{"id":11219,"date":"2011-12-14T07:37:00","date_gmt":"2011-12-14T09:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/12\/historia-outros-assuntos-cartas-de-uma-imperatriz\/"},"modified":"2011-12-14T07:37:00","modified_gmt":"2011-12-14T09:37:00","slug":"historia-outros-assuntos-cartas-de-uma-imperatriz","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2011\/12\/historia-outros-assuntos-cartas-de-uma-imperatriz\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria &amp; Outros Assuntos: &quot;Cartas de uma Imperatriz&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-c5HmWtgRrXM\/TuYRK1Obz5I\/AAAAAAAAEDk\/qmx1fNb1SaA\/s1600\/leopoldine.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/leopoldine.jpg\" width=\"290\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Nesta quarta feira, <b>mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Hist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos&#8221;, assinada pelo Mestre em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio Gomes.<\/b> Hoje o colunista volta aos temas de nossa historiografia com uma interessante resenha.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><b>Cartas de uma Imperatriz \u2013 A vida privada de Carolina Josefa Leopoldina, uma personagem\u00a0real<\/b><\/i><\/p>\n<p>Certas personagens de nossa hist\u00f3ria s\u00f3 reverberam em nossas mentes se forem importantes dentro do processo hist\u00f3rico em que est\u00e3o inseridas. <\/p>\n<p>Mesmo assim, a maioria delas padece de um caminho justo na hora em que suas biografias e trajet\u00f3rias s\u00e3o analisadas. Muitos historiadores caem nessa armadilha e tra\u00e7am suas pesquisas apenas dentro do contexto principal de suas vidas \u2013 e felizmente, caso sejam pesquisas bem-sucedidas, acabam descobrindo que a grandeza das personalidades n\u00e3o est\u00e1 resumida apenas na hist\u00f3ria dos acontecimentos. <\/p>\n<p>\u00c9 como se os atores sociais estivessem encapsulados e tudo que dissesse respeito a eles se restringisse apenas a um curto per\u00edodo de tempo \u2013 em muitos casos, alguns dias\u2026 ou at\u00e9 um dia.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria do Brasil, especificamente falando da Hist\u00f3ria do Brasil Imperial coloca em seu pante\u00e3o figuras como D. Pedro I e Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio (mesmo assim, este recentemente inclu\u00eddo nesse hall gra\u00e7as a novos desdobramentos em pesquisas). No Segundo Reinado, D. Pedro II. Mas seria por deveras ing\u00eanuo entender que somente estas personagens estiveram envolvidas no processo pol\u00edtico do Brasil pr\u00e9 e p\u00f3s-independente. O pr\u00f3prio D. Pedro I durante d\u00e9cadas permaneceu restrito a certas idiossincrasias dentro da historiografia. <\/p>\n<p>Por exemplo, a mitifica\u00e7\u00e3o de seu hero\u00edsmo ao declarar, \u00e0s margens do rio Ipiranga, o famoso \u201cIndepend\u00eancia ou Morte!\u201d. Ou ent\u00e3o sua not\u00f3ria atra\u00e7\u00e3o pelos prazeres da alcova. Durante muito tempo, a hist\u00f3ria que nossas professoras contavam (principalmente nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980) resumiam personagens hist\u00f3ricos apenas aos grandes acontecimentos, sem procurar entender que estas personagens estavam inseridas numa din\u00e2mica (pol\u00edtica, social, comportamental) que estava em constante movimento. A glamouriza\u00e7\u00e3o destes atores bastava para alimentar as imagina\u00e7\u00f5es de adultos e crian\u00e7as. <\/p>\n<p>No Segundo Reinado, Duque de Caxias era o her\u00f3i da Guerra do Paraguai \u2013 o lado sombrio deste personagem era esquecido, e principalmente a atua\u00e7\u00e3o de General Os\u00f3rio, na Batalha de Laguna, providencialmente esquecida. <i>[N.do.E.: a excelente biografia do General Os\u00f3rio deixa claro que ele era muito mais importante que o Duque de Caxias, que, ali\u00e1s, pouco esteve no front de batalha.]