{"id":11156,"date":"2012-02-08T05:52:00","date_gmt":"2012-02-08T07:52:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/02\/sobretudo-copyright-is-wrong\/"},"modified":"2012-02-08T05:52:00","modified_gmt":"2012-02-08T07:52:00","slug":"sobretudo-copyright-is-wrong","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/02\/sobretudo-copyright-is-wrong\/","title":{"rendered":"Sobretudo &#8211; &quot;Copyright is wrong&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-yM_qjtnM4kU\/Ty_ZuYLWEqI\/AAAAAAAAEUs\/D_BNVA76EBw\/s1600\/wikileaks.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"360\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/wikileaks.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Ap\u00f3s uma longa aus\u00eancia, <b>temos de volta a coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, assinada pelo publicit\u00e1rio Affonso Romero<\/b>. O tema de hoje s\u00e3o as quest\u00f5es envolvendo o &#8220;copyright&#8221; e as tentativas da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica e pol\u00edticos reacion\u00e1rios de controlar o que se pode fazer na internet, al\u00e9m de levantar alguns aspectos pouco lembrados do debate.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ali\u00e1s, este tema foi alvo de excelente mat\u00e9ria na &#8220;Carta Capital&#8221; semana passada, infelizmente s\u00f3 dispon\u00edvel em m\u00eddia impressa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Antes de passarmos ao texto, um dado para os leitores refletirem: 90% da discografia de samba est\u00e1 fora de cat\u00e1logo. Ou seja, n\u00e3o tenho o direito de comprar, mesmo querendo. E irei preso por baixar este patrim\u00f4nio da m\u00fasica brasileira?<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b><i>Copyright is wrong<\/i><\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>H\u00e1 uns poucos anos, no Faust\u00e3o, o gordo l\u00e1, com uma campanha paga pelas gravadoras, perguntava a todos os convidados o quanto a pirataria prejudicava a vida dos artistas, puxava o assunto, ele mesmo respondia, aquelas coisas dele&#8230; a\u00ed me entra o Zeca Pagodinho, o Fausto ataca de &#8220;vendeu quanto deste disco, Zeca?&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>&#8220;- Ah, j\u00e1 vendeu um mont\u00e3o, o disco t\u00e1 indo bem, Fausto.&#8221;<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>&#8220;- \u00d4 loco, meu!!! Esse \u00e9 o Zeca!!! E isso num pa\u00eds que tem pirataria. Se vendeu isso, era para ter vendido 10 vezes mais. Isso prejudica o artista, n\u00e3o \u00e9 Zeca?&#8221;<\/i><\/div>\n<div><i><br \/><\/i><\/div>\n<div><i>&#8220;- S\u00f3 se for os outros, Fausto. Porque, para mim, \u00e9 at\u00e9 bom. Eu vivo de show. Esses caras divulgam a minha m\u00fasica, o show&#8230;&#8221;<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Corte r\u00e1pido, aumenta o BG da banda. &#8221; Quem sabe faz ao vivo, meu. Zeca Pagodinho!!!&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Copyright, ao contr\u00e1rio do que dizem, \u00e9 um abuso sobre o direito autoral. As primeiras reuni\u00f5es internacionais sobre isso n\u00e3o visavam a prote\u00e7\u00e3o do autor, do homem por detr\u00e1s da obra. A preocupa\u00e7\u00e3o sempre foi de preservar as exclusividades do capital. Os grandes benefici\u00e1rios s\u00e3o as corpora\u00e7\u00f5es. Desde o s\u00e9culo XIX, porque \u00e9 um modelo que come\u00e7ou torto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O atual lobby no Congresso Americano a favor da aprova\u00e7\u00e3o de regras restritivas \u00e0 troca de informa\u00e7\u00e3o e arquivos na internet, al\u00e9m de um atentado \u00e0 liberdade de express\u00e3o, \u00e9 uma luta de corpora\u00e7\u00f5es contra o cidad\u00e3o comum. Nenhum artista s\u00e9rio deveria ser envolvido nesta cruzada rumo ao obscurantismo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Algumas das mais importantes regras do mercado de direitos sobre obras foram impostas pelo governo americano. Os europeus tinham propostas muito mais livres, mas os conglomerados americanos impuseram rigidez ao trato dos direitos autorais. Quem quiser que procure nos livros de Hist\u00f3ria ou nos prim\u00f3rdios do chamado Direito Autoral.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nenhuma obra, seja ela cient\u00edfica ou art\u00edstica, \u00e9 fruto do nada, \u00e9 uma aflora\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea do g\u00eanio humano. Toda cria\u00e7\u00e3o, na verdade, \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o, uma &#8220;re-cria\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ningu\u00e9m fez a primeira m\u00fasica, por exemplo.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Uma &#8220;primeira m\u00fasica&#8221; humana foi fruto de um estalar de \u00e1rvore, da reverbera\u00e7\u00e3o de uma pedra, do canto de um p\u00e1ssaro, de uma imita\u00e7\u00e3o da natureza. A m\u00fasica \u00e9 um dom de Deus, \u00e9 uma coisa natural que vai sendo rearranjada, reordenada. Assim como o autor n\u00e3o paga nada ao autor anterior, eu n\u00e3o devo pagar nada ao autor, tampouco \u00e0 gravadora, \u00e0 editora, \u00e0 distribuidora.