{"id":11329,"date":"2011-09-10T11:20:00","date_gmt":"2011-09-10T13:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/09\/cinecasulofilia-the-tree-of-life-arvore-da-vida\/"},"modified":"2011-09-10T11:20:00","modified_gmt":"2011-09-10T13:20:00","slug":"cinecasulofilia-the-tree-of-life-arvore-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/09\/cinecasulofilia-the-tree-of-life-arvore-da-vida\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;The Tree of Life (\u00c1rvore da Vida)&quot;"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Nesta sexta, final de uma semana bastante corrida, temos mais uma <b>edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, professor de Cinema e cr\u00edtico Marcelo Ikeda.<\/b> Como sempre, coluna publicada <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">em parceria com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/p>\n<p><i><b>The Tree of Life (\u00c1rvore da Vida)<\/b><\/i><\/p>\n<p>Foi perfeito ir numa ter\u00e7a-feira \u00e0s 14hs ver o t\u00e3o aguardado &#8216;A \u00c1rvore da Vida&#8217;, de Terrence Malick. <\/p>\n<p>A aura de mito que se instaurou em torno do diretor \u2013 \u00e9 incr\u00edvel como, com a disponibilidade das novas tecnologias, foi poss\u00edvel ver quase em tempo real pequenos v\u00eddeos de celular que mostravam pessoas se acotovelando para entrar na primeira sess\u00e3o p\u00fablica do filme em Cannes \u2013 pode deslocar a aten\u00e7\u00e3o do filme em si para a \u201cpersona\u201d do autor, mas, de qualquer modo, toda essa confus\u00e3o traz pessoas para verem \u201cum filme de cinema\u201d, em que Malick se lambuza com sua possibilidade de \u201ccarta branca\u201d no cinema hollywoodiano. E, acima de tudo, mesmo que n\u00e3o se goste, \u00e9 preciso afirmar que se trata de uma experi\u00eancia ousada, corajosa, generosa, delicada, humana e, especialmente, honesta e coerente com sua filmografia.<\/p>\n<p>Este pr\u00f3logo \u00e9 curioso porque, ao mesmo tempo em que a aura do mito e a grandiloqu\u00eancia se instauram a cada projeto de Malick, \u00e9 poss\u00edvel ver A \u00c1rvore da Vida como um filme menor, at\u00e9 mesmo como um certo aspecto de exerc\u00edcio formal: \u00e9 curioso como, ao mesmo tempo em que Malick prop\u00f5e uma esp\u00e9cie de cosmogonia num estranh\u00edssimo trecho de cerca de quinze minutos, h\u00e1 um conjunto de planos, principalmente quando as crian\u00e7as brincam, em que reina uma atmosfera de leveza e de improviso, em que a c\u00e2mera abra\u00e7a um clima sensorial. <\/p>\n<p>A \u00c1rvore da Vida, ao contr\u00e1rio de, por exemplo, Al\u00e9m da Linha Vermelha, n\u00e3o me parece ser um filme de decupagem, de austeridade formal e de planos longos. Ao inv\u00e9s disso, \u00e9 uma esp\u00e9cie de poema sinf\u00f4nico, composto de movimentos que se dobram, repetem-se com varia\u00e7\u00f5es, estabelecendo rela\u00e7\u00f5es din\u00e2micas. Prova disso \u00e9 a primeira hora do filme, com a quase total aus\u00eancia de di\u00e1logos (as palavras resumem-se praticamente \u00e0 narra\u00e7\u00e3o, de ambi\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica, frequente nos filmes de Malick), quando o filme abandona qualquer voca\u00e7\u00e3o narrativa, para entregar-se a uma nuvem de sentimentos, em que o uso frequente da steadicam confere um tom particular de suspens\u00e3o dos sentidos f\u00edsicos.<\/p>\n<p>Acontece que, para al\u00e9m da beleza desses gestos, A \u00c1rvore da Vida \u00e9 reiterativo: cada plano parece simplesmente reiterar o anterior quanto a uma certa busca por uma inef\u00e1vel beleza da vida, que aponta para a fragilidade do amor, ou ainda que a viol\u00eancia da natureza humana pode a qualquer momento destruir a busca pelo alcance da gra\u00e7a. Alguns recursos tornam-se abusos: contraplong\u00e9es com luz do sol formando flares, steadicams com movimentos aut\u00f4nomos aos personagens, grandes angulares gerando estranhamento, m\u00fasica cl\u00e1ssica compondo climas musicais, efeitos sonoros de timbre bastante grave, etc.