<\/i><\/p>\n<p>Que hist\u00f3ria era essa que, aos olhos contempor\u00e2neos, era restrita e esquecida? Devemos, contudo, olhar com reprova\u00e7\u00e3o \u00e0s pesquisas de outrora, ou apenas entender que o que alimenta a hist\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m a infinita possibilidade de explorarmos fontes, documentos, bibliografias e, com isso, real\u00e7armos novas identifica\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>\u201cCartas de uma imperatriz\u201d (Editora Esta\u00e7\u00e3o Liberdade, 496 p\u00e1ginas, R$ 85,00)\u00a0\u00e9 o resultado de uma ampla pesquisa e minuciosa sele\u00e7\u00e3o de fontes realizadas pelas historiadoras Bettina Kann (Biblioteca Nacional da \u00c1ustria) e Patr\u00edcia Souza de Lima (UFRJ), que entre pesquisa, sele\u00e7\u00e3o e transcri\u00e7\u00f5es analisaram cerca de 850 fontes documentais em arquivos brasileiros, austr\u00edacos e portugueses, chegando at\u00e9 o n\u00famero de 315 cartas de Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena\u00a0(Viena, 22 de janeiro de 1797 \u2013 Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1826)\u00a0&#8211;\u00a0jovem monarca da \u00c1ustria, herdeira do trono dos Habsburgos. Leopoldina, que no Brasil passou a assinar seu nome como Maria Leopoldina, foi arquiduquesa da \u00c1ustria, primeira imperatriz-consorte do Brasil, regente do Brasil em setembro de 1821 e, por oito dias, em 1826 (ano de seu desaparecimento), rainha consorte de Portugal.<\/p>\n<p>As duas historiadoras \u2013 Betinna e Patr\u00edcia \u2013 reuniram cartas da jovem imperatriz, num livro que conta ainda com cinco\u00a0ensaios\u00a0abordando o per\u00edodo hist\u00f3rico no Brasil e na Europa, a forma\u00e7\u00e3o intelectual e moral de Leopoldina e a sua participa\u00e7\u00e3o nos des\u00edgnios e desdobramentos da sociedade brasileira no come\u00e7o do s\u00e9culo XIX. Maria Leopoldina\u00a0veio muito jovem para o Brasil e se mostrou uma figura importante n\u00e3o somente para a independ\u00eancia do pa\u00eds, como tamb\u00e9m entusiasta de pesquisas no campo da bot\u00e2nica e mineralogia. <\/p>\n<p>As cartas, escritas em alem\u00e3o, franc\u00eas, portugu\u00eas e ingl\u00eas, cobrem o per\u00edodo que vai de 1808, quando Leopoldina tinha apenas 11 anos, a 1826, ano do seu falecimento, e mais do que retratarem as expectativas da imperatriz, mostram uma consistente consci\u00eancia pol\u00edtica \u2013 o que engrandece a personagem \u2013 e suas m\u00e1goas sofrimentos e tristezas diante do insucesso do matrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>Em 1817, a princesa Leopoldina, digna representante dos Habsburgos, que era uma das mais importantes fam\u00edlias da nobreza europ\u00e9ia, ap\u00f3s ser contatada pelo Marqu\u00eas de Marialva \u2013 encarregado da Corte imperial, para buscar na Europa a futura esposa do monarca portugu\u00eas \u2013 Leopoldina se casara com Pedro por procura\u00e7\u00e3o &#8211; desembarcava no Rio de Janeiro. A jovem princesa austr\u00edaca fora educada sob os preceitos absolutistas e parecia saber, de antem\u00e3o, que teria um papel fundamental na hist\u00f3ria desse recanto dos tr\u00f3picos.