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 diferente do disco. Eu compro disco. Estou pagando pelo ve\u00edculo, pela forma, pela embalagem tecnol\u00f3gica, pelo inv\u00f3lucro da m\u00fasica. \u00c9 diferente do show. Eu vou a shows. Estou pagando pela presen\u00e7a f\u00edsica do artista, pelo trabalho, pelo local e equipamento, pelo tempo que dedicaram ao meu prazer auditivo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu respeito o trabalho, respeito o artista, respeito os t\u00e9cnicos e at\u00e9 os burocratas do showbizz. Pago pelo trabalho deles, mas n\u00e3o por um coisa et\u00e9rea que, afinal, \u00e9 o trabalho de toda uma sociedade, de toda a Hist\u00f3ria, do arcabou\u00e7o cultural, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fruto da imagina\u00e7\u00e3o do autor.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Algu\u00e9m que cria um samba, criou o samba do nada, nunca ouviu um samba, desconhece todo o arcabou\u00e7o cultural do samba? Pede para um esloveno, que cresceu e viveu na Eslov\u00eania, para ele criar um samba, ele consegue?\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os criadores de sambas do passado, os primeiros homens a colocar a pele de animais sobre o tronco oco de \u00e1rvores para fazer o primitivo atabaque, o primeiro branco a estruturar sobre aquele pulsar ritmico uma harmonia europ\u00e9ia, aqueles que adaptaram intuitivamente a pentatonia \u00e0 dodecatonia&#8230; quando o sambista de hoje faz seu samba, paga algum tributo a estes senhores mortos h\u00e1 d\u00e9cadas, s\u00e9culos? Ent\u00e3o, por que eu devo pagar pelo direito autoral, se o pr\u00f3prio autor se apropria de conceitos anteriores sem pagar por isso?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ora, cultura est\u00e1 no ar, \u00e9 como o oxig\u00eanio que se respira, n\u00e3o h\u00e1 ped\u00e1gio para isso.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu escrevo textos, fa\u00e7o poesia, j\u00e1 fiz muita m\u00fasica, j\u00e1 fiz jingle. Esta n\u00e3o \u00e9 a opini\u00e3o de algu\u00e9m que s\u00f3 consome cultura. \u00c9 de algu\u00e9m que, apesar de insignificante na ind\u00fastria cultural, produz aqui e ali bens culturais. Este texto mesmo, o que \u00e9? Algo que, em teoria, deveria ser protegido por copyright, certo?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pois eu n\u00e3o quero receber por isso. N\u00e3o pela autoria.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Claro que isso n\u00e3o d\u00e1 ao direito que algu\u00e9m cobre por mim, que se aproprie do tempo que eu levei escrevendo este texto para receber dinheiro por ele no meu lugar. Isso sim \u00e9 roubo. Este direito deve ser protegido.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Assim como n\u00e3o \u00e9 correto que algu\u00e9m publique sem declarar autoria, ou deturpe. Isso deve ser protegido.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o defendo a explora\u00e7\u00e3o comercial da obra alheia, do trabalho alheio. Defendo o direito de ir e vir da obra de arte, do trabalho cient\u00edfico, da informa\u00e7\u00e3o, do bem cultural. Defendo o direito de troca pessoal de conte\u00fados, sem utiliza\u00e7\u00e3o comercial.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Defendo que uma m\u00fasica possa ser ouvida na internet com a mesma liberdade que pode ser ouvida no r\u00e1dio. O que muda? O meio?  Defendo que possa ser baixada na internet da mesma forma que eu podia grava-las do r\u00e1dio numa fita k7.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O que mudou? A tecnologia?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quem acha que \u00e9 a mesma coisa ouvir a m\u00fasica baixada em mp3, por exemplo, ou gravada de f\u00e1brica sobre um CD, das duas uma: ou \u00e9 surdo ou for\u00e7ou a barra. Ou &#8211; o que \u00e9 mais prov\u00e1vel &#8211; ficou deseducado musicalmente pela saraivada de sub-m\u00fasica de p\u00e9ssima qualidade oferecida pelas mesmas corpora\u00e7\u00f5es que agora reclamam.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Efetivamente, d\u00e1 no mesmo ouvir &#8216;\u00c9 o Tchan&#8217; em qualquer midia. Mas \u00e9 diferente ouvir Miles Davis. Quem optou por um modelo comercial em que a sonoridade do Michel Tel\u00f3 \u00e9 o que h\u00e1 n\u00e3o pode reclamar de nada. A ind\u00fastria se fez sobre um bem cultural diluindo este bem culural at\u00e9 transforma-lo em nada. \u00c9 suic\u00eddio, e depois o pr\u00f3prio suicida reclama da arma que o matou.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Walter Monteiro, autor da coluna &#8220;Bissexta&#8221; dese blog, faz alguns dias apenas cunhou uma frase muito boa, que era algo como: <i>&#8220;as gravadoras s\u00f3 existem por causa da evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica; e passam a vida a brigar contra a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.&#8221;<\/i> Era assim a frase, Walter? Mas era por a\u00ed, e \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o muito boa mesmo. S\u00f3 espero n\u00e3o ter incorrido em crime ao &#8220;samplear&#8221; a frase do Walter no meu texto.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Afinal, ele \u00e9 advogado.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s uma longa aus\u00eancia, temos de volta a coluna &#8220;Sobretudo&#8221;, assinada pelo publicit\u00e1rio Affonso Romero. 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