadas e n\u00e3o permitem muito ao compositor criar s\u00e3o os principais motivos de termos sambas hoje que, assim que s\u00e3o feitos, se tornam cl\u00e1ssicos. Sambas muito diferentes um do outro, que n\u00e3o seguem padr\u00e3o definido de dois refr\u00f5es de quatro linhas e falar nome da escola no refr\u00e3o principal. Sambas que, passou o carnaval, lembramos e cantamos em nosso dia a dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o concorda? Acha que fui ir\u00f4nico nessa coluna inteira? Ah t\u00e1, vai me dizer que se eu pedir para voc\u00ea leitor agora cantar pelo menos cinco sambas do carnaval 2011 voc\u00ea n\u00e3o cantar\u00e1 de cara, sem precisar consultar cd, encartes nem internet? Claro que voc\u00ea consegue&#8230;<\/p>\n<p>Essa coluna me fez lembrar minha primeira situa\u00e7\u00e3o de concurso musical.<\/p>\n<p>Em 1994 participei de concurso para a escolha do hino da minha escola. Fiz uma m\u00fasica que gostei muito, mas fui cantar e fiquei em \u00faltimo. Quem ganhou foi um grupo chamado \u201cos filhos do sapateiro\u201d. Quando acabou, um professor disse a mim que minha m\u00fasica era maravilhosa, mas eu cantava mal e tinha que ter arrumado algu\u00e9m para interpretar. Tinha que ter investido em minha obra.<\/p>\n<p>Os filhos do sapateiro investiram e venceram. Mesmo eu nunca mais tendo ouvido falar deles, s\u00e3o os autores do hino do col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Eu achei aquilo na \u00e9poca um absurdo e virei depois compositor de samba-enredo&#8230;<\/p>\n<p>Bem feito.<\/p>\n<div><\/div>\n<div>Orun Ay\u00e9!<\/p>\n<div><i><i>P. S.: Depois que entreguei a coluna aparece o samba de Wanderley Monteiro e parceiros na Portela que coloca em xeque tudo que eu escrevi nela e amea\u00e7a derrubar o Samba-Enredo S.A.<\/i><\/i>Por essas e outras o samba nunca ir\u00e1 morrer<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste domingo, temos mais uma coluna &#8220;Orun Ay\u00e9&#8221;, assinada pelo compositor Alo\u00edsio Villar. 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