{"id":11222,"date":"2011-12-11T09:20:00","date_gmt":"2011-12-11T11:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/12\/orun-aye-quando-uma-celebridade-morre\/"},"modified":"2011-12-11T09:20:00","modified_gmt":"2011-12-11T11:20:00","slug":"orun-aye-quando-uma-celebridade-morre","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/12\/orun-aye-quando-uma-celebridade-morre\/","title":{"rendered":"Orun Ay\u00e9 &#8211; &quot;Quando Uma Celebridade Morre&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-t0NUmPbbF2g\/TuILHAg5dxI\/AAAAAAAAEDU\/339Us8seqzY\/s1600\/Galeria-Socrates-Foto-Arquivo_LANIMA20111204_0015_1.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"482\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/Galeria-Socrates-Foto-Arquivo_LANIMA20111204_0015_1.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Neste domingo, como habitual <b>mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Orun Ay\u00e9&#8221;, assinada pelo compositor Alo\u00edsio Villar<\/b>. O tema de hoje \u00e9 uma reflex\u00e3o a partir do falecimento do ex-jogador S\u00f3crates.<\/p>\n<p><i><b>Quando Uma Celebridade Morre<\/b><\/i><\/p>\n<p>Uma das poucas certezas que temos na vida \u00e9 que no fim do ano ter\u00e1 especial do Roberto Carlos de Natal na Globo e que iremos morrer. A n\u00e3o ser que voc\u00ea se chame Oscar Niemeyer ou Jo\u00e3o Havelange&#8230;<\/p>\n<p>A todo momento somos confrontados pela morte: de quem amamos, de conhecidos e algumas vezes o passamento de algu\u00e9m famoso. Este caso \u00e9 muito curioso porque nos faz lamentar, algumas vezes ficar tristes, pela morte de uma pessoa que n\u00e3o conhecemos e ela partiu dessa vida sem sequer saber de nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A \u201cmorte da vez\u201d \u00e9 de uma pessoa muito querida pelos brasileiros. O S\u00f3crates, Dr. S\u00f3crates para os brasileiros que sempre gozaram de sua intimidade. Um grande jogador de futebol que passou pelo Botafogo de Ribeir\u00e3o Preto, Fiorentina, Santos, mas que se consagrou no Corinthians e tive a honra de v\u00ea-lo jogar no Flamengo. Pela sele\u00e7\u00e3o brasileira foi capit\u00e3o daquela que dizem ser um dos maiores times de futebol da hist\u00f3ria. A sele\u00e7\u00e3o brasileira da copa de 1982.<\/p>\n<p>Eu tinha cinco anos e lembro muito pouco desse time. Lembro de todos reunidos na rua para assistir, os fogos e as comemora\u00e7\u00f5es pelas vit\u00f3rias. Minha av\u00f3 pegava o carro e \u00edamos todos num buzina\u00e7o at\u00e9 Copacabana. Eu torcia contra a sele\u00e7\u00e3o porque odiava fogos (domingo passado vendo Flamengo x Vasco e o foguet\u00f3rio que rolava perguntei pra minha filha de dois anos concentrada vendo desenho na tv se ela n\u00e3o tinha medo de fogos e ela me respondeu que n\u00e3o, me senti humilhado) e como tivera um acidente de carro com minha av\u00f3 meses antes tamb\u00e9m tinha medo daquelas sa\u00eddas com buzina\u00e7o. Ent\u00e3o senti um al\u00edvio quando o Brasil perdeu pra It\u00e1lia, mesmo vendo a tristeza e choro de todos.<\/p>\n<p>S\u00f3crates representava n\u00e3o s\u00f3 aquela sele\u00e7\u00e3o, mas um tipo de jogador de futebol diferente. O estudado, o intelectualizado, o politizado. Enquanto jogava pelo Botafogo paulista se formou m\u00e9dico. \u00c9 autor de m\u00fasicas e pe\u00e7as de teatro e ousou falar em democracia quando o Brasil vivia uma ditadura. Foi um dos l\u00edderes da democracia corinthiana, uma democracia que surgiu primeiro que a do pr\u00f3prio pa\u00eds. Um sistema em que tudo era votado pelos jogadores, desde escolha de t\u00e9cnicos at\u00e9 se concentrar ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>E ousou botar a cara e subir palanques ao lado de artistas, pol\u00edticos e intelectuais pedindo elei\u00e7\u00f5es diretas pra presidente do Brasil. Tudo isso j\u00e1 faria do S\u00f3crates uma pessoa diferente, uma pessoa a lamentar a morte. E chocado fiquei quando vi a not\u00edcia, mesmo sabendo que as chances dele eram m\u00ednimas. Cirrose \u00e9 coisa muito s\u00e9ria, o f\u00edgado n\u00e3o se regenera e s\u00f3 transplante pode dar jeito. Falo com tranquilidade do assunto porque minha m\u00e3e morreu disso e sei o quanto essa doen\u00e7a \u00e9 maldita.