<\/p>\n<p>\u201cMeu destino \u00e9 o Brasil, e cumprirei com prazer o mais r\u00e1pido poss\u00edvel\u201d\u00a0&#8211;\u00a0escreveu numa carta \u00e0 sua irm\u00e3 Maria Lu\u00edsa, que havia sido esposa de Napole\u00e3o Bonaparte.<\/p>\n<p>O engrandecimento da personagem \u00e9 comprovado pelas cartas, que deixam transparecer uma monarca rica em sentimentos.<\/p>\n<p>O livro cont\u00e9m um precioso caderno iconogr\u00e1fico (com obras selecionadas de artistas-viajantes que estavam no Brasil na \u00e9poca, como Johann Moritz Rugendas, Thomas Ender, que acompanhou Leopoldina na Miss\u00e3o Austr\u00edaca, e Debret, al\u00e9m de duas aquarelas da pr\u00f3pria Leopoldina e alguns fac-s\u00edmiles das cartas), a \u00e1rvore geneal\u00f3gica da Imperatriz e de D. Pedro I, cronologia hist\u00f3rica, gloss\u00e1rio de nomes, bem como um \u00edndice de todas as cartas e um \u00edndice onom\u00e1stico.<\/p>\n<p>Mais do que descortinar a importante (e at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida) vida privada de D. Maria Leopoldina, \u201cCartas de uma imperatriz\u201d \u00e9 uma refer\u00eancia fundamental para que as novas (e antigas) gera\u00e7\u00f5es percebam que as personagens hist\u00f3ricas n\u00e3o merecem estar fadadas ao monolitismo que muitas vezes as interpreta\u00e7\u00f5es pretendem encapsular.<\/p>\n<p>Finalizando, deixo aos leitores tr\u00eas cartas da Imperatriz Leopoldina que integram o livro\u00a0\u201cCartas de uma Imperatriz\u201d:<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-Z2XVhPqOTZg\/TuYRO3UFKZI\/AAAAAAAAEDs\/ZVS4T-DQK1E\/s1600\/cartas.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/cartas.jpg\" width=\"286\"><\/a><\/div>\n<div><i>P. 393<br \/>Carta a Francisco I<br \/>[226]<\/i><br \/>S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, 7 de mar\u00e7o de 1822<\/p>\n<p>Querido papai!<\/p>\n<p>Embora seja muito penoso para mim escrever, j\u00e1 que espero o nascimento para qualquer momento, considero meu dever mais sagrado lhe dar not\u00edcias minhas, uma vez que conhe\u00e7o bem demais seu cora\u00e7\u00e3o paternal para ter certeza de que minhas linhas t\u00eam algum interesse para o senhor. Aqui reina um verdadeiro caos de id\u00e9ias e cenas, tudo surgido do logro chamado esp\u00edrito de liberdade, e nas prov\u00edncias do Norte agora est\u00e3o assassinando todos os europeus; Deus (que disp\u00f5e tudo para o bem do homem) permita que a situa\u00e7\u00e3o fique calma, como quer me parecer; meu esposo declarou que ficar\u00e1 aqui; embora pensemos diferentemente em alguns aspectos, \u00e9 melhor que me cale e observe silenciosamente. Beijo-lhe as m\u00e3os in\u00fameras vezes, assim como as da querida mam\u00e3e, e permane\u00e7o sempre com fervoros\u00edssimo amor filial e respeito, car\u00edssimo papai, sua filha mui obediente.<\/p>\n<p>Leopoldina<br \/>______________________________________________________________________________<\/p>\n<p><i>P. 409<br \/>Carta a D. Pedro I<br \/>[251]<\/i><\/p>\n<p>S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, 28 de agosto de 1822<\/p>\n<p>Meu querido e muito amado esposo<\/p>\n<p>Perdoe mil vezes que eu ralhei na minha \u00faltima carta, mas deve ser-lhe prova de amizade de ser muito triste de ter me deixado faltar not\u00edcias suas; agora estou content\u00edssima com suas regras de Lorena; n\u00e3o \u00e9 preciso recomendar-me as suas qualidades; seja persuadido, depois de dar-me tantas provas de confian\u00e7a antes perder tudo que faltar aos meus deveres e bem do Brasil; os pap\u00e9is se v\u00e3o imprimir na Gazeta.