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a primeira hora, o filme estabelece sua fei\u00e7\u00e3o narrativa, como um romance de forma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia de um dos filhos de uma fam\u00edlia, e sua rela\u00e7\u00e3o conflitiva com seu pai. Se a narrativa se estabelece de forma mais clara, o filme prossegue com suas estrat\u00e9gias gerais de encena\u00e7\u00e3o: a narrativa tamb\u00e9m se torna reiterativa, formando uma oposi\u00e7\u00e3o entre a fragilidade da beleza feminina (a gra\u00e7a), representada pela m\u00e3e, e a austeridade violenta do pai (a natureza). <\/p>\n<p>Apoiando-se em ant\u00edteses fr\u00e1geis, os personagens carecem de maior for\u00e7a: a grande for\u00e7a desse filme de Malick est\u00e1 nas imagens em si. As imagens tornam-se s\u00edmbolo, \u201cmet\u00e1foras\u201d de quest\u00f5es por demais expl\u00edcitas (por exemplo, uma das sequ\u00eancias que mostra meninos soltando bolhas de sab\u00e3o&#8230;). Ao mesmo tempo em que o filme \u00e9 todo composto por elaboradas elipses e por um fiapo de narrativa, h\u00e1 no fundo pouca sugest\u00e3o ou ambiguidade: os planos parecem funcionar simplesmente como s\u00edmbolos do \u201cprojeto cinematogr\u00e1fico de Malick\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, enquanto assistia a A \u00c1rvore da Vida, n\u00e3o pude deixar de pensar no cinema de Bresson. \u00c9 como se A \u00c1rvore da Vida fosse uma esp\u00e9cie de Mouchette, quando ambos procuram mostrar como um jovem descobre que a vida se afasta da gra\u00e7a e descobre sua natureza. Mas Bresson \u00e9 um materialista: os elementos que ele tem a seu dispor s\u00e3o o corpo e a descri\u00e7\u00e3o dos fatos, ou seja, os elementos do mundo. J\u00e1 Malick prefere compor uma esp\u00e9cie de elegia, um c\u00e2ntico fr\u00e1gil demais para lidar com o mundo: \u00e9 como se a delicadeza desse amor e dessa gra\u00e7a n\u00e3o coubessem num mundo regido pela natureza. A fragilidade do amor de Malick n\u00e3o pode viver neste mundo, apenas no mundo do cinema.<\/p>\n<p>Colocando de outra forma, \u00e9 como se o mundo interessasse pouco a Malick. Seu filme \u00e9 praticamente todo enclausurado nessa fam\u00edlia: n\u00e3o existe hist\u00f3ria ou sociedade, n\u00e3o existe pol\u00edtica. Em Bresson, a perda da inoc\u00eancia de Mouchette o tempo todo dialoga com o mundo e com seu corpo. O cinema de Bresson \u00e9 sempre um cinema do mundo. \u00c9 s\u00f3 compararmos com Pickpocket, em que ao final o personagem encontra sua gra\u00e7a. Mas, antes, ele precisa passar pelo mundo. A epifania s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s de um caminho POR DENTRO do mundo das coisas. \u00c9 o caminho, o percurso que interessam a Bresson. O corpo, o mundo.<\/p>\n<p>Esse clima de suspens\u00e3o neste filme de Malick me remete ao que escrevi sobre dois filmes brasileiros recentes: Insola\u00e7\u00e3o e Do Come\u00e7o ao Fim. Se \u00e9 preciso, apesar de tudo, AMAR, como diz Malick ao final do filme, \u00e9 preciso, antes de tudo, entregar-se ao mundo, porque amar \u00e9 humano, \u00e9 imperfeito. O que me parece faltar a A \u00c1rvore da Vida \u00e9 aquele princ\u00edpio b\u00e1sico colocado no \u00faltimo filme do Woody Allen \u201c\u00e9 preciso caminhar pelas ruas\u201d. <\/p>\n<p>De qualquer forma, \u00e9 comovente a busca de Malick por uma beleza que n\u00e3o cabe neste mundo, especialmente no interior da selva de pedra do cinema hollywoodiano, dominado por franquias e f\u00f3rmulas de produtos preformatados. Se A \u00c1rvore da Vida possui lampejos de uma beleza formid\u00e1vel, seu tom reiterativo \u2013 mesmo com a busca por uma encena\u00e7\u00e3o de improviso, mas sempre um improviso \u201cplasticamente perfeito\u201d (os lampejos de Malick decerto n\u00e3o s\u00e3o os glimpses de Mekas!) \u2013 sua li\u00e7\u00e3o de moral fr\u00e1gil, sua beleza meio autocomplacente, parecem nos mostrar porque o recluso diretor ambienta v\u00e1rios de seus dramas num outro tempo e lugar: uma deliberada recusa do presente. E amar, esse verbo intransitivo, s\u00f3 pode ser conjugado no presente.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta, final de uma semana bastante corrida, temos mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, professor de Cinema e cr\u00edtico Marcelo Ikeda.Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[13,12,11],"class_list":["post-11329","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinecasulofilia","tag-cinema","tag-cultura","tag-marcelo-ikeda"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11329","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11329"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11329\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11329"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11329"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11329"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}