\u00a0 <\/p>\n<p>S\u00f3crates \u201cescolheu\u201d morrer justamente em um dia decisivo pro Corinthians, dia que ele poderia ser campe\u00e3o brasileiro e eu ao ler a not\u00edcia de sua morte pensei logo \u201cCoritnhians vai vencer\u201d [N.do.E.: S\u00f3crates uma vez disse que &#8220;gostaria de morrer em um domingo, com o Cor\u00ednthians campe\u00e3o. Prof\u00e9tico]. Estava na cara: Deus as vezes parece roteirista de Hoolywood, com aqueles finais que deixam o espectador com olhos marejados na poltrona do cinema.<\/p>\n<p>Assim como Chico Xavier, que tanto fez pelo pa\u00eds morreu em um momento de euforia da na\u00e7\u00e3o. A final da copa do mundo de 2002 onde o Brasil foi campe\u00e3o do mundo. A morte de S\u00f3crates me fez ter vontade de lhe prestar homenagens e relembrar mortes de personalidades que nunca ouviram falar de mim, mas que me marcaram e marcaram o Brasil.<\/p>\n<p>A primeira morte que me lembro foi da Elis Regina em 1982, n\u00e3o a conhecia, mas a repercuss\u00e3o foi grande, assim como n\u00e3o conhecia Man\u00e9 Garrincha e Clara Nunes que morreram logo depois.<\/p>\n<p>A primeira morte de impacto de uma pessoa conhecida deve ter sido a primeira de muitos. Na noite de 21 de abril de 1985, um domingo, assistia tv com minha fam\u00edlia quando entrou o assessor de comunica\u00e7\u00e3o da presid\u00eancia, futuro ministro e governador do Rio Grande do Sul, Antonio Brito falando \u201clamentamos informar que o excelent\u00edssimo senhor Tancredo de Almeida Neves acaba de falecer..\u201d<\/p>\n<p>Lembro da minha tia chorando, as pessoas na minha sala chorando e eu com oito anos de idade tinha no\u00e7\u00e3o do que acontecera, o presidente tinha morrido. Alguns dias antes eu inocentemente conversava com amigos da minha idade sobre a doen\u00e7a dele e nos pergunt\u00e1vamos se os militares continuariam no poder se ele morresse. Enfim, ele morreu e eu n\u00e3o tive aula no dia seguinte. Eu que at\u00e9 ent\u00e3o nunca tinha ido a um enterro na vida vi pela televis\u00e3o o seu vel\u00f3rio e o carro de bombeiros passando pelas ruas de Minas Gerais com seu caix\u00e3o em cima e uma bandeira do Brasil &#8211; acompanhados de uma multid\u00e3o que chorava a perda.<\/p>\n<p>Sofrimento igual vi s\u00f3 anos depois em outra morte que falarei mais tarde.<\/p>\n<p>Fiquei triste por outras mortes. Do Zacarias e do Mussum dos trapalh\u00f5es, do Pep\u00ea, voador carioca bicampe\u00e3o mundial de v\u00f4o livre que era um s\u00edmbolo da cidade, Cazuza, Renato Russo, Freddie Mercury, do jogador de futebol Denner, Tim Maia, Claudinho da dupla Claudinho &#038; Buchecha. Apesar de n\u00e3o ser f\u00e3 vi consternado minha m\u00e3e chorando com a morte do Leandro da dupla Leandro &#038; Leonardo. O sofrimento dos f\u00e3s, pessoas que n\u00e3o faziam parte da vida dele, muitas n\u00e3o conheciam pessoalmente e parecia que um parente morrera.<\/p>\n<p>Passei por isso tr\u00eas vezes com pessoas famosas.<\/p>\n<p>Em 1996 tinha escolhido \u00eddolos para mim, artistas que eu gostava n\u00e3o s\u00f3 pela m\u00fasica, mas pela imagem que passavam. Com muita tristeza, como se fosse com gente da fam\u00edlia vi a morte dos Mamonas Assassinas. Soube pelo plant\u00e3o da Rede Globo (aquela musiquinha que faz a pele arrepiar de susto) que o avi\u00e3o desaparecera e ali j\u00e1 veio um nervosismo de como se fosse algum amigo muito pr\u00f3ximo. Acordei minha m\u00e3e contando a not\u00edcia e por saber que eu era muito f\u00e3 tentou me consolar. Era madrugada e demorei pra conseguir dormir. Quando acordei j\u00e1 imaginava o que veria e inconsol\u00e1vel vi os corpos sendo retirados das matas e o enterro coletivo.