<\/p>\n<p>Sinto muito dar-lhe not\u00edcias desagrad\u00e1veis, mas n\u00e3o quero faltar \u00e0 verdade, mesmo se \u00e9 penoso a meu cora\u00e7\u00e3o; a tropa de Lisboa entrou na Bahia, e dizem que desembarcou; a nossa esquadra n\u00e3o se sabe o que fez, se \u00e9 falta de \u00e2nimo dela \u00e9 preciso o mais rigoroso castigo, chegar\u00e3o tr\u00eas navios de Lisboa, os quais d\u00e3o not\u00edcias de que os abomin\u00e1veis portugueses querem sua ida para l\u00e1 mesmo se voltasse ao Brasil outra vez, e que ia ao poder executivo a decidir se deve vir mais tropa para c\u00e1, \u00e9 certo que aprontem a toda pressa dois navios; ontem deram a falsa not\u00edcia que estava uma esquadra de Lisboa fora da Barra de modo que todo se aprontou para receb\u00ea-la com fogo e bala.<\/p>\n<p>O Abreg\u00e9 tem tido uma quest\u00e3o com o Martim Francisco, o \u00faltimo deve [ter] toda a raz\u00e3o, e o primeiro tem sido muito atrevido, de modo que era preciso eu o fazer calar; eu lhe escrevo isto porque penso que lhe representaram em baixo de outro modo falso.<\/p>\n<p>Deram um tiro no autor do Di\u00e1rio, e o General Usley na qual diz ir\u00e3o que haviam de dar outro no amigo Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio; a Pol\u00edcia j\u00e1 anda vigiando este neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Mandou-se dar castigo ao autor do Correio que estas tr\u00eas \u00faltimas vezes tem sido o mais que poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Chegou um certo Ver\u00edssimo, dizendo que foi nomeado Encarregado dos Neg\u00f3cios dos Estados Unidos pelo Congresso de Lisboa; ele vem falar-me e o Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio me disse de eu ver se podia tirar-lhe alguma coisa pois soube que saiu mandado pelas Cortes, tr\u00eas meses faz de Lisboa, desembarcou na Am\u00e9rica inglesa, tratando de neg\u00f3cios deles, e por ordem dos mesmos veio para c\u00e1 at\u00e9 mais ordenar, \u00e9 muito mau sujeito, e espert\u00edssimo, de modo que anda sempre em companhia de espias nossos.<\/p>\n<p>O povo e muitos outros falam no por os esquadr\u00f5es da cavalaria a p\u00e9 com muito atrevimento e barulho cr\u00ea que era bom deixar este neg\u00f3cio em esquecimento. O Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio mais lhe falar\u00e1.<br \/>Recebo neste instante sua carta de Taubat\u00e9 que muito lhe agrade\u00e7o em lhe merecer a amizade que me prova sendo certamente todo meu ser, n\u00e3o falando das muitas saudades suas que eu tenho, pedindo-lhe que n\u00e3o fique mais ausente que um m\u00eas; o Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio lhe dir\u00e1 o mesmo; a sua presen\u00e7a \u00e9 muito preciso sendo S\u00e3o Paulo muito longe para dar prontas.<\/p>\n<p>Receba mil abra\u00e7os e as express\u00f5es do mais terno amor e amizade desta sua esposa que o ama ao extremo<\/p>\n<p>Leopoldina<br \/>_______________________________________________________________________________<br \/><i>P. 451<br \/>Carta a Maria Lu\u00edsa<br \/>[315]<\/i><\/p>\n<p>S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, 8 de dezembro de 1826, \u00e0s 4 horas da manh\u00e3<\/p>\n<p>Minha adorada mana!