{"id":11241,"date":"2011-11-25T04:05:00","date_gmt":"2011-11-25T06:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/11\/cinecasulofilia-o-garoto-da-bicicleta\/"},"modified":"2011-11-25T04:05:00","modified_gmt":"2011-11-25T06:05:00","slug":"cinecasulofilia-o-garoto-da-bicicleta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/11\/cinecasulofilia-o-garoto-da-bicicleta\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;O Garoto da Bicicleta&quot;"},"content":{"rendered":"<div>Nesta sexta, temos mais uma <b>edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;<\/b>, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor de cinema <b>Marcelo Ikeda<\/b>. Como sempre, publicada em <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com\/\">conjunto com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>O Garoto da Bicicleta<\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tenho profundas d\u00favidas sobre a nobreza das inten\u00e7\u00f5es de O Garoto da Bicicleta, novo filme dos Irm\u00e3os Dardenne que estreia no circuito comercial brasileiro (claro que n\u00e3o no Nordeste).\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De um lado, o filme \u00e9 uma obra de continuidade na filmografia desses not\u00e1veis diretores belgas, uma par\u00e1bola humanista sobre um menino que tenta buscar afeto num mundo que quase sempre o responde com um murro de m\u00e3o fechada.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O filme me parece com um certo tom quase que de homenagem a <i>&#8216;Ladr\u00f5es de Bicicletas&#8217;<\/i>, e as rela\u00e7\u00f5es entre os dois filmes n\u00e3o residem meramente no entrecho da narrativa ou pelo papel central da bicicleta colocado pelo pr\u00f3prio t\u00edtulo. Vem especialmente a partir de um certo humanismo frouxo, de uma ades\u00e3o a um olhar neorealista sobre o tom moral da fic\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os Dardennes ficaram reconhecidos no final dos anos noventa especialmente por sua aproxima\u00e7\u00e3o com o cinema do Bresson: Rosetta \u00e9 praticamente uma refilmagem de Mouchette. Pensar nesse deslocamento, uma d\u00e9cada depois, entre o cinema de Bresson e o neorealismo de De Sica \u00e9 uma forma de entender as mudan\u00e7as entre as op\u00e7\u00f5es dos Dardennes para a encena\u00e7\u00e3o do filme.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por um lado, continua a c\u00e2mera na m\u00e3o sempre pr\u00f3xima aos personagens, o impressionante cinema do corpo fielmente atento \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o dos n\u00e3o-atores (o trabalho dos diretores com o &#8220;garoto&#8221; \u00e9 de fato impressionante). Por outro lado, h\u00e1 um amaciamento dos recursos de linguagem: n\u00e3o h\u00e1 mais aquele exasperante asfixiamento, a opacidade dos personagens, o sentido de vertigem e de deslocamento que o espectador sentia ao presenciar situa\u00e7\u00f5es-limite, temas delicados (se pensarmos em Rosetta ou O Filho).\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sinto que a inicial ades\u00e3o ao cinema do Bresson se dissipa quase por completo nesse O Garoto da Bicicleta. \u00c9 s\u00f3 pensarmos na pr\u00f3pria trajet\u00f3ria de Bresson, em que seus filmes foram se tornando cada vez mais incompreendidos e obscuros, a partir justamente de Mouchette. Os Dardennes v\u00eam fazendo o caminho oposto.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O tom l\u00edmpido da f\u00e1bula humanista dos Dardennes faz com que seu cinema seja cada vez mais visto, cada vez mais compreendido, como um prolongamento de seus filmes anteriores, mas sempre amaciando a radicalidade de cada filme.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa limpidez pode ser vista como um elogio, como sinal de amadurecimento, como se se deixasse o sup\u00e9rfluo e se mergulhasse nos personagens e na dramaturgia, como se fosse tudo o que se tem. Mas tenho d\u00favidas. Em momentos que n\u00e3o s\u00e3o raros, o olhar dos Dardennes, suas op\u00e7\u00f5es de encena\u00e7\u00e3o, geram momentos de psicologia rasa, revelam um melodrama meio que rasteiro.\u00a0Em outros, h\u00e1 instantes iluminadores, j\u00e1 que seu talento \u00e9 indiscut\u00edvel.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O que quero colocar aqui, acima de tudo, mais do que se este \u201c\u00e9 ou n\u00e3o um filme bom\u201d, \u00e9 o caminho do cinema dos Dardennes, e suas op\u00e7\u00f5es em termos de encena\u00e7\u00e3o. Como encenar um mundo, como encenar um gesto?\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em rela\u00e7\u00e3o a seus filmes anteriores que me traziam tantas quest\u00f5es, este O Garoto da Bicicleta me parece algumas vezes fruto de um c\u00e1lculo sem alma, trajet\u00f3ria de realizadores que ao inv\u00e9s de problematizar sua pr\u00f3pria obra, resolveram simplificar n\u00e3o para problematizar ou aprofundar (como Ozu ou HHH), mas para aconchegar-se num lugar mais calmo. Se no A Crian\u00e7a essa simplicidade eu conseguia ver como um elogio, aqui j\u00e1 acho que n\u00e3o raras vezes descamba para um remanso menos interessante.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Vejamos os pr\u00f3ximos!<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta, temos mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor de cinema Marcelo Ikeda. Como sempre, publicada em conjunto comTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[13,12,11],"class_list":["post-11241","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinecasulofilia","tag-cinema","tag-cultura","tag-marcelo-ikeda"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11241"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11241\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}