<\/p>\n<p>Outra mais recente foi a morte de um dos maiores \u00eddolos que j\u00e1 tive. Acredito que toda pessoa da minha idade imitou pelo menos uma vez na vida o Micahel Jackson. Quem n\u00e3o fez isso n\u00e3o teve inf\u00e2ncia. Com oito, nove anos de idade era comum nas festinhas tocar suas m\u00fasicas e rolar um concurso de break onde os garotos lhe imitavam. Michael Jackson na \u00e9poca era o maior astro do mundo, o her\u00f3i da garotada, todo mundo queria ser Michael Jackson.\u00a0\u00a0 <\/p>\n<p>S\u00f3 que n\u00f3s crescemos e ele n\u00e3o.<\/p>\n<p>Era triste ver sua decad\u00eancia moral e f\u00edsica. Os esc\u00e2ndalos, as bizarrices. Ele j\u00e1 n\u00e3o era mais o mesmo que nos encantou, mas mesmo assim foi um grande choque e tristeza a sua morte j\u00e1 previs\u00edvel. A impress\u00e3o era que nossa inf\u00e2ncia morria um pouco junto com ele. Foi assim que me senti ao ver a not\u00edcia e um grande luto tomou conta de mim por dias.<\/p>\n<p>E aquela que acredito ser o maior de todos os traumas do Brasil.<\/p>\n<p>Essa morte j\u00e1 foi at\u00e9 tema de <a href=\"http:\/\/pedromigao.blogspot.com\/2011\/05\/orun-aye-primeiro-de-maio-e-suas-mortes.html\">coluna minha intitulada \u201c1\u00b0de maio e suas mortes\u201d<\/a>. O brasileiro ama esportes porque ali ele encontra um desafogo. Ali ele esquece as vezes que mora em um pa\u00eds subdesenvolvido e tem orgulho de suas conquistas, o orgulho de ser brasileiro. A m\u00fasica, acho chata por sinal, que diz \u201ce<i>u sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor\u201d <\/i>foi criada em um evento esportivo e n\u00e3o me lembro de ter sido cantada em algo de fora do g\u00eanero.<\/p>\n<p><i>[N.do.E.: pouca gente sabe, mas esta m\u00fasica surgiu no Maracan\u00e3, por parte da torcida do Flamengo, durante o Brasileiro de 1997. O grito original era &#8220;d\u00e1-lhe, d\u00e1-lhe d\u00e1-lhe Meeengoo, com muito orgulho, com muito amoor&#8230;]<\/i><\/p>\n<p>E o brasileiro tinha em Ayrton Senna um s\u00edmbolo disso. Um brasileiro vencedor, que colocava os estrangeiros de pa\u00edses mais fortes \u201cno bolso\u201d. R\u00e1pido, rico, de boa fam\u00edlia, carism\u00e1tico, que vencia e carregava a bandeira do Brasil no carro. O s\u00edmbolo do brasileiro bem sucedido, o que todos queriam ser. Eu sempre fui mais f\u00e3 do Nelson Piquet, gosto mais do estilo debochado dele e sempre foi um baita corredor, mas n\u00e3o tinha como negar o talento e carisma do Senna.<\/p>\n<p>E como todos os brasileiros fiquei chocado com seu acidente. N\u00e3o vi no momento, quando acordei j\u00e1 tinha sa\u00eddo da corrida e at\u00e9 lembro-me de mim reclamando por ele sair de mais uma prova. Depois que soube da gravidade. Fiquei como todo o Brasil na frente da tv acompanhando sua via crucis e n\u00e3o consegui segurar o choro quando veio a confirma\u00e7\u00e3o de sua morte.<\/p>\n<p>Parecia que o Brasil tinha perdido um filho, irm\u00e3o, amigo, pai, tudo ao mesmo tempo. O pa\u00eds se sentia \u00f3rf\u00e3o, desprotegido e foi assim a semana seguinte de sua morte. O translado do corpo, vel\u00f3rio, enterro. Uma multid\u00e3o nas ruas acompanhava a partida de seu \u201cher\u00f3i\u201d morto em combate. Parecia a morte de um soldado na guerra.<\/p>\n<p>E posso dizer que demorou muito pro Brasil se recuperar desse trauma, se \u00e9 que j\u00e1 se recuperou totalmente.<\/p>\n<p>Tancredo Neves, Ayrton Senna, S\u00f3crates&#8230; Algumas perdas que marcam como se fosse de uma pessoa pr\u00f3xima, vai ver porque elas s\u00e3o e nem sentimos. Essas pessoas sem saber fizeram parte de nossas vidas, nossas hist\u00f3rias, crescimento e ver uma pessoa dessas morrer \u00e9 como se um pouco de n\u00f3s tamb\u00e9m morresse ou pelo menos um pouco daquilo que gostar\u00edamos de ser.<\/p>\n<p>Orun Ay\u00e9!<\/p>\n<p><i>(Foto: Lance)<\/i><\/div>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste domingo, como habitual mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Orun Ay\u00e9&#8221;, assinada pelo compositor Alo\u00edsio Villar. 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