<\/p>\n<p>Reduzida ao mais deplor\u00e1vel estado de sa\u00fade e tendo chegado ao \u00faltimo ponto de minha vida em meio dos maiores sofrimentos, terei tamb\u00e9m a desgra\u00e7a de n\u00e3o poder eu mesma explicar-te todos aqueles sentimentos que h\u00e1 tanto tempo existiam impressos na minha alma. Minha mana! N\u00e3o tornarei a v\u00ea-la! N\u00e3o poderei outra vez repetir que te amava, que te adorava! Pois, j\u00e1 que n\u00e3o posso ter esta t\u00e3o inocente satisfa\u00e7\u00e3o igual a outras muitas que n\u00e3o me s\u00e3o permitidas, ouve o grito de uma v\u00edtima que de tu reclama \u2013 n\u00e3o vingan\u00e7a \u2013 mas piedade, e socorro do fraternal afeto para meus inocentes filhos, que orf\u00e3os v\u00e3o ficar, em poder de si mesmos ou das pessoas que foram autores das minhas desgra\u00e7as, reduzindo-me ao estado em que me acho, de ser obrigada a servir-me de int\u00e9rprete para fazer chegar at\u00e9 tu os \u00faltimos rogos da minha aflita alma. A Marquesa de Aguiar, de quem bem conheceis o zelo e o amor verdadeiro que por mim tem, como repetidas vezes te escrevi, essa \u00fanica amiga que tenho \u00e9 quem lhe escreve em meu lugar.<\/p>\n<p>H\u00e1 quase quatro anos, minha adorada mana, como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravid\u00e3o e totalmente esquecida pelo meu adorado Pedro. Ultimamente, acabou de dar-me a \u00faltima prova de seu total esquecimento a meu respeito, maltratando-me na presen\u00e7a daquela mesma que \u00e9 a causa de todas as minhas desgra\u00e7as. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me for\u00e7as para me lembrar de t\u00e3o horroroso atentado que ser\u00e1 sem d\u00favida a causa da minha morte. Cadolino, que por ti me foi recomendado, e que me tem dado todas as provas da maior subordina\u00e7\u00e3o e fidelidade, \u00e9 quem fica encarregado de entregar-te a presente, e declarar-te o que por muitos motivos n\u00e3o posso confiar a este papel. Tendo ele todas as informa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o precisas sobre este artigo, nada mais tenho a acrescentar, confiando inteiramente na sua probidade, honra e fidelidade.<\/p>\n<p>Faltaria ao meu dever se, al\u00e9m de ter declarado ao Marechal e a Cadolino que tenho d\u00edvidas contratadas (ou contra\u00eddas?) para sustentar os pobres, que de mim reclamar\u00e3o algum socorro, e para as minhas despesas particulares, n\u00e3o dissesse a ti que o Flach, de quem tenho muitas vezes escrito, \u00e9 digno de toda tua considera\u00e7\u00e3o e de meu Augusto Pai, a quem pe\u00e7o-te remeter a inclusa.<\/p>\n<p>Este virtuoso amigo, al\u00e9m de ter se sacrificado e comprometido a si mesmo e seus neg\u00f3cios para me servir, n\u00e3o desprezou meio algum para me procurar socorros. Pe\u00e7o-te por quanto tens de mais sagrado de lhe prestares todo o aux\u00edlio, de modo que ele possa satisfazer aquelas d\u00edvidas que por mim tem contra\u00eddo. Recomendo este exemplo da mais virtuosa amizade. Cadolino te dir\u00e1 qual foi o procedimento de Marechal para comigo. A Marquesa de Aguiar fica encarregada de dar a ti os mais mi\u00fados detalhes sobre quanto diz respeito \u00e0s minhas queridas filhas. Ah, minhas queridas filhas! Que ser\u00e1 delas depois da minha morte? \u00c9 a ela que entreguei a sua educa\u00e7\u00e3o at\u00e9 que o meu Pedro, o meu querido Pedro n\u00e3o disponha o contr\u00e1rio. Adeus minha adorada mana.<\/p>\n<p>Permita o Ente Supremo que eu possa escrever-te ainda outra vez, pois que ser\u00e1 o final do meu restabelecimento.<\/p>\n<p>L. S. B. Marquesa de Aguiar<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta quarta feira, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Hist\u00f3ria &#038; Outros Assuntos&#8221;, assinada pelo Mestre em Hist\u00f3ria Fabr\u00edcio Gomes. 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